Revista "MUNDO e MISSÃO"

Indígenas

Dalvan Nagara

uando o Comitê Olímpico Internacional (COI) foi inspecionar Sydney, Austrália, como candidata a sediar as Olimpíadas de 2000, seus membros foram tratados da forma mais luxuosa possível e correram muitos dólares australianos para seus bolsos. Eles tiveram acesso só à Austrália branca, sem nenhuma possibilidade de contato com os aborígines.

Sydney ganhou a disputa para sediar os jogos olímpicos, sendo apresentada como um paraíso de convivência humana contra a concorrente, a China. Na mesma ocasião, o governo vetou o ingresso no país aos membros do Comitê da ONU para a eliminação das discriminações raciais (CERD), e aos aborígines foi proibida qualquer manifestação de protesto nas proximidades das estruturas esportivas.

Genocídio

Tudo isso é uma das inúmeras manifestações da mentalidade racista, profundamente enraizada na população branca, que chegou no continente cerca de 40 mil anos depois dos habitantes tradicionais e que os considera e trata como estrangeiros.

O primeiro branco que desembarcou na ilha foi o explorador inglês James Cook, em 1770:

- os aborígines eram, provavelmente, 750.000.

Em 1788, tornou-se colônia penal da Inglaterra e seu território foi declarado juridicamente terra nullius (terra de ninguém), abrindo as portas para sua ocupação por parte de uma maciça chegada de imigrantes, que se tornaram agricultores, criadores de animais e mineiros. Muitos aborígines tiveram que abandonar suas terras. Muitos foram eliminados pelos ingleses ou pelas novas doenças, das quais não puderam se defender por falta de anticorpos. O delicado equilíbrio entre aborígine e natureza foi quebrado com a destruição das florestas e a introdução de novos animais, como o coelho e a ovelha.

Muitas espécies animais e vegetais desapareceram. Em 1830, havia só 80.000 sobreviventes. Entre os anos 1930 e 1970, aconteceu um genocídio programado pelo governo australiano, que o jornalista John Pilger definiu como “talvez o mais sombrio capítulo da história nacional”. Em denúncia do relatório da Comissão Australiana de Direitos Humanos (1997), foi documentado que ao menos 100.000 crianças aborígines (uma em cada três) mestiças foram tiradas dos seus pais com a intenção de “limpar a cor”, isto é, privá-las de sua identidade cultural.

Policiais foram lançados à caça das crianças, que foram levadas para colégios públicos e eclesiásticos, onde sofreram maus tratos físicos e psicológicos, e para trabalhar em fazendas (meninos) ou casas de família (meninas). Esta política foi inspirada pelo movimento da raça pura de origem nazista, que encontrou adesão também na Austrália, diante da constatação que as mulheres brancas estavam reproduzindo com menos velocidade do que suas correspondentes “negras” (nome dado aos aborígines).

A situação dos aborígines na Austrália não teve uma melhora até nossos dias, apesar das conquistas das minorias em outras nações; ao contrário, sob o atual governo de John Howard, houve um retrocesso. Ele, em 1998, revogou o reconhecimento, que os negros tinham recebido alguns anos antes, de seus direitos sobre as terras por eles ocupadas tradicionalmente, subordinando tais direitos aos interesses dos pecuaristas e das empresas dos brancos, favorecendo assim menos de 20.000 pessoas, entre elas as mais influentes na política e nas comunicações.

Negros e pobres

As conseqüências desta política aparecem a olho nu nas estatísticas sociais do país. A esperança de vida das mulheres aborígines é de 62 anos, a dos homens, 57, contra os 81 e 75 anos da média do país. O diabetes afeta um quarto dos adultos, a sífilis e a lepra são difundidas em índices muito superiores à media nacional; as crianças sofrem de anemia, infecções de parasitas intestinais e lesões cerebrais em conseqüência de carências alimentares.

O tracoma é uma doença erradicada na maior parte do planeta, mas atinge 80% das crianças aborígines da Austrália, que estão em risco de perder a visão, como já muitos adultos. O governo Howard afirma que 80% desses problemas de saúde são causados pelo álcool, pelo fumo e pelos maus hábitos alimentares. Só que ele gasta 25% menos com a saúde dos negros do que com o resto da população.

O índice de desemprego dos aborígines é espantoso:

- entre 38 e 50%, diante da média nacional de 9-10%.

Mais da metade dos jovens não encontra trabalho depois da escola. Quem mora no campo, deve percorrer mais de 100 quilômetros para chegar à escola secundária e colegial. Um dos efeitos mais devastadores da política de “assimilação” dos governos brancos está no fato de que só 20% dos negros fala seu próprio idioma.

Em nível social, outra conseqüência trágica é a altíssima proporção de presença dos aborígines nas prisões:

- 12 vezes mais que os brancos, entre os homens, e 14, entre as mulheres (os negros são 2% da população do país).

Isso não significa maior delinqüência, porque os aborígines são presos por infrações mínimas e até por simples suspeita. Estatisticamente, a metade deles, de sexo masculino, entre 20 e 24 anos, foi presa pelo menos uma vez nos últimos cinco anos. As condições de detenção são degradantes e isso explica o elevado índice de suicídios (o maior do mundo), mas as autoridades nada fazem para resolver o problema. O suicídio é um fenômeno freqüente entre os jovens, em decorrência da falta de oportunidades e de esperança no futuro.

Relata o médico aborígine, Dr. Richard Murray:

- “Numa comunidade em que haja, digamos, cinqüenta homens com até 25 anos, um ou dois acabam se matando, dois ou três tentam se suicidar e mais de uma dúzia pensará seriamente na possibilidade”.

Considerando que os aborígines que recorrem ao tratamento psiquiátrico estão, de três a cinco vezes, acima da média nacional, torna-se fácil explicar certos fenômenos extremos.

A voz da Igreja


Aborígine toca instrumento típico nas ruas de Brisbane - Austrália

Diante desta situação dramática, a voz da Igreja é uma das poucas que se levantam para defender esses pobres entre os pobres:

“O governo acha que resolve o problema com o dinheiro”, alerta o cardeal George Pell, arcebispo de Sydney.

“Um rio de dinheiro é dado a cada ano às famílias aborígines, mas não se entende que a questão é cultural, moral. Diz respeito à confiança e às esperanças de um povo. Para aumentar a colaboração entre as comunidades aborígines e o resto do país é preciso encorajar a formação de uma liderança que favoreça sua integração”.

As Igrejas cristãs criticaram juntas o governo por não querer pedir desculpas pelo genocídio, perpetrado durante a história contra os aborígines:

- “A Austrália hoje precisa de uma mensagem de paz, reconciliando-se com os aborígines e promovendo iniciativas de ponte entre a cultura maioritária e a das minorias indígenas”.

Um grande impulso à atitude da Igreja foi dado por João Paulo II com seu discurso profético, no encontro com os aborígines em Alice Springs (29 de novembro de 1986), durante sua visita à Austrália:

- “Se permanecerão estreitamente unidos, serão como uma árvore erguida no meio de um incêndio na mata, que queima e consome a madeira.

As folhas secam e a robusta casca é arranhada e queimada; mas no interior da árvore a seiva continua a correr, e, debaixo da terra, as raízes são ainda vigorosas. Como aquela árvore, vocês agüentaram as chamas e ainda têm o poder de renascer. Chegou agora o momento de renascer!”.

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