Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Europa

RÚSSIA: os primeiros padres católicos

Fulvio Scaglione

Desde a revolução comunista, não se ordenava um padre católico na Rússia excetuando algumas ordenações clandestinas. Neste ano, foi ordenada a primeira turma de 5 padres e outros virão depois. Apresentamos uma entrevista com o reitor do único seminário teológico católico russo: o de São Petersburgo

Sergei tem 33 anos, é engenheiro, nasceu em Moscou, mas viu as primeiras igrejas em Riga, na Letônia, onde costumava passar as férias com sua família. Os pais são ateus e não foi fácil para eles aceitar a decisão do filho: "Não conseguem entender como uma pessoa possa resolver doar sua vida à Igreja: para eles é algo abstrato demais".
Vladimir tem 27 anos e nasceu em Tallinn, na Estônia. Passou sua mocidade em Kaliningrad, onde estudou no Instituto ferroviário. A cidade está situada numa das áreas mais atéias da antiga União Soviética. Durante o comunismo, não existia uma igreja sequer naquela cidade. Mas a mãe de Vladimir era católica e conservou acesa, em casa, a chama da religiosidade, como o terço rezado às escondidas e freqüentes visitas à Lituânia, onde algumas igrejas continuavam abertas e funcionavam. Foi na Lituânia que Vladimir ouviu o forte apelo aos jovens feito por João Paulo II e, a partir daquele momento, resolveu entrar no seminário.
Viktor era violinista com possibilidade de uma brilhante carreira, Nikolai era filólogo: agora, são os primeiros padres ordenados na Rússia, desde a revolução de 1917.
Pe. Bernardo Antonini é o reitor do seminário russo "Rainha dos Apóstolos" de São Petersburgo. Antes, diretor da Escola teológica de Verona, na Itália, foi convidado a se transferir à Rússia para assumir a direção do primeiro seminário daquele país. Ele nos fala de sua experiência.

O que mais lhe chamou atenção na transformação desses jovens em sacerdotes?

Pe. Bernardo Antonini: Sem dúvida, o crescimento. Naquela noite de 1993, quando o seminário começou, somente alguém dos primeiros 12 conhecia bem as orações mais comuns. Ninguém sabia nada de liturgia; hoje, eu posso dizer que estão no mesmo nível dos padres de outras partes do mundo. O crescimento desses primeiros fez com que todos crescessem. Por exemplo, os que entraram ultimamente, vendo como os do sexto ano celebravam a liturgia, trataram logo de imitá-los.

Há dois anos, o seminário da Rússia européia tornou-se interdiocesano. Como está agora a situação?

Pe. Antonini: Aqui vêm, para se prepararem ao sacerdócio, jovens da Rússia européia, da Sibéria, do Casaquistão, da Geórgia, da Moldávia, da Bielo-Rússia e da Lituânia. Neste ano, teremos 7 diáconos. Houve um aumento no número dos seminaristas: hoje são 77, dos quais 51 diocesanos e 26 religiosos (salesianos, claretianos, franciscanos).

Não houve dificuldades nesses anos?

Pe. Antonini: Tinha medo de não conseguir encontrar todos os professores de que precisava. Encontrei 47: na Rússia e em muitos outros lugares do mundo, como Argentina, Canadá, Polônia e Eslováquia.

Esses primeiros sacerdotes russos na Rússia são um acontecimento histórico...

Pe. Antonini: Com certeza. Para sermos exatos, temos que admitir que já houve padres russos de dois tipos. Em primeiro lugar, os que foram chamados "padres do comunismo", saídos dos seminários das repúblicas não russas, como Lituânia ou Letônia, que Stalin não conseguiu fechar, mas que controlou com mão de ferro, como, aliás, fez com toda a vida da Igreja. Seis anos atrás, quando abrimos nosso seminário, a primeira coisa que ouvi foi: "Com certeza vão lhe enviar algum infiltrado; tenha muito cuidado com os seminaristas que recebe". Acredito que eles conseguiram infiltrar um que tive que mandar embora em seguida. Além desses sacerdotes ordenados fora do país, houve, aqui na Rússia, alguns raríssimos casos de padres ordenados clandestinamente, "nas catacumbas", em segredo, a ponto de não poderem dizer nem à própria mãe. Eu conheço um que, de noite, quando voltava da fábrica, dizia à mãe que ia para o quarto estudar. Ele ia de fato e se fechava lá dentro, mas para rezar a missa. A mãe, de vez em quando, convidava-o a se casar. Até que um dia, no começo da perestroika, ele contou-lhe que era padre já há alguns anos. Ela por pouco não teve um infarto.
Esses cinco novos padres percebem que o que aconteceu com eles é, de certa forma, excepcional?

Pe. Antonini: Eles sabem que são os primeiros padres nascidos na ex-União Soviética e que, na Rússia, representam uma minoria muito pequena: a Igreja católica. Eles se orgulham disso. Com eles falo de muitas coisas: lembro-lhes que serão padres numa terra de mártires, que para eles o sacerdócio não será um passeio turístico. No ano passado, celebramos uma liturgia comunitária no Norte, na Sibéria, junto com ortodoxos, luteranos e judeus, numa floresta onde tinham sido mortas e sepultadas 1111 pessoas. Essa é a realidade deste país e as famílias desses padres viveram-na pessoalmente. Eles têm um estilo de vida bem diferente, se comparado ao dos demais seminaristas: levam uma vida ascética, têm grande espírito de sacrifício. O apostolado que os espera será certamente um apostolado diferente, será um apostolado missionário e ecumênico.

A propósito de ecumenismo, como está agora a situação na Rússia?

Pe. Antonini: Em São Petersburgo, onde se encontra nosso seminário, a situação melhorou muito. Um professor da Academia teológica ortodoxa leciona em nosso seminário e nós lecionamos no seminário de Smolensk, a cidade do metropolita ortodoxo Kirill. Os seminaristas ortodoxos vêm freqüentemente ao nosso seminário encontrar os nossos seminaristas, jantar com eles. São amigos de verdade. O ecumenismo cristão é um dos sinais distintivos desta cidade: aqui existem cinco seminários (católico, ortodoxo, luterano, metodista e o dos luteranos da Finlândia), e já há dois anos, no dia 25 de janeiro, quando se encerra a semana ecumênica, os seminaristas das cinco confissões cristãs diferentes se encontram para rezar juntos. A Igreja católica procura se inserir neste país com humildade, sem triunfalismos, para trabalhar com os irmãos ortodoxos. Porque uma coisa é certa: aqui há muito trabalho a ser feito por Cristo.

(Tradução e adaptação da revista "Jesus")

A Igreja católica russa está dividida em duas Administrações apostólicas:

A da Rússia Européia (4 milhões de km2, 110 milhões de habitantes e 330 mil católicos) e a da Sibéria (13 milhões de km2, um vez e meia o Brasil, 40 milhões de habitantes, 1 milhão de católicos).
Ela tem um site na internet (www.geocities.com/Athens/Parthenon/1900) em língua russa e inglesa com informações, dados e estatísticas sobre a vida da Igreja no país.

RÚSSIA

SUPERFÍCIE: 17 milhões km2
POPULAÇÃO: 147 milhões
CAPITAL: MOSCOU
RELIGIÕES: Ortodoxos:16,3
Muçulmanos: 10%
Protestantes: 0,9%
Católicos: 0,4%
sem religião declarada: 64,4%

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