Revista "MUNDO e MISSÃO"
Justiça Social
No discurso, a questão está resolvida, mas, no cotidiano, imiscui-se a intolerância, a discriminação e o desprezo nas relações sociais, raciais, políticas e religiosas. Nem sempre essa intolerância é declarada abertamente; poucos a admitem e muitos a praticam ou apenas se calam, num conformismo covarde, mas muito conveniente. Avançamos em tecnologias: os mundos se unem através de satélites e redes de computadores, comunicamo-nos com rapidez, divulgam-se velozmente os fatos e as imagens, mas o outro continua distante, quando não, inimigo. Para o filósofo Paul Ricoeur, o ser humano tem uma predisposição à intolerância, visto que cada um gostaria de impor suas próprias idéias e legitimá-las pelo poder. Afirma, também, que “dois componentes são necessários à intolerância: a desaprovação das crenças e das convicções do outro e o poder de impedir que esse outro leve sua vida como bem entenda”. A intolerância, hoje, se traduz em vários aspectos, inclusive o religioso, mesmo camuflando desconfianças políticas, escondendo o racismo e interesses econômicos. UMA HISTÓRIA INTOLERANTE A longa caminhada humana rumo à civilização (entendendo essa como uma forma de vida em que impera a justiça e se respeitam os direitos individuais, sem recorrer à barbárie e à força) apresenta-se repleta de paradoxos e incoerências. No decorrer dos séculos, sucederam-se os exemplos de povos que dominaram outros, não apenas por razões expansionistas, mas porque queriam lhes impor uma nova cultura ou fé, isso quando não arrasavam as terras e exterminavam as populações, em nome de uma falsa excelência étnica.
Mas, para o passado há a desculpa da ignorância, dos medos que dominavam os países, os impérios e os reinos em sua frágil autonomia e estabilidade. A ética era uma disciplina dos filósofos, não dos governantes; a religião oscilava entre poder e misericórdia, mas temia o diferente e o condenava. Se a intolerância exprime-se, sobretudo, pela violência, não há como esquecer que, na passagem do primeiro para o segundo milênio, o expansionismo islâmico arrasou as igrejas cristãs do norte da África e, com elas, os milhares de fiéis que nelas se reuniam; ou que a Inquisição perseguiu os heréticos, os judeus, as curandeiras, as histéricas, mas também os cientistas e os intelectuais. Entre eles, Galileu e Giordano Bruno, que ousaram questionar o pensamento dominante. A justiça era mais um conceito do que uma prática efetiva a reger as relações e o respeito entre os grupos sociais e entre os povos. SÉCULO DAS INJUSTIÇAS Deixemos, então, o passado distante e aproximemo-nos do presente, tomando como ponto de partida o século 20, que já teria sofrido as influências “benéficas” da Revolução Francesa, fundada nos princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Talvez fosse bom começar, lembrando a temível Ku Klux Klan, nascida nos Estados Unidos, em 1865, como resposta contra-revolucionária ao novo estatuto dos negros que deixavam de ser escravos.
Violenta, mas “cristã”, a organização perpetuou execuções de cidadãos negros por mais de um século: seu ódio não conheceu limites e as leis não a esmagaram como deveriam ter feito. Só foi declarada ilegal em 1967. Se a Ku Klux Klan matava, o racismo norte-americano impedia o acesso de negros a certos lugares e os separava dos brancos em outros. Os olhares e os direitos não eram iguais. Em muitos países, inclusive no Brasil, em que se insiste sobre a ausência de racismo, inúmeras congregações vetavam a entrada de negras na vida religiosa, enquanto outras permitiam que fossem apenas “irmãs-auxiliares”, destinadas aos serviços mais simples. Por que o mundo teria se calado diante do Apartheid sul-africano? E quem defendeu os índios das Américas? Qual é, pois, a desculpa para o racismo no século 20? Se a raça torna o outro diferente e distante, a pertença a outra etnia também o define como inimigo. "A
