Revista "MUNDO e MISSÃO"

Indígenas

Muito a aprender

A base da economia não deve ser o acúmulo de riquezas, mas a
ajuda recíproca e a partilha dos bens. Esse é um dos ensinamentos
presentes em diversos povos indígenas dos quatro cantos do planeta

Alberto Garuti


Indigena vestido com trajes característicos para uma festa tradicional no reino de Knady, Sri Lanka

O texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano oferece uma visão do jeito de viver dos povos indígenas que habitam o Brasil há milhares de anos. Em primeiro lugar, põe em evidência o sentido que os indígenas dão à terra.

A terra é o lugar onde eles vi-vem, como povo e como pessoa, onde se relacionam uns com os outros, onde entram em contato com Deus. Longe da terra, é difícil o índio viver os valores de sua cultura. A terra pertence à comunidade e não deve ser usada como mercadoria. Fruto de uma ampla mobilização do movimento indígena organizado, existe um artigo na Constituição brasileira que reconhece, inclusive, esse direito: a terra dos indígenas é inalienável e indisponível (art. 231).

Por sua vez, a propriedade coletiva da terra caracteriza a economia de uma comunidade indígena. Se a terra é da comunidade, todos têm direito de nela trabalharem e tirarem dela o seu sustento. Numa sociedade capitalista quem produz nem sempre usufrui dos benefícios de seu trabalho. Numa comunidade indígena é diferente: "A produção é distribuída igualmente para todos", segundo o antropólogo paraguaio Bartolomeo Meliá, que há anos estuda os povos guaranis de seu país e do Brasil.

Não se trata de uma economia cujo objetivo principal é acumular e competir. A base da economia indígena é outra. É a reciprocidade. E o objetivo, nobre: para que todos possam satisfazer suas necessidades.


Centro Magyans de Educação foi criado para preservar cultura original, em ambiente urbano

Existem menos contrastes entre os valores
das culturas indígenas e o Evangelho, do que
entre os princípios do capitalismo e a vida cristã

Um aspecto muito presente na cultura dos povos indígenas é a educação. Introduzir uma criança na vida da aldeia é tarefa coletiva, comunitária, e não é dever só dos pais ou parentes. Toda a comunidade está envolvida e empenhada em tornar cada criança um membro integral de sua cultura, para que possa participar dos momentos mais importantes da vida do grupo e praticar seus valores. Os ritos e costumes indígenas podem variar muito de uma comunidade para outra. O que não varia é a atenção que cada indivíduo recebe da comunidade.

Como todo agrupamento humano, naturalmente, as comunidades indígenas também têm seus defeitos. Mas o que se quer ressaltar aqui é o fato de existir menos contrastes entre os valores de base da cultura indígena e o Evangelho, do que entre os princípios de base do mundo capitalista e a vida cristã.

Por isso, conforme o manual da Campanha da Fraternidade: "Nossa sociedade tem muito a aprender com os povos indígenas. Experiências concretas de partilha, valores evangélicos que podem ser inspiradores no cultivo de nossa humanidade. Se tivermos a corajosa atitude de conhecer e aprender com os povos indígenas, podemos construir uma sociedade solidária e humana".

Povos indígenas do Brasil e também de outras partes do mundo têm modos de vida semelhantes. Em alguns países, como a Austrália, devido à grande extensão do território, os indígenas - chamados de aborígenes - procuram viver de acordo com seus costumes e suas tradições nas terras conquistadas, ainda que às custas de muitas lutas.


Nossa sociedade tem muito a aprender com os povos indígenas

Em casos como esse, a Igreja tenta contribuir com a luta desses povos para que conservem sua cultura e sua identidade. Mas há outros países, muito menores em extensão e com uma densidade populacional maior, onde o problema é outro. Em Bangladesh e nas Filipinas, por exemplo, eles são confinados em pequenos territórios. Com isso, fica difícil evitar o êxodo dos jovens, que vão à procura de trabalho na cidade grande.

