Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Ásia

Em uma recente visita ao Paquistão, a Ajuda à Igreja que Sofre testemunhou a escalada de sofrimentos que a comunidade cristã daquele país tem suportado em um dos piores períodos de perseguição de toda a sua história

Márcio Martins

urante as três semanas em que a Obra católica de caridade internacional Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) visitou o Paquistão, duas igrejas foram queimadas, várias outras atacadas, cruzes derrubadas e pisoteadas. Pregados nos prédios religiosos, pôsteres convocaram a população ao massacre de quem não é islamita. A onda de violência que assolou a comunidade cristã foi despertada com a afronta que se espalha pelo mundo islâmico após a publicação de charges do profeta Maomé. Incapaz de manifestar sua fúria no Ocidente, militantes muçulmanos resolveram direcionar seus ímpetos contra a comunidade cristã local.


Edifícios são queimados e destruídos Perto de Lahore Cathn

O bispo Lawrence Saldanha, presidente da Conferência dos Bispos católicos do Paquistão, pediu um encontro de emergência com o primeiro-ministro Shaukat Aziz, para discutir a crise de segurança que a Igreja enfrenta. A história sombria da vida no Paquistão revela que os cristãos lutam contra o medo e a frustração, ao expressar livremente a mais firme e clara fé. Como disse um homem à AIS, “se Cristo foi preparado para sofrer na cruz, por que não deveríamos nós?”. Quase recém-chegados a essa região da Ásia, os cristãos são tidos como culpados, por associação, por compartilharem da mesma herança religiosa e cultural do mundo ocidental.


Max Rodrigues, bispo da diocese de Hyderabad, mostra o interior de uma igreja danificada na cidade de Sukkur

A onda de calamidades que vitima a comunidade cristã é parte de um contexto de atos, contínuos e traiçoeiros, de perseguição e discriminação, que arruína diariamente as vidas dos não-muçulmanos no Paquistão. A AIS ajuda os fiéis a atravessarem esse momento de crise. E há muito que fazer, pois o número de cristãos é maior do que sugerem as estatísticas (menos de 2% da população, em um país fundamentalmente muçulmano). Há, no entanto, ao menos 1,1 milhão de católicos no Paquistão, algo comparável ao número de católicos praticantes na Grã-Bretanha. Perto de 85% dos cristãos moram em vilarejos, a maior parte como “trabalhadores escravos”, dependendo inteiramente dos senhorios residentes nas cidades.

Os trabalhadores são constantemente ameaçados por militantes islâmicos. As vagas de emprego são preenchidas preferencialmente por muçulmanos. Quando os cristãos conseguem uma ocupação – quase sempre em fazendas ou como cozinheiros, faxineiros, garis – o salário é miserável. O trabalho infantil é comum. Os pais não conseguem colocar os filhos na escola e não ousam poupá-los do trabalho com medo do senhorio reduzir seu pagamento. Sem carteira de identidade ou direito a voto, os católicos não possuem representação política e não têm acesso legal à assistência médica.

Perseguição: “Assim como era no início da Igreja”

A equipe da AIS, 48 horas após a aterrissagem no aeroporto de Jinnah, em Karachi, foi levada à catedral do Sagrado Coração, em Lahore. À medida que se aproximava dos portões, a equipe avistou cerca de 60 homens armados que mantinham guarda.

O responsável pela catedral, Pe. Andrew Nisari, explicou:


Estudantes de Teologia de um seminário em Karachi

- “Na noite da segunda-feira (13 de fevereiro, logo após as publicações das charges do profeta Maomé), telefonaram-me dizendo que uma multidão se aproximava e que as igrejas e escolas não estavam seguras. O rumor se espalhou pela cidade. Todos ficaram preocupados”. Temeroso, o padre pediu proteção policial.

No dia seguinte, milhares de pessoas desceram ao centro da cidade, ateando fogo em pneus e gritando obscenidades contra o Ocidente. A agitação centralizou-se em torno da catedral e, como o padre Andrew se preparava para a Missa das 16 horas, imaginou se aquela seria sua última celebração. Enquanto reinava o caos, ele se questionava se deveria ou não cancelar a cerimônia. “De alguma maneira, 50 cristãos corajosos e cheios de fé conseguiram chegar à catedral. Cantamos os salmos. Foi diferente de tudo o que já vivenciei.

