Revista "MUNDO E MISSÃO"

Igreja no Mundo - América

O renascimento da fé nos
Estados Unidos


Catedral de Saint Patrick em Nova York

por Massimo Giuliani

corre freqüentemente, hoje em dia, nos ônibus e metrôs dos Estados Unidos, encontrar pessoas lendo a Bíblia. Esta experiência não é senão a ponta do iceberg, da montanha submersa da fé que, nos Estados Unidos da América, é onipresente.

Na verdade, não se trata nem mesmo de um renascimento, pelo simples fato de que nunca morreu, nem mesmo decaiu. É certo que, depois do infausto 11 de setembro de 2001, muitos norte-americanos descobriram que são mortais e mais vulneráveis. A Bíblia tornou-se o maior best-seller e os negócios vão de vento em popa para os comerciantes de livros religiosos e músicas sacras.

Mas, o retorno à Igreja e o "consumo do sagrado" caminham, lado a lado, com o aumento da espiritualidade new age, das inscrições nos cursos de ioga, do patriotismo exasperado, onde a causa, mesmo militar, se confunde com a causa de Deus.

Por isso, têm razão aqueles que se perguntam em que Deus crêem os americanos. Porque, se não há dúvida de que se trate de um povo profundamente crente, sobram dúvidas sobre o conteúdo dessa crença. A impressão geral é que o fato de crer seja mais importante do que "em que" e "como" crer, e que o maciço retorno do sentimento religioso é acompanhado pela permanente ignorância de cultura teológica, de distinção doutrinal, de conhecimento dos fatos históricos que estruturam e dão força a cada religiosidade. Alguns dados podem iluminar estas considerações.

De fato, parece que 54% dos americanos se declaram "religiosos", enquanto 30% prefiram se definir como "espirituais". Por outro lado, 82% se reconhecem na religião cristã, 10% pertencem a outras crenças não-cristãs e só 8% se declaram "ateus" ou "agnósticos". Mas, ser cristão nos Estados Unidos significa fazer parte de uma variada gama de Igrejas, seitas e congregações - são registradas oficialmente mais de 1.350 (não é exigida permissão especial para fundar uma Igreja e as congregações são isentas de impostos).

Analisando-se mais profundamente a situação, percebe-se que o crescimento dos espiritualistas e evangélicos coincide com o declínio vertiginoso das Igrejas protestantes tradicionais: por exemplo, em 1960, a Igreja episcopal (anglicanos da América) contava com 3 milhões e meio de fiéis, e, hoje, com 2 milhões; a mesma tendência acontece com as Igrejas metodista e presbiteriana. Entretanto, cresceram os fiéis da Igreja batista (de 10 milhões, em 1960, para 17 milhões, em 2000) e das congregações pentecostais, sem falar dos mórmons, movimento de maior sucesso entre as Igrejas do país.

Batistas e pentecostais concentram-se sobre a leitura direta da Bíblia, de um modo fundamentalista, e parecem ignorar o método histórico-crítico e as mediações culturais das escolas teológicas. Eles não se preocupam em saber quando viveu o profeta Jeremias, nem como interpretar os fatos da infância de Jesus, mas estão sempre prontos a jurar que nenhum livro conta a verdade mais do que a Bíblia e que Deus estava com os soldados americanos na guerra de libertação do Iraque. A América parece a confirmação da contra-profecia de Peter Berger, o sociólogo religioso que refutou a "teologia da secularização", no auge dos anos setenta, ao afirmar:


Menino acendendo velas no interior da catedral de Saint Patrick, no centro de Nova York

"O mundo, hoje, é mais religioso que nunca, e é tudo menos que secularizado, como haviam previsto, ora com alegria, ora com resignação, os analistas da modernidade". A Igreja católica, por sua vez, tinha resistido bem, até poucos anos atrás: a liderança dos bispos, um tanto liberal em matéria de economia, política e questões sociais, harmonizava-se com uma linha tradicional em matéria de doutrina moral, de reformas litúrgicas e de orientações estritamente pastorais. A grave crise que se abateu sobre ela, há cerca de um ano, em conseqüência dos escândalos de pedofilia, que aumentaram as divergências entre a hierarquia e o laicato, ainda não foi resolvida, causando o afastamento de fiéis, para os quais a credibilidade da instituição está abalada.

Isto se explica pela idéia de religiosidade assumida pela maioria dos americanos: para 53%, "ser religioso" significa agir em conformidade com os princípios professados; para 33%, significa "sentir-se diante da presença de Deus" e, somente para 5% a religiosidade consiste na freqüência aos serviços religiosos nas igrejas. Segundo o resultado de uma pesquisa feita pelo Pew Charitable Trust, "para os fiéis americanos, praticar o que se anuncia é mais importante do que anunciar o que se deveria praticar".

Se esta é a conclusão, não causa estranheza que a opinião pública nos Estados Unidos tenha sido tão severa contra a Igreja católica, acusada de faltar à transparência e à coerência. Os pecados são absolvidos, mas, o abuso de credibilidade, o americano médio custa a perdoar e não esquece facilmente. Este país nasceu como uma tentativa de conciliar vida religiosa e vida civil, mais ainda, como uma demonstração de que não existe contradição entre fé e democracia.

Nos Estados Unidos, cada religião é bem aceita, contanto que não coloque em discussão os valores da liberdade e o primado do indivíduo, sobre o qual se fundamenta a convivência político-social. Por outro lado, trata-se de uma democracia que se inspira na fé no Deus único e transcendente, o Deus que os puritanos padres fundadores sabiam ser a única autoridade sobre a qual deve se apoiar a lei. Aquela lei que, nos Estados Unidos, é realmente igual para todos, independentemente da Igreja a que se é afiliado e do dinheiro que se tenha no banco.

O novo preconceito? Contra a Igreja católica

postura politicamente correta impede a crítica aos judeus e muçulmanos, mas o ataque aos católicos, nos Estados Unidos, acontece geralmente por baixo do pano. A intelligentsia liberal se regozija, freqüentemente, com estas atitudes, apresentando a Igreja, conforme o clima cultural dominante, como reacionária ou muito aberta às questões sociais. Confirmam claramente esta tendência, os pensamentos do estudioso, não-católico, Philip Jenkins, em seu recente livro "O novo anticatolicismo". Uma razão da hostilidade à Igreja católica é a grande atenção dedicada, na sociedade e na mídia americana, aos temas sexuais: o duro posicionamento do Vaticano enfrenta um senso comum enraizado. Foram os preconceitos que agigantaram o escândalo da pedofilia e não este a reacender o anticatolicismo, que nem mesmo a eleição de Kennedy à presidência tinha conseguido aplacar.

A hostilidade aos católicos, salienta Jenkins, acompanhou sempre a história americana. Já em 1776, os ingleses se imputavam uma excessiva tolerância aos papistas e, por outro lado, os protestantes fundaram o seu Novo Mundo sobre um puritanismo anticatólico. É um sentimento transversal, que se encontra tanto nos racistas do Ku Klux Klan, quanto nos progressistas de hoje. As reais posições da Igreja não contam: os americanos a acusam de não compartilhar o próprio sistema, com um individualismo exagerado de um lado e o "comunitarismo religioso" de outro. Atualmente, importa também o fator racial: enquanto na Europa a maioria dos imigrantes é de muçulmanos, nos Estados Unidos chegam católicos, asiáticos e sul-americanos.

Fonte: Avvenire

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