intolerância vem da exclusão, É na Espanha renascentista que surge o conceito de “pureza de sangue”, que vai sujar, com marcas indeléveis, inúmeras páginas da história da humanidade. E as limpezas étnicas na Bulgária, na Bósnia, na ex-Iugoslávia, por exemplo, não pouparam estupros, expulsões, terras devastadas, abusos e assassinatos que terminaram em sórdidas valas comuns. E os dramas da Chechênia, de Ruanda e dos gulags não economizaram violência e barbárie. E quem se lembra dos milhares de mortos que se somaram pelo mundo, vitimados pela intolerância política? Acumulam-se cadáveres de chineses e vietnamitas, de latino-americanos e russos... O único saldo da intolerância tem cor de sangue e dá crédito à idéia de que não se pode confiar no ser humano, que alguns são realmente superiores e que o projeto de Deus está à beira da falência. FILHOS DO MESMO DEUS Vêm da época das Cruzadas as perseguições mais intensas aos judeus e que foram assumindo, através dos tempos, as mais diversas formas. Sem dúvida, as mais eficazes começaram sempre com a difamação: judeus foram acusados de matar crianças cristãs em rituais, de profanar a hóstia consagrada, de emprestarem dinheiro com usura, de arquitetarem planos suspeitos. A pior acusação, todavia, é a de “terem matado Deus” que gerou, com certa facilidade, a suspeita do povo comum e seu consentimento na hora da perseguição. Quando do recente lançamento do filme “A paixão de Cristo”, voltou à tona o mesmo refrão de culpa e responsabilidades descarregado sobre os judeus. Como lembra o professor Italo Mereu, “a intolerância é baseada na certeza de se possuir a verdade absoluta e no dever de impô-la a todos pela força. Seja por determinação divina ou por vontade popular”. Se assim não fosse, como explicar o silêncio diante de tantos massacres e genocídios? A questão ideológica e religiosa, à frente de outras intenções, no caso dos judeus, sustentou uma das maiores perseguições e dos piores genocídios da história. O nazismo, pregando a superioridade da raça ariana, intolerante ao extremo em relação a certos grupos, tentou disfarçar a falência econômica da Alemanha e tornou-se uma poderosa e ameaçadora máquina de terror e morte que fez calar chefes de Estado. De um lado, o silêncio do mundo; de outro, o sacrifício cruento de milhões de inocentes. Mais de 50 anos nos separam daqueles sombrios dias de ignomínia, mas os traumas pessoais e históricos arrastam-se perpetuamente. E a única solução é não esquecer. MEMÓRIA DO BEM EM FACE DO MAL A lembrança do mal poderia ser mais forte que a do bem e tentar sufocá-lo e despertar a vingança. Mas foi exatamente porque houve quem enfrentasse o terror nazista, que o bem não se ofuscou e que vidas foram poupadas. Quem protegeu o “inimigo judeu”, arriscou a pele, mas garantiu o sentido de sua própria existência: “Sou um homem. Nada que é humano me é indiferente”, diria, há dois mil anos, um personagem de Terêncio, autor latino. Empenhado na preservação do bem, como estratégia para não esquecer o mal já feito e evitar que ele se repita, Gabriele Nissim, ensaísta italiano, publicou O Tribunal do Bem, recentemente lançado no Brasil (Nova Itália, 2004). “Não podemos trazer de volta as pessoas que, de várias formas, foram eliminadas pelos regimes totalitários, mas devemos nos arriscar sempre, a fim de que esse mal não se repita. A lembrança é produtiva, quando transformada em antídoto que nos permite identificar antecipadamente as situações políticas nas quais se teoriza ou se repropõe a lógica do extermínio de outros seres humanos”, sustenta Nissim. "A
intolerância vem da exclusão, É preciso, também, contar o bem feito pelos “justos”, que Nissim define como pessoas absolutamente normais que “diante de um projeto de desumanização da sociedade, como foi a perseguição aos judeus, foram tomadas pelo sentimento de compaixão diante da sorte daqueles perseguidos, sendo capazes de defender a dignidade humana. Foram, então, homens decentes num mundo indecente”. Sobre o Jardim dos Justos e toda a organização que o promove, Mundo e Missão já publicou uma matéria (edição 81 – págs n.º 46-48). A DIFÍCIL QUESTÃO ISLÂMICA Desde setembro de 2001, o mundo despertou – negativamente – para a expansão do islamismo, não como divulgação de uma fé, mas como o acobertamento de uma poderosa ideologia política, pautada pela violência. Por conta de uma mídia muitas vezes irresponsável, a imagem do Islã associa-se agora, para o senso comum, quase que exclusivamente, ao terrorismo e ao ódio contra o Ocidente. Bin Laden ficou mais conhecido que o Profeta; vídeos e cartas ameaçando ataques são divulgados com uma perigosa e incrível rapidez; cenas de decapitações, mensagens de terroristas-bomba, notícias de seqüestros e ataques invadem com avidez as telas dos computadores do mundo. Se a isso acrescentarmos as massas migratórias provenientes de países africanos de confissão islâmica que chegam à Europa e os problemas