Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Asia

Da Colômbia para Bangladesh

Alberto Garuti

Fábio de Jesus Arcila Giraldo, Josué Ochoa Castaño e Luis Ferney Lopes Jimenes são padres da diocese de Sonson-Rio Negro, na Colômbia, que resolveram dedicar alguns anos de suas vidas ao trabalho missionário em Bangladesh. Para isso, pediram para se associar ao P.I.M.E., durante esse tempo de missão além-fronteiras.
Mundo e Missão os entrevistou em Detroit, na casa regional do Instituto, onde eles estão se preparando para a missão, estudando a língua inglesa

M.M.: Não gostariam de se apresentar para os nossos leitores?

Pe. Fábio: Há dez anos, fui ordenado sacerdote e comecei a trabalhar num seminário que depende diretamente das Pontifícias Obras Missionárias e onde se formam sacerdotes para as dioceses mais carentes de padres da Colômbia. No seminário diocesano de Sonson-RioNegro, fiquei nove anos como professor, diretor espiritual e, nos últimos cinco anos, como reitor. Devido também ao trabalho que desenvolvi, nesses anos, com grupos missionários, foi se criando em mim o espírito missionário, de maneira que me coloquei à disposição do bispo para essa primeira experiência diocesana de missão ad gentes.

Pe. Josué: Fui ordenado sacerdote em 1983 e, desde esse tempo, sempre trabalhei em paróquias. Tive uma primeira experiência missionária quando um padre de nossa diocese foi ordenado bispo de La Guaira, uma diocese com poucos sacerdotes. O nosso bispo pediu voluntários para trabalhar alguns anos nessa diocese. Eu me ofereci, junto com outros sacerdotes, e lá ficamos por seis anos. Em seguida, retornamos a nossa diocese.

Pe. Luis: Fui ordenado somente três meses atrás. Estudei no seminário missionário do Espírito Santo. Nesse seminário, se formam sacerdotes tanto de dioceses carentes de padres e como de dioceses que têm muitos, como a nossa, com o objetivo de um dia trabalharem em outras, mais missionárias.

M.M.: Quando surgiu a idéia de três sacerdotes diocesanos trabalharem na missão além- fronteiras?

Pe. Fábio: A idéia de que toda diocese deve sentir-se responsável pela evangelização do mundo e não somente de seu próprio território vem sendo enfatizada há muito tempo: já no Concílio Vaticano II, com o documento Ad gentes, na Evangelii Nuntiandi e, ultimamente, por João Paulo II na Redemptoris Missio.
Concretamente, no nosso caso, o convite veio do card. Tomko, prefeito da Sagrada Congregação pela Evangelização dos Povos, durante o último Comla VI, em Paraná, na Argentina.

Pe. Luis: O card. Tomko esteve no ano passado, na Colômbia, quando se reuniu com a Conferência Episcopal, as congregações e os institutos missionários e, lembrando o que afirmou o documento de Puebla: "A América Latina deve dar de sua pobreza", disse que a Colômbia estava dando missionários à Igreja, mas não na medida que poderia e deveria. Convidou-nos a sermos mais generosos. Esse pedido concretizou-se, durante o Comla VI, com a proposta de trabalharmos em Bangladesh.

M.M.: Como descobriram o P.I.M.E.?

Pe. Fábio: O nosso bispo perguntou ao card. Tomko para onde poderia enviar sacerdotes e o cardeal sugeriu Bangladesh, por ser um país que necessita muito de missionários e propôs que nos vinculássemos ao P.I.M.E. que está há muito naquele lugar. E nos aceitamos de bom grado, pois o P.I.M.E. tem muita experiência nesse campo.

M.M.: Qual é a situação do clero na Colômbia?

Pe. Fábio: Algumas dioceses têm muitos padres, outras sentem uma enorme necessidade deles. A nossa tem mais de 300 sacerdotes para 53 paróquias, com cerca de 700 mil pessoas ao todo. Havendo muitos sacerdotes, vários se ofereceram para prestar serviço em outras dioceses mais necessitadas. Nesse caso, pelo projeto "Igrejas irmãs", uma diocese empresta a outras mais carentes alguns de seus sacerdotes. Em nossa diocese, 163 sacerdotes estão trabalhando fora dela.

M.M.: Onde estão todos esses 163 sacerdotes?

Pe. Luiz: Na Colômbia e em outros 17 países em projetos "Igrejas-irmãs", mas ninguém, até agora, foi enviado a dioceses estritamente ad gentes. Os que estão fora da Colômbia encontram-se quase todos em países da América, alguns também na Europa. Nós somos os primeiros a procurar a missão ad gentes, mas outras dioceses também pretendem enviar missionários à África e à Ásia.

M.M.: Portanto, a sua experiência poderá ter seguidores?

Pe. Fábio: Por enquanto, há várias dioceses interessadas na missão ad gentes. Para citar algumas: a Arquidiocese de Antioquia está organizando uma equipe, o bispo de Santa Rosa manifestou interesse pela nossa experiência e a arquidiocese de Medellin já tem missionários na África...

M.M .: Como é vivido o problema missionário na Colômbia?