Para ajudar esses jovens a preservar a sua cultura original em ambiente urbano, a Igreja filipina está desenvolvendo uma experiência promissora com os Mangyans, da ilha de Mindoro. Eles vivem no Vicariato de San José, na parte ocidental da ilha. O Centro Mangyans de Educação acolhe moças e rapazes e fica na cidade de Mindoro. Sua arquitetura parece uma aldeia indígena. De propriedade dos Missionários do Verbo Divino, o centro foi criado para apoiar os jovens mangyans que descem das montanhas para estudar na cidade. Eles são informados sobre os hábitos e costumes urbanos, encorajados a manter contato com suas famílias e a valorizar sua própria cultura. Um exemplo: eles sempre participam das festas nas aldeias.

A própria organização do centro acompanha os costumes desse povo. Os estudantes têm um conselho eleito por eles mesmos e realizam diversas tarefas de manutenção da casa. A idéia é tornar o ambiente uma ponte entre os dois mundos que coexistem em Mindoro: o mundo tradicional das populações indígenas e o mundo moderno da sociedade filipina.

Outra experiência similar vem de Bangladesh, país do centro-sul da Ásia. Ali, na fronteira com a Índia, vive o povo Mandi, que sofreu bastante durante o período de instabilidade política após a separação entre os dois países. Os bengaleses aproveitaram-se da situação e tomaram grande parte das terras dos Mandis. Além disso, outros fatores estão pondo em risco a conservação dos valores dessa nação indígena: a escassez da terra e a altíssima densidade demográfica do país (900 pessoas por quilômetro quadrado, contra 20 pessoas no Brasil). Com uma população de 130 milhões de habitantes, o território bengalês é equivalente a uma vez e meia o Estado de Santa Catarina. Também há o fato de a sociedade bengalesa ser, em sua quase totalidade, muçulmana.

Hospedagem - Há algum tempo, os Mandis tornaram-se cristãos por livre escolha de seus chefes. Logo após a conversão, eles já se per-guntavam: "Até que ponto somos obrigados a nos conformar aos valores da sociedade bengalesa". Eles observavam que mesmo na Igreja, dominada pelos bengaleses, não havia muita preocupação em conservar os valores de sua cultura. Uma primeira iniciativa para reverter esse quadro foi a criação de "Nokmandi" ou "a casa dos Mandis", em Daca, a capital do país.

Os idealizadores desse projeto são os Irmãos de Taizé, uma fraternidade religiosa ecumênica, cuja sede está em Taizé, no sul da França. A casa oferece aos jovens mandis que vivem em Daca um espaço privilegiado para se encontrar e viver os valores do próprio povo. Seus freqüentadores são jovens mandis que casaram com muçulmanos ou trabalhadores que se sentem perdidos no novo ambiente, onde tudo é regido pelos princípios do islã. A casa ainda oferece hospedagem, por alguns dias, a quem vem à cidade grande e coloca à disposição assistência médica e reforço escolar.

Como um bumerangue

Como em outros países, os aborígines da Austrália não habitam as terras mais férteis, que ficam ao longo do litoral. Pelo contrário, eles foram confinados às mais inóspitas, no centro do país. Considerados pelos colonizadores brancos como "selvagens, não civilizados e primitivos", os aborígines se impõem por sua originalidade e uma relação de harmonia com o meio ambiente.

Prova disso é sua grande capacidade de adaptação. Conseguem comer, na falta de outros alimentos, larvas e insetos (ricos em proteínas), sepultar-se debaixo de camadas de areia cada vez mais úmidas durante as horas quentes do dia e cobrir-se com folhagem, galhos e areia durante as noites gélidas do deserto.

A própria arma mais conhecida deles, o bumerangue, é uma demonstração de como, até na construção dos instrumentos de caça, eles se adaptaram ao ambiente. Se o bumerangue não atinge o alvo, volta às mãos de quem o arremessou. Assim, os aborígenes evitam deslocar-se no calor tórrido para recolher sua arma. Se atinge o objetivo, o bumerangue cai e fica ao lado de sua presa e, desse modo, o caçador recupera as duas ao mesmo tempo.

Somente dos anos 60 para cá é que os aborígines conseguiram algumas conquistas políticas, como o reconhecimento oficial de sua existência como povo e seu inalienável direito à terra. Mas eles querem mais. Querem a sua independência em vez de continuar vivendo da assistência do governo australiano.

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