Revista "MUNDO E MISSÃO"

Igreja no Mundo - América


por Pedro Miskalo

A cidade


Dom Mosé João Pontelo Bispo de Cruzeiro do Sul - AC com Pedro Miskalo

ruzeiro do Sul, no vale do Juruá, é a segunda cidade do Acre em habitantes. Contrastando com a lenta descida das águas barrentas do Juruá, rumo ao Solimões, centenas de motocicletas cortam vertiginosamente a cidade em todas as direções. Na centenária cidade, que se espalha entre colinas palmilhadas de buritis, supermercados convivem com antiquadas vendas; quiosques abarrotados de miudezas rivalizam com amplas butiques. A maior via de transporte é o preguiçoso Juruá, que no inverno incha e por onde sobem e descem gaiolas e balsas, abastecendo a população com combustível, gás, bebidas e outras necessidades.

O rio também traz e leva seringueiros e pertences. “De Manaus até aqui são vinte dias batidos”, assegurou-me Vicente, um filho da terra. “O rio é bom de peixe?”. “Só na piracema, quando a peixarada sobe (o rio) prá desovar. Aí, então, o pessoal aproveita”. E completa: “O rio já foi bom, moço! Agora, peixe bom é só daqui a oito dias”. Aprendi que, em todo o vale amazônico, a distância é contada em dias e não em quilômetros. Dezenas de jovens canoeiros (catraeiros) atravessam ribeirinhos para margens opostas a um Real.

Lotadas e equipadas com barulhento motor de popa, as canoas singram o rio à flor da água:

“Tenha medo, não, moço! É mais seguro que na terra”. Incontáveis moto-táxis aguardam passageiros perto do mercado municipal e dos armazéns com produtos da região.

Por lá também circulam os farinheiros, oferecendo o produto que tornou famosa a cidade:

a farinha de mandioca. “Tem mais casa de farinha, espalhada por aí, do que gente. É a melhor farinha do Brasil. É vendida em todo canto do país”, orgulha-se Aderaldo, um cearense curtido pelo sol, cuja família veio na época da borracha.

À minha pergunta, ele responde:

“Quanto custa? A saca de 50 quilos vai de 30 a 65 reais, conforme a qualidade”. Neste emaranhado sócio-cultural não faltam os reduzidos remanescentes da etnia nauá, que habitava o akiri (Acre). Aculturados, sobrevivem da pesca e da lavoura de subsistência ao longo dos igarapés.

Jecira Araújo, professora e coordenadora de um programa educacional, caracteriza o sentimento de autonomia do seu povo altaneiro:

“Cruzeiro do Sul fica isolada da capital (Rio Branco, a mais de 600 km de distância), por terra, durante nove meses do ano. O transporte de pessoas ou mercadorias, quando urgente, deve ser por via aérea. A cidade recebe cinco vôos semanais para passageiros, através de uma companhia aérea regional, além de um vôo semanal de um cargueiro”.

A Igreja

A diocese, desde 2001 confiada a dom Mosé João Pontelo, nasceu da Prelazia de Juruá, criada em 1931 por Pio XI.

Desmembrada da então Prefeitura Apostólica de Tefé, foi confiada pela Santa Sé aos cuidados da Congregação do Espírito Santo e elevada à diocese em 1987 pelo Papa João Paulo II, passando a denominar-se Diocese de Cruzeiro do Sul. Dom Mosé explica:

“O Acre abriga duas dioceses, a de Rio Branco e esta. Esta conta com paróquias em apenas 10 municípios: quatro no estado do Amazonas e seis no Acre, porém espalhados por uma área imensa”.

Fui conferir: são mais de 126 mil km2. O censo de 2001 aferiu uma população de 236.837 habitantes, o que dá a densidade demográfica de apenas 1,9 hab/km2. “75% da população da diocese é católica – continua dom Mosé –, no entanto contamos com apenas 23 padres, 6 dezenas de irmãs e alguns seminaristas em tamanho território. É aí que entra a força da rádio”.

A evangelização silenciosa e a o evangelho pelos ares


Irmã Adila com sua auxiliar ao fundo, artesanato confeccionado pelos re-educandos

Os contrastes são as marcas da evangelização. Cada uma a seu modo, as pastorais alimentam o povo com a Boa Nova. Para mostrar a ação do Espírito, destacamos – entre tantas – duas vertentes corajosas. Entregue à ir. Adila Imig, uma das cinco professas da Congregação de Nossa Senhora, a Pastoral Carcerária atende a população confinada.

A religiosa explica:

“Nós os chamamos de re-educandos, e não de presos. No momento, temos uns 300, e o número varia muito. Mas a capacidade da penitenciária é só para 146 detidos”.

Sobre a efetiva recuperação dessa gente, ela esclarece:

“Entre 70 e 80% deles se recupera de vez. Sessenta re-educandos trabalham com artesanato, prestam serviços na agricultura, na horta, cuidam de porcos...”

“A maior incidência de delitos? Drogas, ora! Quase sempre cocaína”.

O município faz fronteira com a Amazônia peruana, por onde circulam traficantes de várias origens. As dificuldades de controle são as de sempre: efetivo militar e logístico insuficientes, vastidão de fronteiras inóspitas, relativa permissividade de alguma autoridade...

Mas a irmã prefere realçar a ação pastoral:


Catraeiros do Rio Juruá, em Cruzeiro do Sul

“Em dezembro, dom Mosé ministrou a Primeira Eucaristia e a Crisma a 28 re-educandos. Um deles também foi batizado. Eles se emocionaram. Quase todos disseram: “Este foi o melhor momento de minha vida!”. Pena que um não compareceu porque está com malária. Mas não faz mal, fica para a próxima Missa”. A pastoral carcerária mantém uma escola. Segundo a coordenadora, ir. Adila, 52 re-educandos estudam regularmente e 34, por módulos.

Seus olhos brilham:

“16 deles já fizeram o provão com notas ótimas. Dois com 10 em inglês e outras notas muito boas. Tudo isso ajuda a suportar os desafios e amá-los sempre mais”.

A religiosa atua também na Pastoral da Catequese e da Educação Religiosa.

Eu quis saber:

“Qual delas, irmã, é mais importante?”. “Todas, meu filho – ela respondeu –, porque todas evangelizam!”.

A voz que vem de lá

Graci Rezende, coordenador da Rádio Verdes Florestas e das retransmissoras da Rede Vida de Televisão, Canção Nova e TV Século 21, sob a responsabilidade da diocese, é um jovem dinâmico, de fala fácil. Segundo ele, até meados do século passado não havia nenhuma emissora na região. A pioneira foi a Voz dos Nauás, na década de 50, que, depois, foi transferida para Sena Madureira (AC).


Técnicos da TV Rede Vida

A cidade recebeu a Radiobrás, em AM e FM, nos anos 70. Na década de 80, foi criada a Fundação Verdes Florestas, com o objetivo básico de receber e de administrar uma concessão de Rádio AM. “Finalmente foi ao ar, em ondas médias, a primeira transmissão da Rádio Verdes Florestas, no dia 10 de março de 1987, em caráter experimental.

Desde então permanece no ar até hoje”, assegura Graci, que continua:

“Nosso objetivo principal, meu irmão, é evangelizar. Mas evangelizar respeitando o ouvinte, que nem sempre é católico. A programação é variada, bem popular, com músicas que o povo gosta, notícias, informações sobre saúde, enfim, com tudo o que o ouvinte precisa. Então, não fazemos só programas religiosos”.

Mas ressaltou:

“Evidentemente, as pastorais têm voz na emissora, através de programas semanais. Dom Mosé também grava toda semana um programa chamado “A Voz do Pastor”. Algumas Missas são transmitidas pela emissora, porque, veja bem, meu irmão, a rádio aqui é a única ligação diária com todo o Acre e uma boa parte do Amazonas. Através dela, as comunidades interioranas, antigamente chamadas de seringais, ficam ligadas ao mundo, em qualquer hora do dia ou da noite. Esse é o nosso jeito de evangelizar, e ele não pode parar”.

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