Revista "MUNDO e MISSÃO"

Saúde

Câncer a importância do conhecimento e da prevenção

Leo Pessini

O câncer não poupa ninguém. Ele toca o rico e o pobre, o jovem e o idoso, homens, mulheres e crianças. Para além dos custos financeiros da doença, o câncer tem repercussões psicossociais e espirituais importantes para os doentes e seus familiares. Em muitas partes do mundo esta doença ainda é vista como estigmatizante, associada a muito sofrimento e à morte certa em pouco tempo. O câncer é um termo genérico que designa um grupo de mais de cem doenças que afetam qualquer parte do corpo. Outras expressões utilizadas com freqüência são tumores malignos ou neoplasias. Uma característica definidora do câncer é o crescimento rápido e anormal de células, que podem invadir partes do corpo e se espalhar para outros órgãos, um processo denominado metástase. As metástases são a maior causa de morte, causadas pelo câncer.

Dados preocupantes

O câncer é a maior causa individual em número de mortes no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). De um total de 58 milhões de mortes em 2005, ele sozinho responde por 7,6 milhões delas.

Os principais tipos de cânceres que mais mataram, em 2005, foram:

- de pulmão, de estômago, de fígado, de cólon e de mama.

Mais de 70% de todas as mortes, causadas pelo câncer em 2005, ocorreram em países pobres, onde os recursos disponíveis para prevenção, diagnóstico e tratamento, são limitados ou não existem. Está claro que um dos maiores desafios em termos de prevenção, tratamento e cuidado passa pela superação das disparidades e iniqüidades entre países pobres e ricos. Segundo a OMS, 84 milhões de pessoas morrerão nos próximos 10 anos, se algo urgente não for feito. Estima-se que mais de 40% de todos os tipos de câncer podem ser prevenidos por dieta saudável e atividades físicas. Contudo, o dramático aumento dos fatores de risco, como uso do tabaco e obesidade, contribuem para o aumento das taxas de câncer, particularmente nos países de baixa e média renda. O contexto global de mudanças rápidas, devido à globalização dos mercados e urbanização, leva ao consumo excessivo de alimentos com altas taxas de gordura, açucares e sal, e à diminuição do consumo de frutas e vegetais. Acrescenta-se a isso níveis elevados de vida sedentária. Em conseqüência, a incidência de câncer e de outras doenças crônicas cresce assustadoramente.

Prevenção e cuidados

O conhecimento das causas, de intervenções preventivas e de manejo do câncer é, hoje, amplo. Entendemos como ações públicas as que objetivam colocar em prática este conhecimento. Isto inclui a implementação sistemática de estratégias de prevenção, detecção precoce e cuidado dos pacientes com a doença. Em torno de um terço de todos os casos de câncer podem ser reduzidos ao se implementar estratégias preventivas, que visam reduzir a exposição aos riscos, principalmente evitando tabaco e álcool, mudando hábitos alimentares, praticando atividades físicas, imunizações, controle de riscos ocupacionais e redução à exposição da luz solar. Outro terço de casos podem ser curados, se detectados precocemente e tratados de forma adequada.

A detecção precoce tem dois componentes:

- de um lado, a educação para promover um diagnóstico ao se reconhecer sinais de câncer: nódulos, feridas, indigestão e tosse persistente, hemorragia em todos os orifícios do corpo e a importância de se buscar atenção médica imediata para tais sintomas.

De outro lado, temos o screening, que é identificação por meio de testes das pessoas com câncer precoce ou pré-câncer, antes que os sinais sejam detectados. Testes de screeenings estão disponíveis para câncer de mama (mamografia) e câncer cervical (testes citológicos). O tratamento do câncer visa curar, prolongar e aprimorar a qualidade de vida dos pacientes. Alguns dos tipos mais comuns de câncer, tais como o de mama, do cervix, e coloretal têm alta taxa de cura quando detectados precocemente e tratados segundo a melhor evidência. Os principais métodos de tratamento são cirurgias, radioterapias e quimioterapias. Fundamental para o tratamento adequado é um diagnostico preciso, através de pesquisa que envolve imagem (ultra-som, endoscopia e radiografia) e laboratório (patologia). O alivio da dor e outros sintomas podem ser efetivos, em mais de 90% de todos os pacientes com câncer, através dos cuidados paliativos.

Um caso especial: o câncer de pulmão

A principal causa deste tipo de câncer é o cigarro. Só no Brasil, estima-se 17.850 novos casos de câncer de pulmão em homens e 9.320 nas mulheres, em 2006. Estes números correspondem a um risco estimado de 19 novos casos para cada 100 mil homens e 10 para cada 100 mil mulheres. Segundo a OMS, há hoje no mundo cerca de 1,1 bilhão de fumantes. O cigarro mata cerca de 5 milhões de pessoas por ano no mundo e prevê-se 10 milhões de mortes por ano, a partir de 2020. Fala-se que, se as pessoas deixassem de fumar, 35% dos casos de câncer deixariam de existir. Quem não fuma, mas convive com a fumaça alheia, em ambientes fechados, também pode desenvolver um câncer.
O câncer de pulmão é um grande problema de saúde pública em nosso país. O governo gasta, em média, de 20 a 25 bilhões de reais na área de saúde para tratamento de problemas relacionados ao cigarro. Isto representa cerca de 1,5% do PIB, mesma quantia que o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza para a saúde no país!

Educação e Informação

A informação é a arma mais eficaz de combate ao câncer, tanto na prevenção como na participação do paciente na decisão sobre tratamentos. Até os anos 50, os médicos não informavam seus pacientes de que eles tinham câncer. Ninguém ousava pronunciar a palavra; falava-se em “aquela doença”, uma espécie de castigo ou punição, sentença de morte. Como diz o dr. William Breitbart: “A informação é esperança. Comunicação é cura e conexão, isto é, o cuidado é a salvação”.
Ainda hoje persistem mitos em relação à doença, apesar das informações sobre ela. Uma pesquisa recente nos Estados Unidos (Ted Gansler, da American Cancer Society) examinou as falsas noções sobre a doença e como estas influenciam no sucesso ou no fracasso do tratamento. Foram entrevistados 957 adultos saudáveis. Para espanto geral, 41% dos entrevistados disseram acreditar que a cirurgia para remoção do tumor pode espalhá-lo pelo organismo e 27% deles consideram que a indústria farmacêutica tem a cura do câncer, mas a esconde para não reduzir seus lucros. Essa crença também existe no Brasil. Além disso, a pesquisa revela que 13% dos entrevistados pensam, por exemplo, que os analgésicos não são eficazes no combate ao câncer; basta ter uma atitude positiva em relação à doença, porque ela não tem tratamento eficaz. O maior índice de respostas erradas foi justamente dos mais idosos, negros ou hispânicos, de baixo grau de instrução e renda; em suma, população pobre.
Atitudes saudáveis e consultas médicas periódicas, não só promovem mais qualidade de vida, mas ajudam a evitar o câncer, cuja origem está associada, em 80% dos casos, a fatores ambientais, que incluem o modo como vivemos, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA).

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