Pe. Fábio: Até o ano de 1965, era como se fazia uma vez na Igreja: a missão era só para as congregações e institutos religiosos. Nas paróquias, só se organizavam atividades e se recolhia dinheiro para ajudar as missões. O primeiro passo dado na Colômbia foi a fundação de um instituto missionário colombiano: os missionários xaverianos de Jarumal, fundado por dom Miguel Angel Bruiles, bispo de Santa Rosa de Osos, em 3 de julho de 1927. Hoje, o Instituto conta com 250 sacerdotes que trabalham na África, Ásia e América do Sul.
A partir do Concílio, as dioceses tomaram consciência de que devem ter um compromisso com a missão, mais até que as próprias congregações e institutos missionários.

Pe. Luiz: Isto vem acontecendo, especialmente, nos últimos 10 anos: as dioceses estão se conscientizando de que a responsabilidade da missão no mundo inteiro foi confiada, em primeiro lugar, a elas.

Pe. Fábio: Isso está sendo sentido não somente pelo clero, mas por toda a comunidade cristã.

M.M.: Isso vale para toda a Colômbia ou somente para algumas dioceses?

Pe. Fábio: A idéia está penetrando aos poucos. Está passando dos bispos ao clero e aos leigos mais engajados.

Pe. Luis: Todos os anos, o Departamento de Missões da Conferência Episcopal organiza cursos de formação para a missão, tanto além como aquém fronteiras. E também há leigos que querem trabalhar nas missões.

Pe. Fábio: Esse departamento mantém um curso de formação missionária por correspondência, muito prático e bem elaborado, que dura um ano, para sacerdotes, religiosos e leigos. O departamento presta assessoria a todas as dioceses e organiza retiros e exercícios espirituais de caráter missionário.
Todos os anos, realiza-se o Congresso Nacional missionário, geralmente em Bogotá, com muita participação de pessoas que chegam de todas as partes do país.

M.M,: Como a diocese reagiu, quando soube que três padres iriam para Bangladesh?

Pe. Fábio: A notícia causou muito impacto em toda a diocese, porque é uma experiência de risco, difícil e com probabilidade de prolongar-se por bastante o tempo. Nossa diocese já viveu a experiência de enviar sacerdotes para fora, embora só para a América Latina, como, por exemplo, Cuba, Uruguai e Argentina, e surgiram algumas dificuldades. É natural que haja essa preocupação, principalmente agora que os missionários vão para lugares tão distantes, com culturas tão diferentes. Mas posso dizer que, apesar dessas inquietações compreensíveis, aceitaram a idéia com entusiasmo. Afinal, no nosso caso, não estamos dando da nossa pobreza, mas da nossa riqueza, pois na nossa região não faltam padres.
A idéia foi bem aceita também nas comunidades paroquais. Posso dizer que os seminaristas, com quem eu trabalhava, ficaram admirados com nossa disposição em partir e senti em muitos deles o desejo de fazer a mesma coisa, quando forem sacerdotes. Esse entusiasmo nos fez sentir como é grande a nossa responsabilidade. Se nossa tarefa fracassar, poderia haver muita desilusão e muito desencanto em muitas pessoas de nossa diocese, que agora estão sonhando com as missões.

M.M.: Quais são os planos de vocês em relação à missão em Bangladesh?

Pe. Josué: Estaremos fora do país durante cerca de sete anos, incluindo o tempo de aprendizado das línguas, inglês antes e bengali depois. Ao regressarmos, compartilharemos nossa experiência para animar mais companheiros para que a nossa experiência continue. Aliás, pensamos que, já na metade de nossa caminhada, a diocese começará a organizar outra equipe para que, ao sairmos, ela possa nos substituir.
Acredito que a nossa diocese irá assumir a responsabilidade, durante um certo tempo, de duas ou três paróquias, que lhe serão confiadas, em Bangladesh.

M.M.: E como estarão em relação ao P.I.M.E., durante esse tempo?

Pe. Fábio: Inicialmente, estudamos duas possibilidades: ou trabalhar diretamente em uma diocese de Bangladesh ou começar associados ao Pime. Todos, inclusive o card. Tomko e o bispo, acharam melhor começar associados ao P.I.M.E. Isso quer dizer que, durante o tempo da nossa associação, participaremos da vida da comunidade do P.I.M.E., praticamente, com os mesmos direitos e deveres, em relação ao Instituto, que têm os demais membros.

M.M.: Como se sentem, depois de terem passado praticamente um mês e meio numa casa do P.I.M.E., nos Estados Unidos?

Pe. Luis: Muito bem! Por enquanto, estamos nos mistérios gozosos, a acolhida foi maravilhosa, não nos faltou nada até agora.
Pretendemos permanecer aqui mais ou menos seis meses para aprendermos o inglês. Daqui iremos para a Itália, onde ficaremos numa casa do P.I.M.E., em Gênova, durante um mês e meio, preparando-nos diretamente para a nossa experiência missionária em Bangladesh.
No final deste ano, partiríamos para a missão onde, durante um ano, deveremos estudar mais uma língua, o bengali.

Pe. Fábio: Queria concluir dizendo que sentimos que esta experiência nos faz voltar aos primeiros tempos do cristianismo, quando a Igreja toda era missionária. É uma volta às fontes.

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