Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Ásia
Joseph Yacoub* Em 2003, um monge iraquiano de Mossul desabafou: - “Há anos que nossa comunidade enfrenta um crescimento do fundamentalismo muçulmano. Mossul assiste ao desenvolvimento inquietante de uma corrente wahhabita. (...) Se a situação persistir, só a cruz ficará de pé no Iraque”. Alguns cristãos já se exilaram. Os nativos sentem-se estrangeiros e andarilhos na própria pátria. Privados da ancestralidade e sem as raízes da identidade (idioma, cultura e espiritualidade), enfrentam a migração irreversível. Diante desses enormes desafios, as Igrejas do Iraque procuram reagir. Após o Congresso patriarcal geral (knuchia) da Igreja caldéia (1995), em Bagdá, a comunidade cristã sinaliza para a quebra do próprio imobilismo e parece lançar as bases de uma renovação. Será verdade? Na expectativa, o futuro dos cristãos do Iraque – como, aliás, de todos os cristãos do Oriente Médio – depende do que acontece no Iraque, do ambiente muçulmano e do contexto internacional. Preocupante é o êxodo ininterrupto de cristãos que, diante da insegurança em sua pátria, deixam-na, buscando melhores condições de vida e de liberdade no Ocidente. Por isso, desde 1991, intensificaram-se os encontros dos patriarcas, dos líderes e responsáveis pelas Igrejas cristãs de diversas tradições. Várias cartas pastorais colocaram-se contra as conseqüências do êxodo. A hemorragia migratória, sem precedente, poderá significar o desaparecimento dos cristãos do Oriente Médio, enquanto grupo estruturado. Uma enorme perda para a região e para as religiões monoteístas. Tais cristãos já não se sentem em casa. A solução deve envolver árabes muçulmanos, regimes políticos, missões cristãs e estrangeiras, o mundo ocidental e os cristãos orientais. A maioria muçulmana deverá repensar os conceitos de Estado-nação, de secularização e de democracia. Há que se respeitar o direito, o pluralismo político, religioso e cultural, a liberdade de associação e de consciência. Isto irá conferir aos cristãos a qualidade de cidadãos plenos. Seria preciso também reler o passado e reescrever a história do Oriente árabe em perspectiva mais aberta, compreensiva e humanista, em vista da formação de uma consciência histórica comum. O passado pré-islâmico e pré-arabe também integram a história e a civilização daquele mundo. Palmira (Tadmur), Ras Shamra-Ugarit, Mari, Ebla, Amonitas, Edomitas e Nabateus, Isin, Larsa, Sumer, Lagash, Akkad, Elam, Babilônia, Nínive, Fenícia, Aram não são expressões ou situações fossilizadas. Têm expressão real, encarnada na atualidade. Tudo isto leva a uma revisão da civilização árabe. Árabe e muçulmano não são sinônimos, pois existem árabes cristãos e muçulmanos não-árabes. Assim, há que se adotar um modelo intercultural, pois o mundo árabe é uno e, ao mesmo tempo, diferente. Os cristãos, sempre mais presentes no campo social, temem seu próprio futuro. O ambiente à volta nada faz, a não ser reavivar o temor. Os cristãos vêem o seu espaço contrair-se cada vez mais. Como dissipar esse temor, senão suprimindo o status de minoria aviltante (os dhimmi) e promovendo uma real igualdade frente à lei? *Historiador
e professor de Ciências Políticas. |
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