Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Geral

Cardeal Van Thuan

Uma visão de esperança

emos alvorecer uma nova época missionária. A encíclica missionária de João Paulo II afirma a realidade encorajadora, “se todos os cristãos e, especialmente os missionários e as Igrejas jovens, responderem com generosidade e santidade aos apelos e desafios do nosso tempo”. Quando surge um novo “carisma” na Igreja, ou quando se vive melhor um “carisma” já recebido, a história se transforma de modo surpreendente e inesperado. Os sinais dos tempos convidam a reler os acontecimentos da história à luz do mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, que se comparou ao grão de trigo, que morre na terra para dar abundantes frutos. Hoje, todas as culturas e religiões questionam-nos sobre nossa experiência específica de Deus.

Como discípulos de Cristo, imploram também a nós: - “Queremos ver Jesus!” (Jo 12,21).

Pedem aos que crêem não só que falem de Cristo, mas, que o mostrem. Realmente, a Missão consiste em “transmitir aos outros a própria experiência de Jesus” (Redemptores Missio 24) sob a ação do Espírito.

A leitura orante da Bíblia é um meio excelente e uma escola missionária para poder dizer como os apóstolos:

- “Nós vimos o Senhor!” (Jo 20,25).

O anúncio apaixonado de Cristo é fruto do amor apaixonado por Cristo. Reconhecer e ajudar a amadurecer as “sementes do Verbo” (cf. Dei Verbum 8) é uma prioridade urgente da Missão futura. O Espírito Santo, que semeou estas “sementes”, leva-as à maturidade em Cristo. Por quê, semeadas há séculos, elas ainda não alcançaram a maturidade do encontro com Cristo? Porque Deus quer nossa colaboração missionária. As “sementes do Verbo” têm necessidade de ver em nós as “marcas” do Verbo, aceito e vivido pessoalmente nos critérios, valores, atitudes pessoais e comunitárias.

O processo de inculturação e o diálogo inter-religioso desenvolvem-se com autenticidade quando são fruto da contemplação da Palavra, a qual dá a capacidade de descobrir as sementes do Verbo, a Palavra definitiva do Pai, e, portanto, o único Salvador, que não destrói, mas faz que se complete a preparação evangélica que Deus semeou nas culturas e nas religiões. O Cristianismo, ao comunicar esta verdade, deve aprender das outras culturas e religiões (que são portadoras das “sementes do Verbo”) para aprofundar e viver melhor os conteúdos da revelação cristã. “O dever missionário não nos impede de dialogar intimamente, dispostos à escuta.

Não raramente o Espírito de Deus, que ‘sopra onde quer’ (Jo 3,8), suscita na experiência humana universal, apesar das inúmeras contradições, sinais da sua presença, que ajudam os próprios discípulos de Cristo a compreender mais profundamente a mensagem da qual são portadores. Embora procure reconhecer os verdadeiros sinais da presença e do desígnio de Deus, a Igreja reconhece que não só deu, mas também recebeu-os da história e do desenvolvimento da humanidade. Esta atitude de abertura, com atento discernimento, o Concílio introduziu também com relação às outras religiões.

Cabe a nós seguir o seu ensinamento e caminho percorrido com grande fidelidade” (Novo Millennio Ineunte 56). O verdadeiro profetismo cristão é o testemunho das bem-aventuranças. “O missionário é o homem (e a mulher) das Bem-Aventuranças”, afirmou Teresa de Calcutá. É preciso coragem para realizar a renovação eclesial, segundo o estilo de São Francisco de Assis e de tantos santos e fundadores missionários. Os Encontros de Religiões com João Paulo II, em Assis (Itália), em 1986 e 2002, foram antecipações do futuro. Eles não teriam sido possíveis sem o profetismo. São necessários homens e mulheres tocados pela cruz.

Sem a experiência de ter transformado o sofrimento em alegre doação, não existe fecundidade apostólica, porque então faltaria a capacidade de escuta, de serviço humilde, sem privilégios, de gratuidade, de doação incondicionada, de coerência, de pobreza e simplicidade evangélica, de disponibilidade missionária... O sinal da comunhão eclesial é um eficaz sinal de evangelização. A Igreja será missionária, ou seja, “sacramento universal de salvação” (Ad Gentes 1), à medida em que for reflexo da comunhão trinitária de Deus-Amor. A comunhão eclesial é um fato evangelizador, pois que é sinal “sacramental”, isto é, um eficaz sinal de evangelização.

As diferenças dos ministérios, vocações e carismas convergem na harmonia de uma família eclesial, na qual o primeiro lugar pertence sempre à caridade. Por isto, o serviço do sucessor de Pedro equivale, segundo a expressão de Santo Inácio de Antioquia, ao serviço daquele que “preside a caridade” universal. As tensões entre os ministérios, vocações e carismas normalmente surgem da defesa de privilégios não evangélicos. As diferenças dos dons recebidos não produzem divisão, uma vez que eles procedem do mesmo Espírito. A construção da justiça e da paz é possível somente à luz do mandamento do amor e por meio de comunidades unidas, que sejam escolas de comunhão universal. A globalização será justa e pacífica, quando se tornar solidariedade autêntica entre todas as famílias dos povos.

Finalizando...

Eu gostaria de fazer uma proposta simples e concreta: retomarmos os principais documentos sobre a Missão. Inicialmente, o Decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, do Concílio Vaticano II, publicado há 40 anos, ainda muito atual e que merece nosso aprofundamento; a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, sobre a evangelização no mundo contemporâneo, do papa Paulo VI, publicada em 1975; a Encíclica Redemptoris Missio, sobre a permanente validade do mandado missionário, do papa João Paulo II, de 1990. Estes e outros documentos da Igreja universal, e também dos nossos bispos, são fundamentais para a nossa formação e vivência missionárias.

Enfim, a Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, do papa João Paulo II, nos orienta neste início do 3.º Milênio da Era Cristã:

- “O mandado missionário introduz-nos no terceiro milênio, convidando-nos ao mesmo entusiasmo dos primeiros cristãos.

Podemos contar com a força do Espírito, que veio em Pentecostes, e nos move hoje a prosseguir seguros na esperança que não engana. Acompanha-nos neste caminho a Virgem Santíssima, ‘Estrela da Nova Evangelização’, aurora luminosa e guia segura no nosso caminho” (58). Sejamos alegres na esperança, porque experimentamos a presença de Cristo que nos acompanha sempre e “nos espera no coração de cada pessoa” (RM 88).

“Que Jesus ressuscitado, que caminha conosco e foi reconhecido pelos discípulos de Emaús ao partir o pão, nos encontre vigilantes e prontos a reconhecer o seu rosto e a correr até nossos irmãos levando a grande notícia:

- ‘Nós vimos o Senhor!’” (59).

Este será certamente o caminho para construir a paz mundial, segundo o desígnio de “recapitular tudo em Cristo” (Ef 1,10). “Com um coração unificado, vivendo com amor e responsabilidade o mistério da Igreja, comunhão missionária, seremos promotores da paz sem fronteiras, prontos a evangelizar generosamente por este mundo afora, a todos os povos, ‘ad gentes’”.2.

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