Revista "MUNDO e MISSÃO"

Papa

 

O MUNDO NOS ANOS 60

a realidade, o mundo ao qual se dirigia João XXIII, encontrava-se numa situação de profunda desordem. O século 20 começara com uma grande expectativa de progresso, mas, ao contrário, a humanidade viu duas guerras mundiais, mais outras locais, a implantação de devastadores sistemas totalitários, o acúmulo de imensos sofrimentos humanos e o desencadeamento da maior perseguição contra a Igreja, até então conhecida na história. Em 1961, ergueu-se o Muro de Berlim não somente como linha divisória da referida cidade, mas também símbolo de duas formas de conceber e construir a cidade terrena.

De cada lado do muro, a vida assumiu um estilo diverso, inspirado em regras contrárias umas às outras, num clima generalizado de suspeita e desconfiança. Quer como visão do mundo, quer como organização concreta da vida, aquele muro atravessou a humanidade no seu conjunto e penetrou no coração e na mente das pessoas, criando divisões que pareciam destinadas a durar para sempre. Seis meses antes da publicação da Encíclica e poucos dias depois do início do Concílio Vaticano II em Roma, o mundo encontrou-se à beira duma guerra nuclear por causa da crise dos mísseis em Cuba.

Muitos pensavam que a humanidade estivesse condenada a viver ainda por muito tempo naquelas condições precárias de "guerra fria", sujeita constantemente ao pesadelo que agressões ou desastres nucleares pudessem desencadear, de um dia para o outro, a pior guerra de toda a história humana que poria em risco o próprio futuro da humanidade.

AS QUATRO COLUNAS DA PAZ

João XXIII não concordava com os que consideravam a paz impossível. Por meio da Encíclica, fez com que esse valor fundamental, em toda a sua verdade e exigência, começasse a bater no coração da humanidade. A Encíclica falou da pertença comum à família humana, iluminou a aspiração sentida pelas pessoas de toda a terra de viverem com segurança, justiça e esperança no futuro. Espírito clarividente, João XXIII identificou como condições essenciais da paz quatro exigências concretas da alma humana: a verdade, a justiça, o amor e a liberdade.

A verdade, dizia ele, será fundamento da paz, se cada indivíduo honestamente tomar consciência não só dos próprios direitos, mas também dos seus deveres para com os outros. A justiça edificará a paz, se cada um respeitar concretamente os direitos alheios e esforçar-se por cumprir plenamente os próprios deveres para com os demais. O amor será fermento de paz, se as pessoas sentirem como próprias as necessidades dos outros e partilharem com eles o que possuem, a começar pelos valores do espírito. Finalmente, a liberdade alimentará e fará frutificar a paz, se os indivíduos, na escolha dos meios para alcançá-la, seguirem a razão e assumirem corajosamente a responsabilidade dos próprios atos.

UMA NOVA CONSCIÊNCIA DA DIGNIDADE DO HOMEM E DOS SEUS DIREITOS INALIENÁVEIS

A humanidade, escrevia João XXIII, entrou numa etapa nova do seu caminho. O fim do colonialismo, o nascimento de novos estados independentes, a defesa mais eficaz dos direitos dos trabalhadores, a presença incipiente das mulheres na vida pública eram, para ele, sinais de que a humanidade estava entrando numa nova fase da sua história, caracterizada pela "opinião de que todos os seres humanos são iguais entre si por dignidade de natureza". Sem dúvida, tal dignidade era ainda espezinhada em muitas partes do mundo, e o papa não o ignorava, mas estava convencido de que, não obstante a situação fosse dramática em alguns aspectos, o mundo manifestava-se cada vez mais consciente de certos valores espirituais e mais aberto à riqueza de conteúdo das "colunas da paz", que eram a verdade, a justiça, o amor e a liberdade.

Com o esforço de levar esses valores à vida social, tanto a nível nacional como internacional, homens e mulheres poderiam se tornar cada vez mais conscientes da importância da sua relação com Deus, constituindo o sólido fundamento e o critério supremo da sua vida, seja como simples indivíduos, seja como seres sociais. Em vista da crescente consciência dos direitos humanos que começava a se manifestar no campo nacional e internacional, João XXIII intuiu a força contida em tal fenômeno e o poder extraordinário que tinha para modificar a história. O caminho para a paz, portanto, devia passar pela defesa e promoção dos direitos humanos fundamentais, porque toda pessoa humana goza deles não por benefício concedido por uma determinada classe social ou pelo Estado, mas pelo direito que lhe pertence como pessoa.


João XXIII identificou como
condições essenciais da paz quatro exigências concretas
da alma humana: a verdade, a justiça, o amor e a liberdade

Na base da convicção de que todo o ser humano é igual em dignidade e, por conseguinte, que a sociedade deve adequar suas estruturas a tal pressuposto, rapidamente surgiram os movimentos em favor dos direitos humanos, que deram expressão política concreta a uma das grandes dinâmicas da história contemporânea. Tais movimentos, praticamente presentes em todo mundo, contribuíram para a derrocada de formas ditatoriais de governo, impelindo a substituí-las por outras mais democráticas e participativas.

O BEM COMUM UNIVERSAL

Há outro ponto onde a doutrina da Pacem in Terris demonstrou-se profética, prevendo a fase seguinte da evolução das políticas mundiais. Diante de um mundo que ia se tornando cada vez mais interdependente e global, João XXIII sugeriu que a noção de bem comum fosse reelaborada com um horizonte mundial; assim, para ser correto, o discurso devia fazer referência ao conceito de "bem comum universal".

Uma das conseqüências dessa transformação era evidente: a necessidade de haver uma autoridade pública em âmbito internacional, dispondo de efetiva capacidade para promover o referido bem comum universal da comunidade mundial. Nessa linha, o papa deixava entender que a defesa dos direitos humanos pela Organização das Nações Unidas era o pressuposto indispensável para o aumento da sua capacidade de promover e defender a segurança internacional.

UMA NOVA ORDEM MORAL INTERNACIONAL

A existência de uma grande desordem na situação do mundo é constatação partilhada por todos. Conseqüentemente, a questão que se impõe é esta: que tipo de ordem pode substituir a desordem, para que os homens e as mulheres tenham a possibilidade de viver com liberdade, justiça e segurança? E uma vez que o mundo, mesmo na sua desordem, vai-se "organizando" em vários campos (econômico, cultural e até político), surge outra pergunta: segundo quais princípios estão se desenvolvendo essas novas formas de ordem mundial?

Essas perguntas de âmbito muito vasto indicam que o problema da paz, corretamente entendida, não pode prescindir de questões relacionadas com os princípios morais. Em outras palavras, resulta, a partir dessa perspectiva, também, a convicção de que a questão da paz não pode ser separada do problema da dignidade e dos direitos do homem. Ora, essa constitui precisamente uma das verdades perenes ensinadas pela Pacem in terris, que será bom recordar e meditar neste seu quadragésimo aniversário.

Trechos da mensagem de João Paulo II,
por ocasião do Dia Mundial da Paz

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar