Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja

Missão no Nordeste

Costanzo Donegana

Uma diocese no interior de Pernambuco sai para evangelizar

Esta terra é o coração do Nordeste: nela foram filmadas algumas das cenas principais de "Central do Brasil". Basta um contato de poucas horas com esta gente para ver as cores e sentir o cheiro da cultura nordestina ainda em estado puro: a simplicidade, a generosidade, a capacidade de acolhida, a religiosidade.
Fui dar um curso aos leigos da diocese de Pesqueira, PE e aprendi mais do que ensinei. Vi uma diocese com uma cara nova, enraizada na tradição e aberta para a renovação.

Formação

O bispo dom Bernardino Marchió emana vitalidade de todos os poros de seu corpo miúdo; com seu impulso tem colocado a diocese em estado de missão, a partir da celebração do Ano Jubilar dos 75 anos da diocese, em 1995, através da Assembléia Diocesana, vivida em plena co-responsabilidade pelos 120 delegados. Foi produzido um Plano pastoral que girava ao redor do eixo da missão. A formação foi a exigência mais reivindicada pelas paróquias, pastorais e movimentos. Foi então concebido um projeto que oferecesse elementos básicos de formação para o trabalho pastoral nas mais diversas áreas. Isso concretizou-se num curso missionário, denominado simbolicamente "2000 missionários para o ano 2000", sem a pretensão, no início, de alcançar esse número.
A resposta resultou muito superior às expectativas. Foi constituída então uma equipe integrada por padres, seminaristas e leigos comprometidos também com outras realidades profissionais. Foi preparado o material, baseado em duas fontes básicas: a Bíblia e o Catecismo da Igreja católica. A equipe se deu logo conta de que este último texto tem uma linguagem impossível de ser assimilada pelas comunidades simples do agreste e do sertão. O desafio maior foi passar aquele material pelo filtro da cultura do povo e a equipe o enfrentou, pensando, no momento de formular os textos, na dona Maria, no seu Severino que moram no sítio, que pouco ou nada sabem ler. O material foi dividido em quatro partes: profissão de fé, sacramentos, mandamentos, doutrina social da Igreja. O curso acontece em modo teórico, como estudo, e prático, como atividade missionária. Nenhum dos encontros termina sem apontar para os missionários uma atividade prática de missão dentro ou fora da comunidade.

Sair

O momento básico desta formação é o TLM (Treinamento de Lideranças Multiplicadoras). Foi pedido a cada paróquia de enviar cinco pessoas com preparação para assimilar e repassar o curso aos missionários de suas comunidades. Foram 125 de toda diocese e receberam um curso de três dias de treinamento. O TLM agora repete-se periodicamente durante o ano. Os participantes depois repassam para os missionários de seus lugares os conteúdos e a metodologia que recebem no centro e estes partem para evangelizar as comunidades até os recantos mais longínquos, atingindo as pessoas mais afastadas em sentido geográfico e social.
Há missionários que alcançam sítios distantes 100 quilômetros da paróquia; outros evangelizam sem sofrer o condicionamento de ser analfabetos; uma menina cega acompanha os missionários em todos os lugares, também no mato ou no caminho pedregoso; outros fundaram um grupo no presídio de Pesqueira, que se reúne a cada semana para acompanhar a formação e transformar o conteúdo em atividade missionária dentro de sua realidade.
A missão especifica-se também por categorias profissionais. A diocese fez um convite aos políticos locais (prefeitos, vereadores); quase todos responderam. Foi apresentada a proposta da Igreja na política e eles mesmos pediram um segundo encontro.

Santas Missões

Duas experiências de destaque dentro da atividade missionária de Pesqueira são as Santas Missões e o "porta a porta". Juntamente com o bispo, a equipe responsável pelas Santas Missões, formada por cinco pessoas, escolheu algumas cidades que pudessem ser alvo desta experiência. O critério proposto por dom Bernardino foi privilegiar as mais carentes. A primeira foi Tupanatinga, com um alto índice de violência e criminalidade e 60% da juventude analfabeta. Até agora a experiência aconteceu em quatro cidades com a duração de quatro dias. A equipe diocesana acompanha os missionários locais no processo, na fase de preparação, no momento da missão propriamente dita para assessorar, orientar e depois, para garantir que os frutos cheguem a maturação.
Mas os verdadeiros protagonistas são os missionários do lugar, que realizam o contato direto com as pessoas e as comunidades. Uma experiência típica é a presença na feira livre, uma realidade tradicional no Nordeste, na qual os missionários realizam o corpo a corpo (o banco a banco), evangelizando o povo que vai à cidade naquele dia. Celebrações de vário tipo, particularmente penitenciais (inspiradas na tradição de frei Damião, a quem o povo nordestino está ainda muito ligado), confissões, visitas às escolas, hospitais, encontros específicos com os jovens, crianças, professores, etc. fazem com que todos os segmentos da sociedade possam se voltar para a Igreja e a missão. A presença do bispo ajuda a colocar a paróquia em comunhão com a Igreja inteira.

Porta a porta

Outra experiência é o "porta a porta", que acontece duas vezes por ano, num domingo de Advento e de Páscoa. É uma presença da Igreja nas famílias, que envolve toda a paróquia. Os missionários se preparam, rezam, são enviados durante uma celebração especial, o bispo transmite uma mensagem pelas rádios. Os missionários se espalham nas cidades e na zona rural, levam na mãos um cartão de Páscoa ou de Natal com uma mensagem da diocese às famílias. "Hoje - comenta o diácono Edson Rodrigues, da equipe de coordenação - as paróquias assimilaram isso como atividade normal, de modo que é difícil que haja uma festa de padroeiro que não seja antecedida pelo "porta a porta". Isso mostra como o ardor missionário, o deslocar-se fora de si para ir ao encontro do outro tornou-se uma constante nas nossas comunidades".
Não só. No curso do qual participei a missão abriu-se à dimensão universal, além-fronteiras. Seguindo o desejo do bispo, em todas as paróquias fundar-se-ão os Comipas (Conselhos Missionários Paroquiais), com a tarefa de despertar concretamente em todas as pastorais e grupos a dimensão católica da igreja. Neste contexto, dois sacerdotes pediram a dom Bernardino de ser enviados para a missão além-fronteiras.

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