Pensamos: - estamos em meio à perseguição – assim como era no início da Igreja.

Diante do perigo, reunimos muita coragem para celebrar a Missa. A coragem proveniente de Deus. Mesmo que viessem durante a celebração, eu não temeria. Como disse, não haveria forma melhor de morrer do que em uma Missa”, afirmou o celebrante. No primeiro domingo desde o incidente descrito pelo Pe. Andrew, a equipe da AIS se reuniu para a Missa na catedral de Lahore. Seu arcebispo, Dom Lawrence Saldanha, descreveu “o milagre que Deus havia feito”, preservando sua catedral da destruição.

Elogiou a AIS e disse: - “Somos gratos aos nossos amigos da AIS.

Quero agradecê-los, pois são uma enorme fonte de força para os cristãos que, assim como nós, sofrem perseguição; e também pelo interesse, por suas orações e pela ajuda que estão dando, para que possamos realizar nossa missão na terra do islamismo”.

Enquanto isso, na cidade de Sukkur…


Crescente número de fiéis numa Missa dominical depois dos ataques às igrejas

Toda a equipe da AIS, o arcebispo, o Pe. Andrew e todos os fiéis presentes na Missa na Catedral de Lahore mal podiam imaginar que, naquele exato momento, duas igrejas na cidade de Sukkur estavam sendo atacadas por uma multidão de militantes islâmicos. A primeira a ser atacada foi a igreja de St. Saviour, em estilo colonial. Os manifestantes queimaram tudo o que havia em seu interior e, na seqüência, explodiram a igreja. Nesse meio tempo, as notícias dessa destruição chegaram à igreja católica de St. Mary.

Ao tomar conhecimento, o pároco, Pe. Yaqub Gill e a Ir. Nargis Sadiq, fizeram 25 chamados aos serviços de emergência, todos em vão. Uma multidão barulhenta invadiu a área, queimando o templo e salas de aula da escola maternal da irmã Nargis, dirigida por missionários franciscanos de Cristo Rei. Com a irmã Nargis estavam no convento sete noviças, entre 18 e 23 anos de idade. Os atacantes se aproximaram. A freira e suas jovens noviças conseguiram escapar, graças a um paroquiano que as levou em seu carro para um lugar seguro.

A Ir. Nargis mostrou as marcas dos agressores na porta da frente do convento. Eles não entraram porque, naquele momento, sirenes da polícia começaram a ser ouvidas. Então, a multidão se dispersou rapidamente, deixando um rastro de miséria e destruição.

Relembrando os fatos, a religiosa disse: - “Sei que não estou segura, mas nada temo.

Sinto-me fortalecida em minha fé por causa das palavras de Jesus. Ele nos disse que seríamos perseguidos por causa de nossa fé e, ainda assim, prometeu-nos que estaria conosco até o fim dos tempos”. Surpreendentemente, o número de fiéis chegou a mil na Missa em St. Mary nos domingos seguintes. Como o interior da igreja não passa de uma concha enegrecida, as celebrações estão sendo realizadas no pátio de uma escola próxima.

E apesar de todos esses acontecimentos, os seminários estão lotados, os programas de treinamento de catequistas estão cheios, são muitas as aspirantes à vida religiosa, e a Igreja, mesmo com as perseguições diárias, está prosperando. A Ajuda à Igreja que Sofre prometeu auxílio à Igreja sofrida e perseguida do Paquistão. E conta com a colaboração de todos os seus amigos brasileiros nesse projeto de reconstrução e fortalecimento da comunidade cristã paquistanesa.

AIS
Ajuda à Igreja que Sofre
Rua Carlos Vítor Cocozza n.º 149 - Vila Mariana
São Paulo - SP- 04017-090
Tel.: 0800.7709927
www.aisbrasil.org.br

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