Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Ásia
por Domenico Colombo Mario
Ghezzi, jovem missionário italiano de 37 anos. Como recebeu a destinação para Camboja?
O que você fez para inserir-se no ambiente? – Com a minha chegada, decidiu-se seguir o modelo proposto pelas Missões Exteriores de Paris (mep), que estudam a língua e a cultura local por três anos, antes de assumir qualquer trabalho. A decisão foi tomada com a condição de ser reavaliada mais tarde, havendo a possibilidade de se reduzir o estudo sistemático há dois anos. No primeiro ano, fiquei na casa do PIME em Phnom Penh. No segundo, em Battambang, onde iniciei uma tímida atividade pastoral, percorrendo os vilarejos para celebrar as Missas dominicais. Enfim, no terceiro ano, fui nomeado diretor espiritual do seminário teológico de Phnom Penh, onde me encontro. Findo o estudo da língua khmer, fui designado pároco de uma pequena comunidade na periferia da capital, mantendo a incumbência no seminário. Que atividades o PIME desenvolve no Camboja? – O PIME chegou ao país como uma ONG, New Humanity, que continua até agora. Inicialmente, esta parecia ser a única forma possível de presença. Depois, percebemos que era possível uma ação pastoral. Então, pe. Franco Legnani deixou o cargo de ecônomo da ONG e se colocou à disposição de dom Ives Ramousse, Vigário Apostólico de Phnom Penh, à época, que o destinou a Kompong Thom, no centro do país, como coadjutor, e depois como pároco. A opção de pe. Franco abriu caminho para aplicar um empenho pastoral ao trabalho social desenvolvido pela New Humanity. Atualmente, somos seis padres do PIME: quatro se dedicam à ação pastoral, um se ocupa na ONG e o sexto inicia o estudo da língua. Por que você optou pelo trabalho pastoral? – Acredito que este seja o trabalho específico do padre, que até pode assumir diversas formas de cunho social, mas sempre com o foco sobre a pastoral. Alguns realizam seu sacerdócio com incumbências puramente sociais, mas não é o meu caso, pelo menos por ora, já que sou novato na missão. Talvez no futuro, tendo bases presbiteriais e pastorais mais sólidas, pela experiência, eu possa também me empenhar no campo social, sem esquecer que o múnus específico do sacerdote é a administração dos sacramentos e o serviço à comunidade cristã. Como é o seu local de trabalho?
– Resido no seminário com o cargo de diretor espiritual, junto ao reitor, pe. Bruno Cosme, e três seminaristas cambojanos. Em alguns períodos do ano, hospedamos alunos de vários seminários asiáticos. Não é difícil desempenhar meu cargo, porque é bom o relacionamento entre nós. O seminário não tem horários rígidos e nem campainhas que sinalizam horas e orações. Tudo acontece em clima familiar e simples. Além disso, sou pároco da segunda comunidade de Phnom Penh, em um dinâmico bairro de periferia, onde residem apenas seis famílias católicas, que têm dificuldade de participar da Eucaristia dominical por motivo de trabalho. Das cerca de 200 pessoas que freqüentam a Missa aos domingos, pouquíssimas residem na vizinhança. A maioria é formada de jovens universitários, trabalhadores, estudantes em geral, adolescentes e crianças. Destes, menos da metade são batizados, os outros ou são catecúmenos ou simplesmente vêm para conhecer Jesus e a Igreja católica. Poucos provêm de famílias católicas; a maior parte tem um antecedente budista e isto requer o trabalho de acompanhar e aprimorar a formação e a experiência de fé nos primeiros anos que se seguem ao batismo. Você tem um programa com objetivos precisos? – É muito difícil falar de programas e objetivos na Igreja cambojana. Vivemos um pouco na onda do imprevisto e da precariedade, que nos impele continuamente a mudar programas e objetivos. Além disso, os sacerdotes dedicados ao trabalho pastoral na diocese são apenas uma dezena para atender a 38 comunidades. Veja que as necessidades são grandes e os recursos humanos, limitados. Seria necessária a minha presença constante na paróquia, mas as exigências do seminário são também importantes; então, faço o melhor que posso. Reservo algumas noites para a paróquia, outras ao seminário e, no resto do tempo, preparo encontros, retiros e diversas atividades, que atendam tanto o seminário como a paróquia. Além disso, dedico um tempo à comunidade do PIME, da qual sou ecônomo local. Que dificuldades você encontra para evangelizar e formar a comunidade cristã?
– A língua é certamente o primeiro grande obstáculo para as homilias, encontros e catequese. Creio, porém, que o maior problema seja o cultural, já que é muito complexo inserir um conceito cristão numa pessoa que cresceu e foi educada em contexto budista-animista. O perdão de Deus ou do próximo não faz parte da mentalidade comum; por isso é difícil, para eles, a aproximação ao sacramento da reconciliação. Este exemplo ajuda a entender o difícil e longo caminho para a conversão... A Igreja local recomeçou do zero: hoje, em que ponto está? – Desde que a Igreja conseguiu voltar ao Camboja, muitas coisas aconteceram: ONGs católicas entraram, como expressão e presença de diversos institutos missionários ou congregações religiosas. Isto deu forte impulso de novidade e pluralismo à comunidade católica, antes atendida só pelos missionários de Paris. Hoje, diversos carismas eclesiais têm expressão na Igreja cambojana: da educação à assistência médica, ao anúncio, à assistência social... É muito difundido o tema da inculturação da fé, que procura sintonizar-se com a cultura local. Isto é visível sobretudo na liturgia. O que se deveria fazer a mais e melhor? – É necessário uma melhor coordenação das diversas forças envolvidas na Igreja local. Basta saber que, no anuário diocesano, constam 56 sacerdotes, de 16 nacionalidades e 12 institutos diferentes, além de todas as congregações femininas e leigas, para uma população de 20.000 católicos, dos quais dois terços são refugiados vietnamitas. Isto dará melhor visibilidade de comunhão eclesial que podemos testemunhar aos não-crentes. Por isso, diante de tanta diversidade, o caminho a percorrer é longo, para oferecer um testemunho mais orgânico e harmônico, principalmente aos recém-convertidos. |
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