Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Ásia
As
dioceses por Manuel Neves Igrejas locais sem dinamismo missionário exalam cansaço evangélico e pobreza apostólica
Dom António Marto começou por focar a vertiginosa virada epocal em que vivemos, que faz novas pessoas, nova cultura e novos desafios. Imensas propostas sedutoras, hoje, nos são apresentadas onde até a religiosidade aumenta, mas é uma religiosidade sem Deus, alheia à memória cristã. As tradicionais forças evangelizadoras (família, escola e ambiente) perderam sua influência e nota-se o alastramento de uma apostasia silenciosa. Cresce o clima cultural agnóstico que quase nos obriga, hoje, a sermos leigos. Esse fenômeno moderno desafia a Igreja, rosto histórico do projeto divino, a ser, o mais que puder, a manifestação amorosa da misericórdia do Pai. A Igreja não é uma sociedade anônima, porque tem o rosto dos homens e mulheres de hoje. Não é uma sociedade de bem estar que vive de maneira anárquica ou em forma de autogestão. Apresenta-se organizada dentro da continuidade apostólica. Como a lua é “habitada” pelo sol que nela se reflete, assim a Igreja deve ser presença de Cristo, mistério de comunhão e missão. Evangelizar não é anunciar um produto, não é esforço de propaganda nem de publicidade. É testemunho vivo de um Deus vivo e presente a dotar sua Igreja de dons e ministérios necessários à salvação de todos. A missão lança os cristãos no jubiloso anúncio do Ressuscitado. Não é o missionário que leva o Evangelho. É a força do Evangelho que, pelo Espírito, leva o missionário. Sobre os bispos e seus presbitérios paira a responsabilidade por essa solicitude universal de salvação. As Igrejas locais têm a mesma missão da Igreja Universal, que deve ser o horizonte constante de todo o trabalho pastoral. A atividade missionária não pode ser reservada para especialistas. Todos os bispos e presbíteros devem cultivar esta dimensão universal em todo o seu trabalho. Por isso, impõe-se uma revisão paciente e corajosa, uma profunda conversão pastoral em nossas dioceses. Ou trabalhamos a partir das exigências do coração, da fé, que é Cristo, ou está garantido um bloqueio. Com facilidade podemos nos reduzir a gestores administrativos de nossas comunidades e a nossa pastoral esgotar-se-á em atos vazios de culto ou em ações de mera assistência social e caritativa. E, ao terminar, dom Marto apresentou algumas sugestões práticas para que se torne possível essa transformação missionária nas nossas Igrejas locais: Despertar a consciência missionária diocesana. Cada diocese não pode circunscrever-se ao seu pequeno quintal; deve ir além do seu espaço geográfico, e abrir-se à Igreja Universal. Cooperação entre Igrejas. Cada uma deve dar e receber, estar disponível para este intercâmbio. Uma Igreja jovem e pobre economicamente pode ser rica em múltiplos outros aspectos e ter muito para partilhar e ajudar velhas Igrejas. Fechar-se a este intercâmbio é empobrecer-se. Viver esta partilha de modo abstrato é pouco. A internet pode ajudar, mas não esgota a força da Missão que precisa de contato humano. Por isso, criar maneiras de uma intensa e freqüente partilha como: ajudar novas dioceses ou paróquias, visitar situações e estudar pastorais em terras de missão, facilitar aos seminaristas (às vezes educados em ambiente tão burguês!) experiências missionárias, fazer intercâmbio de presbíteros, promover o voluntariado, comprometer movimentos laicais, mobilizar com mais garra as dioceses e todo o povo cristão para a partilha econômica, convidar missionários para uma partilha de suas experiências... Recuperação da partilha espiritual. A espiritualidade funciona para a Igreja como o óleo para o carro. A Igreja não é máquina para produzir coisas, nem empresa econômica, nem simples associação de ajuda a necessitados. É comunhão de pessoas que assumem o estilo de Jesus para se colocar a serviço do Reino de Deus. O enorme conteúdo espiritual e redentor de nossa vida deve ser mais acionado em favor da evangelização. Oração missionária. A oração une os povos. Fortalece e leva ao compromisso. Faz-nos sentir a todos filhos do mesmo Pai. Oração de todos: crianças e doentes, pessoas e famílias... Orar para que Deus dê coragem à Igreja de se tornar mais missionária, dê força para que todos assumamos nossa vocação missionária. Urgente despertar de vocações missionárias a tempo pleno. Não para serem especialistas únicas ou para substituírem nossa responsabilidade. Elas são muito preciosas à Igreja para serem sentinelas da Missão, para não deixarem acabar o fogo, para estimularem a consciência missionária e poderem coordenar meios de participação missionária para todos. Colaboração com os institutos missionários ad gentes. As dioceses podem e devem reforçar os institutos missionários com pessoas e meios. Algo de novo está surgindo em Portugal: jovens sacerdotes diocesanos colaboram na atividade missionária como membros associados de institutos missionários. A diocese de Braga enviou este ano dois para Moçambique integrados na Sociedade Missionária. Aveiro já está fazendo isto há mais tempo. Aceitar o desafio cultural do nosso tempo. Fonte Boa Nova A Igreja é missionária ou não é Igreja Pertence à tradição da Igreja, é doutrina apostólica e objeto de muitas explicações teológicas, conciliares e pontifícias, que a responsabilidade missionária ad gentes não recai só sobre especialistas ou sobre os institutos missionários: todas as dioceses, como realizações locais e plenas da Igreja universal, têm como elemento constitutivo de sua própria natureza um imperativo missionário intrínseco que as impele para a evangelização universal. O anúncio jubiloso de Cristo ressuscitado a quem ainda não o conhece não é um elemento decorativo, não é tarefa acidental, nem esquisita ação de freiras e monges. É exigência intrínseca e responsabilidade inerente à própria natureza da Igreja. A Igreja ou é missionária ou não é Igreja. E esta exigência não se pode diluir em palavras bonitas de oportunismo circunstancial ou um esporádico gesto de solidariedade. Ou se assume em gestos concretos nas diversas dioceses, paróquias e comunidades ou começam as realizações eclesiais a cheirar a cansaço evangélico, pobreza apostólica, estagnação doentia ou cômoda e irresponsável instalação. Encontro missionário em Valadares |
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