Revista "MUNDO e MISSÃO"
Pobres
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Alberto Garuti Uma favela se compromete
Casas pequenas, na maioria inacabadas, sem reboco, uma grudada na outra, muitos telhados de eternit, vielas estreitas, a maior parte delas com dois metros de largura: neste ambiente moram milhares de pessoas, originárias de Minas ou do Nordeste, que executam serviços humildes, ganham salários baixos e lutam para que esse pouco dinheiro seja suficiente até o fim do mês. Essas pessoas, somente com seus escassos recursos, se comprometeram a
assistir quinzenalmente um bom grupo de moradores de rua da cidade de
São Paulo.
Como nasceu o projeto? Partiu de um desejo meu que surgiu quando participei de uma experiência semelhante, quatro anos atrás, junto com grupo de pessoas que pertenciam ao movimento "Toca de Assis". Eu percebi que o trabalho dava vida àquelas pessoas. Este ano na minha comunidade senti a necessidade de algo que pudesse unir as pessoas. A tendência, como acontece em muitas Igrejas, é que cada pastoral trabalhe para si. Em nosso projeto, que chamarei "Pastoral de rua" houve a necessidade para todos se reunirem para o trabalho dar certo. O trabalho está indo bem porque toda a comunidade se une para dar conta desse compromisso a serviço dos irmãos. Como se desenvolve essa pastoral de rua? Os alimentos são doados pela comunidade, a própria comunidade se organiza para cozinhá-los no sábado à tarde e à noite são levados para as pessoas que se encontram na rua. Quantas pessoas participam do projeto? Cerca de cem pessoas se comprometeram a doar os alimentos, mais seis cozinham e um grupo de vinte distribui nas ruas o que foi preparado. Foi difícil fazer com que a idéia fosse aceita? No começo não foi fácil. A maior dificuldade foi o transporte. Por ser uma comunidade carente, poucos têm carro que possa ser posto à disposição para esse serviço. Mas conseguimos achar quatro. A outra dificuldade é contínua, a falta de dinheiro. Achar arroz e feijão até que não foi difícil. Não foi assim para a carne e as embalagens plásticas. Mas as pessoas, justamente aquelas que antes só vinham à missa e depois voltavam para casa, começaram a tomar iniciativas, a organizar, por exemplo, feijoadas para angariar fundos para essas compras.
Eu não apresentei logo o meu projeto a toda a comunidade. Inicialmente, procurei algumas pessoas que eu sabia que apoiariam o projeto. Montamos uma comissão de oito pessoas, reunimo-nos e começamos a discutir. Começamos com o plano de levar 70 refeições de cada vez, agora já chegamos a 150, distribuídas quinzenalmente. Cada refeição se compõe de arroz, feijão, carne e verdura. Quais os outros aspectos de seu projeto? Levar as marmitas é uma maneira de entrar em contato com as pessoas. Nós levamos também cobertores e roupas, e especialmente queremos entrar em contato com essas pessoas, ouvi-las, principalmente, e falar com elas.
Onde vocês distribuem as refeições? Começamos com os moradores de rua do nosso bairro, mas a maioria dos moradores de rua se encontra no centro da cidade, na praça da Sé e nós vamos até lá. Nosso trabalho não é só entregar mamitas, nós queremos dar atenção a estas pessoas que moram na rua, conversar com elas e sobretudo escutá-las. Se você mostra que tem tempo, eles se abrem, contam toda sua vida, suas dificuldades. Descobrimos que o que mais querem é ser ouvidos. Então vocês descobriram que essas pessoas tem necessidade de falar, acima de tudo? Exatamente, porque eles passam dias inteiros sem que ninguém lhes dê atenção, sem que ninguém se disponha a ouvi-los. Todo mundo quer dar conselhos, quer dar lições para eles, uns até passam xingando-os de vagabundos, ,de maconheiros, de bêbados. Quando chega a comida, uns comem logo, outros esperam um pouco, querem falar com você, querem botar fará fora tudo e ser ouvidos. Depois eles comem. Vocês encontram também meninos de rua? Encontramos. Na praça da Sé há um canto onde as
crianças se reúnem. Essas não querem comer. Não
sei como, mas as crianças sempre encontram um jeito de conseguir
alimento. Elas querem conversar com você, não só,
mas também pular, brincar, dançar para você. Quando
umas meninas do nosso grupo dão um beijo neles, é uma alegria
que não é fácil descrever. Nós perguntamos por que e ele respondeu que o médico o tinha avisado que se continuasse a cheirar cola iria morrer, pois tinha um problema no coração. Depois nos reunimos, cantamos com eles, fizemos alguma oração com eles (e as pessoas que estavam na praça da Sé se unindo a nós, cantando e rezando conosco) e na volta comentamos entre nós como deve ser difícil para uma criança ouvir do médico que ela vai morrer e não ter ninguém com quem falar, abrir-se, desabafar. Mas eles não têm amigos? Têm, as pessoas de rua como eles. mas eles precisam também de outras pessoas. As outras pessoas de rua são marginalizados, excluídos como eles. Percebemos que eles precisam também e especialmente de alguém que esteja inserido na sociedade, que participa ativamente daquela sociedade que os exclui, para se sentirem de novo aceitos, para sentir que não é toda a sociedade que os exclui. Falando de seu grupo, que modificações você percebem nos que começaram a se engajar nesse trabalho? O primeiro objetivo era a unidade da capela e nós o conseguimos.
Antes as pastorais trabalhavam cada uma por conta própria, não
existia vontade de trabalhar em grupo.
Quais mudanças você percebeu entre aqueles que levam a comida? Eles também sinto que se tornam mais cristãos e humanos. Em geral a turma que leva a comida é composta de jovens. Começam a perceber que muitas situações dignas de atenção existem também em nossa favela. Há anos convivíamos com elas e ninguém se dava conta. Estávamos acostumados. Agora não, muitos começam a perceber que não podemos conviver com certas situações. O trabalho ajudou também na espiritualidade: partiu do grupo a
idéia que todo mês é bom fazer uma hora de adoração
para que Deus anime cada vez mais o nosso trabalho.
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