Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Ásia


catedral de Ejmiatzin

Se fizermos uma pesquisa nos jornais, nas rádios e nas TVs para ver de quais países eles falam, chegaríamos à conclusão de que alguns (como Estados Unidos, União Européia, Rússia, Japão, China, Argentina) ocupam mais de 90% do espaço. Os outros são quase totalmente esquecidos. É uma das manifestações da concentração dos recursos do mundo nas mãos de poucas nações ou lobbys, que monopolizam também os meios de comunicação, selecionando e interpretando as notícias conforme seus interesses. Por isso, os países fora do seu circuito praticamente não existem.

Quando o papa visita uma nação, muitas vezes faz o processo contrário: ele a tira do esquecimento e a coloca diante dos olhos do mundo todo, porque está interessado sobretudo no povo com suas riquezas humanas, históricas, culturais e religiosas, que são pouco consideradas pela mídia. Sua última viagem, na segunda metade de setembro, atingiu o Cazaquistão e a Armênia, nomes que provavelmente não evocam nada à imaginação de nossos leitores. Todavia, atrás deles há uma história antiga, escrita, em alguns momentos, com letras de sangue. Como no caso do Cazaquistão, república da Ásia central, que durante a dominação soviética foi teatro de deportações forçadas que afetaram mais de um milhão e meio de pessoas (poloneses, ucranianos, alemães do Volga, milhares de dissidentes políticos, entre os quais, Aleksandr Solzhenitsyn). O país transformou-se em um imenso campo de concentração e a inserção de grupos de diferentes origens mudou a configuração étnica da nação. Quem sabe disso? Além do mais, o Cazaquistão, nação de maioria muçulmana, é um exemplo de convivência pacífica de todas as religiões. Quem sabe disso?

País cristão

Mas é minha intenção deter-me sobre a Armênia, pequeno país (29.743 km2) no extremo leste da Europa, herdeiro de uma antiga cultura, marcada profundamente pela fé cristã, a ponto de ser a primeira nação que assumiu o cristianismo como religião oficial de Estado. Neste ano, celebra-se o aniversário de 1700 anos deste início que aconteceu, conforme a tradição, em 301, como fruto da obra evangelizadora de São Gregório, o luminador, embora o primeiro anúncio cristão nesta terra pareça remontar à época apostólica.

Para dizer a verdade, a decisão do rei Dertad III de assumir o cristianismo como religião oficial não era ditada principalmente por motivos religiosos, e sim políticos, mas o que sucedeu foi uma profunda identificação da nação armênia com o cristianismo. O primeiro livro escrito no nascente alfabeto foi a tradução da Bíblia, a qual seguiram as traduções dos escritos dos principais Padres da Igreja e a composição de outras obras que, junto com a liturgia, a formação religiosa e a presença dos santos, moldaram a identidade do povo. O cristianismo é o elemento fundamental da sua cultura, tanto que os persas, que perseguiram os armênios, tiveram que reconhecer que a fé cristã era, para eles, “como a cor da pele e não uma simples roupa sobre o corpo”. A pequena Armênia, colocada como ponte entre a Europa e a Ásia, sofreu, em sua história, todo tipo de violação por parte dos vizinhos poderosos (persas, bizantinos, árabes, turcos, russos): invasões, perseguições, destruições. Estas circunstâncias trágicas contribuíram para criar um relacionamento muito estreito entre a Igreja e a nação. A história prova que, quando a Armênia perdeu a independência, a Igreja foi sempre considerada o principal ponto de referência, a garantia da identidade nacional. Esta consciência continua nos armênios fora do país, que são mais numerosos dos que ocupam o próprio território (4 milhões contra os 3.800.000 na Armênia).

Genocídio

Na memória do povo armênio há uma palavra que carrega uma imensa tragédia: Metz Yeghérn (Grande Mal). Em 1915, 1,5 milhão de armênios foi massacrado pelos turcos que queriam edificar um Estado nacionalista e olhavam com desconfiança todas as minorias. Ao mesmo tempo, grandes massas foram deportadas para o deserto da Síria e da Mesopotâmia. As motivações eram políticas, mas com uma forte conotação religiosa: era também uma tentativa de imposição do islã e da eliminação de quem professava outra fé. O genocídio eliminou dois terços da população do país.


Karekin I patriarca dos armênios

“Quem ainda fala do massacre dos armênios?”, perguntava cinicamente Hitler, quando se preparava para invadir a Polônia, em 1939. O genocídio armênio era visto por ele como um exemplo pela facilidade da execução, a impunidade dos responsáveis e o geral esquecimento do acontecimento. Na realidade, quem ainda fala do massacre dos armênios? Ao contrário dos alemães diante do holocausto, os turcos, até agora, nunca quiseram reconhecer sua responsabilidade no genocídio, alegando que os números são exagerados e que se tratou de uma luta, no contexto da Primeira Guerra Mundial, com vítimas dos dois lados.

João Paulo II mergulhou na tragédia, como faz freqüentemente em suas viagens. Não fez um discurso, no memorial do genocídio: gritou uma prece: “Ó Juiz dos vivos e dos mortos, tende piedade de nós! Escuta o lamento que se eleva deste lugar, a invocação dos mortos dos abismos do Metz Yeghérn, o grito do sangue inocente...”. E prosseguiu: “Profundamente perturbados pela terrível violência contra o povo armênio, nos perguntamos, com espanto, como o mundo pode ainda conhecer aberrações tão desumanas”. No pano de fundo, estava o mundo perturbado depois de 11 de setembro.

Ecumenismo vivo


khatchkar cruz de pedra grande icone armênio

A viagem do papa à Armênia teve um acentuado tom ecumênico: ele se encontrou com a Igreja apostólica armênia, à qual adere a quase totalidade da população, seja no país como na diáspora (os católicos são 10%). Esta Igreja não pertence em sentido estreito ao mundo ortodoxo; é uma das Igrejas “pré-calcedonianas”, porque não quis participar do Concílio de Calcedônia (451), que definiu Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Por mal-entendidos que duraram 1500 anos, a Igreja apostólica armênia foi considerada herética, como
se negasse a humanidade de Cristo. Mas a Armênia foi sempre uma nação de vocação ecumênica, pela sua posição na encruzilhada de povos, culturas, religiões e pelas migrações de seus filhos. Na segunda metade do século passado, a Igreja apostólica armênia entrou no Conselho Mundial das Igrejas e aproximou-se muito da Igreja católica. O grande artífice do diálogo foi o falecido Catolicós Karekin I, patriarca supremo de todos os armênios, que participou como observador do Concílio Vaticano II e assinou com João Paulo II uma declaração conjunta sobre a fé comum em Jesus Cristo (1996), que cancelou todos os equívocos do passado.

João Paulo II, durante sua visita, ficou hospedado, pela primeira vez na história, no palácio de um chefe de outra Igreja, o catolicós Karekin II, que não o deixou em nenhum instante da visita. Celebrou Missa no altar da catedral, assistido por Karekin II e diante de uma multidão, na qual os católicos eram minoria. Ele propôs um desafio radical às Igrejas do país: “A única competição possível entre os discípulos do Senhor é a de verificar quem é capaz de oferecer o amor maior”. E, numa declaração comum, o papa e o catolicós, diante da situação atual do mundo, renovaram o apelo exigente do Evangelho: “Estas questões pedem aos cristãos de hoje – não menos que aos mártires de outros tempos – de dar testemunho da verdade, arriscando pagar um alto preço”.

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