decorrentes e as recentes discussões na França sobre o uso dos símbolos religiosos, vemos que se instala um mal-estar preocupante. Germina a intolerância. Colhe-se guerra. QUEM É O OUTRO? A psicologia afirma que é o outro quem diz quem eu sou. Assim, ao desconsiderar a liberdade do outro, ao desrespeitá-lo como ser humano, ao negar-lhe a solidariedade, tornamo-nos superiores, sim, mas porque estamos sozinhos. Não se pode negar o fato de que temos dificuldades concretas de aceitar o outro, não só porque ele é “outro que não eu mesmo”, que me observa e analisa, mas que – também como eu – acha que tem razão, que sua cultura é a melhor, que sua religião é a verdadeira, que suas idéias são coerentes e importantes. O outro, todavia, não é minha projeção. Pelo contrário, é, quase sempre, meu oposto, meu questionador, distante e diferente. Não aceitar o outro em sua alteridade significa justificar a supremacia da intolerância e da imaturidade moral, psicológica e ética que ela implica. É negar o conhecimento e a diversidade e, por medo ou orgulho, justificar-se na hipocrisia. “No fundo, é preciso negar o outro como verdadeiro humano para poder excluí-lo, causar-lhe mal, destruí-lo, e até mesmo negar-lhe uma ‘sobrevida’ post mortem”, comenta Françoise Héritier. E conclui: “Tolerar é, portanto, aceitar a idéia de que os homens não são definidos apenas como livres e iguais em direito, mas que todos os humanos sem exceção são definidos como homens”. Se entrarmos no âmbito religioso, a incoerência amplia-se, porque o cristianismo prega abertamente o amor ao próximo (o outro) e Jesus Cristo afirma ter vindo para que todos tivessem vida. Não falou que veio para alguns poucos escolhidos, tampouco que havia alguns “próximos” que deviam ser excluídos e banidos do Reino que Ele anunciava. Aliás, só criticou os escribas e fariseus por sua hipocrisia. O QUE TEMOS COM ISSO? Para Atenas 2004, João Paulo II enviou sua mensagem: “O esporte, por ocasião dos Jogos Olímpicos, não deve renunciar à nobre vocação de reacender os ideais de convivência, compreensão e amizade”. Como ele, a população mundial olhava para as telas com admiração e temor. O fantasma de um atentado voltava a atacar, visto que a ocasião seria perfeita para mostrar ao mundo o poder dos terroristas e relembraria o que já aconteceu numa ocasião semelhante. Nada aconteceu e a mídia insistiu no fantasma terrorista, agora a perseguir a delegação norte-americana que não pôde mandar seus melhores atletas, que não podia sair sem guarda-costas, que tinha medo. Vitória da mídia ou do terrorismo, mas o clima de desassossego instalou-se com facilidade. De qualquer forma, deste lado do globo, parece que reina a paz e a intolerância é apenas um vocábulo no dicionário. Aqui o conflito entre judeus e palestinos é a repetição de uma notícia, o racismo terminou com a abolição da escravatura, os muçulmanos estão muito longe e o terrorismo nunca vai chegar. Assim pensa nossa população... Contudo, esse pacifismo conformista, um pouco alienado e alienante, esconde as intolerâncias, os velados racismos e xenofobias, as exclusões que vetam o direito de mudar de vida, de crescer. Quem reparou que, logo no segundo dia das Olimpíadas, um atleta turco se recusou a competir, quando viu que o outro concorrente era israelense? Quem já reparou nos sites que circulam pela Internet, divulgando e fomentando o ódio racial e religioso? De outra parte, quem, por opção e desinteresse, procura ignorar os fatos, as perseguições, as guerras, e prefere não ver as múltiplas manifestações de intolerância, já compactuou com ela e em pouco difere daqueles que viam os trens trazendo prisioneiros aos campos de concentração e se calaram ao observar a fumaça branca da morte. “A intolerância vem da exclusão, enquanto
a tolerância vem do senso da partilha” No Brasil
Para quem ainda acha que não há intolerância no Brasil, a manchete de O Estado de São Paulo, de 20 de agosto, prova, infelizmente, o contrário: “Moradores de rua são massacrados no centro”. E essa já é a décima sexta chacina em São Paulo! Desta vez foram 15 mendigos, 6 já morreram por conta dos golpes violentos. Não se sabe quem foram os agressores. “Para o promotor Carlos Cardoso, assessor de Direitos Humanos da Procuradoria-Geral de Justiça, o crime foi uma ação de intolerância e extermínio, feita com o objetivo de ‘profilaxia social’”. A genda |
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