Revista "MUNDO e MISSÃO"
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MULHERES: histórias de dor e de morte Giancarlo Politi A condição feminina na Jordânia, país majoritariamente muçulmano, não está isenta de espinhos. Mas se as mulheres são estrangeiras e cristãs, sua Condição pode-se tornar até insuportável Por motivos de segurança foram mudados os nomes das pessoas e evitaram-se todas as informações que poderiam identificá-las. Marilena Marilena vem de um país do Leste europeu. No final dos anos oitenta, apaixona-se e casa-se com um jovem muçulmano. Por alguns anos, vivem felizes no país da moça. Certo dia, o marido fica doente e é diagnosticada uma leucemia. Depois de muitas dúvidas, decide voltar para a Jordânia, sozinho; não acha bom levar consigo a família. Alguns meses depois, a esposa recebe uma longa série de comunicações, telefônicas e por escrito: "Se quiser ainda rever seu marido vivo, venha logo, está muito grave!". Selim, infelizmente, já tinha morrido há algumas semanas. Chegando à Jordânia com a filha, Marilena é fechada na casa dos pais do marido junto com a criança. Não pode sair, não pode entrar em contato com outros, livremente. A situação torna-se progressivamente insuportável. Mas, no restrito círculo de contatos permitidos, um revela-se providencial. É uma senhora italiana, casada com um muçulmano. Ela lhe sugere contatar um hospital, não longe, que lhe oferece um trabalho. Duas vezes chega ao serviço cheia de hematomas: o sogro a espancara por tê-la descoberto falando com um homem. Depois de algum tempo, Marilena consegue escapar para o exterior numa fuga aventurosa. Hoje, encontra-se nos Estados Unidos, onde ainda está travando uma batalha perdida desde o início: receber a filha da família do esposo. Não é somente a tradição religiosa que é responsável por essa mentalidade e costumes. Atitudes desse tipo de-pendem talvez mais de uma cultura que lança suas raízes em tradições antigas em defesa da família e do clã. Uma sociedade fundamentalmente fechada, na qual o homem tem a tarefa de proteger seu núcleo familiar ou o clã de intromissões perigosas, enquanto a mulher é limitada à custódia da tenda. Ela deve cuidar dos filhos e é obrigada a satisfazer os desejos do marido, que é seu dono. Isso acontece a milhões de mulheres, não só na Jordânia ou no mundo árabe. Basta pensar naquilo que recentemente foi noticiado sobre as mulheres na Argélia, no Afeganistão, na Índia, Paquistão, Bangladesh... São ainda muito poucas as mulheres cuja dignidade é reconhecida dentro da sociedade familiar ou da aldeia. Juliana e Ludmilla A mãe da pequena Faran era italiana, casada com um homem vindo da Jordânia e que tinha passado muitos anos na Itália, onde encontrou trabalho e amizades. Com o casamento, mudaram para a Jordânia. Os primeiros anos passaram felizes, mergulhados no carinho e cuidados, às vezes, até exagerados. Os problemas começaram com o nascimento da filha. A família dele assumiu totalmente sua criação, deixando Juliana, a mãe, de lado. Esta situação a levou a abandonar o marido, completamente dependente dos pais. Mas Juliana tinha cometido um grande erro; chegando ao país, entregara seu passaporte ao sogro. A família tinha ligações poderosas e havia conseguido alertar também as fronteiras para impedir Juliana de abandonar a Jordânia. Por milagre (no último dia de uma novena que estava fazendo), Juliana recuperou o passaporte e, logo, deixou Amman. Agora, na Itália, Juliana ainda vive no medo de que o marido (que, no entretempo, se casou de novo), possa um dia voltar e tirar-lhe Faran. Dois anos atrás, outra moça conseguiu ir embora. Na Romênia, onde nascera e ganhara dois filhos, tinha-se formado em radiologia e trabalhava num hospital. Quando, com o marido, tomaram a decisão de mudar para a Jordânia, Ludmilla teve a esperteza de pôr as crianças no seu passaporte. O marido tinha-lhe dado toda garantia de que sua liberdade seria totalmente respeitada. Porém, os pais dele queriam que ela se convertesse ao islã. A sogra começou a bater-lhe freqüentemente: queria uma descendência muçulmana. No fim, conseguiu casar o filho com outra mulher, uma prima, abrindo assim o caminho a Ludmilla para voltar para a Romênia. Cíntia Não é raro, todavia, encontrar jovens que conseguiram superar - ou estão tentando fazê-lo - as regras do clã, desafiando o sistema secular de relacionamento. Poucos têm a força de ir até o fundo; os outros acabam sucumbindo às formidáveis pressões do ambiente. Cíntia tinha-se apaixonado por um colega de faculdade jordaniano, Samir. Depois de formados, casaram, apesar da oposição da família de Cíntia. O casamento significou também a mudança para o país do esposo. À pressão familiar juntou-se a dificuldade de encontrar um trabalho estável, portanto, a impossibilidade de conseguir uma independência econômica. Além disso, a família estava se tornando cada vez mais numerosa: com o ritmo de um filho por ano, já tinham cinco. Os dois, realmente apaixonados, há três anos decidiram voltar para a Itália, mas tiveram que fazê-lo clandestinamente, sem que a família dele o soubesse. Para Samir, a decisão de ficar com Cíntia e deixar seu país foi pesada e sofrida. Para ele, significou o corte de todo relacionamento com seus familiares, também no plano legal. Tendo "desonrado" a família, não terá mais acesso a nenhum sustento econômico, a nenhuma parte da herança: o clã, para ele, não existe mais. Beatriz e Samira Trágico foi o caso que envolveu, anos atrás, uma mulher da Itália central, Beatriz. Quando o marido, Bilal, decidiu voltar para a Jordânia, ela o seguiu com o filho. Mas ficou somente duas semanas: logo que se deu conta das condições nas quais deveria viver, recusou-se a ficar. O acordo com Bilal era que ele também voltaria para a Itália, com a criança, depois de algumas semanas. Mas isso nunca aconteceu. Também a luta nos tribunais revelou-se absolutamente inútil e ineficaz. A mãe de Beatriz, entretanto, ia a intervalos regulares à Jordânia para ver o neto. Enfim, um dia pôde levá-lo de volta para a mãe. Mas, aqui, a longa mão do clã jordaniano foi atrás dele e o matou. Igualmente trágica foi a história de uma menina cristã que demonstra como certas regras sociais entraram em profundidade também entre os não-muçulmanos. Samira desejava muito tornar-se enfermeira. Depois de formada, logo foi contratada por um hospital de Amman. Sendo bonita e solteira, quando seu turno terminava tarde à noite, o irmão mais velho a esperava na saída e a acompanhava até casa. Uma noite, um forte vendaval atrasou a chegada do irmão. Samira achou por bem voltar sozinha. Foi sua condenação à morte: a família sentiu-se "desonrada" pela menina que ousara aventurar-se sozinha na escuridão da noite... |
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