Revista "MUNDO E MISSÃO"
Igreja no Mundo - América
Lição
de
De 25 a 30 de novembro de 2003, aconteceu, na Guatemala, o Congresso Missionário Americano (Cam2-Comla7)
AS IGREJAS CENTRO-AMERICANAS O mérito vai às Igrejas da América Central, que assumiram o ônus complexo do Congresso, sobretudo a da Guatemala, com seus bispos corajosos e abertos. Igrejas pequenas, pobres e martirizadas, como proclamava o tema do Cam2-Comla7 (cf quadro), que souberam transformar estas três características, que poderiam parecer um limite, em trampolim para uma proposta de Igreja e de missão autenticamente evangélicas. E isso foi, a meu ver, o aspecto original deste Congresso que, se foi caracterizado pelo entusiasmo latino-americano dos participantes, que contagiou os representantes do Norte, conseguiu ir mais em profundidade do que outros anteriores, às vezes, marcados por uma fácil retórica da missão. Diante do testemunho do sangue, a única resposta é o silêncio e a vida. Sobre este aspecto falaremos em um próximo artigo.
As mesmas Igrejas centro-americanas se prepararam ao Cam2 com um Ano Santo Missionário, simbolizado pela passagem, através de todos os países, das imagens do Cristo de Esquipulas (um crucifixo muito venerado da Guatemala), de Nossa Senhora de Guadalupe e das relíquias do Santo Irmão Pedro de Betancur (da Guatemala). Foi uma forma de inculturação, no contexto da piedade popular, que marcou profundamente aquelas Igrejas. Eu mesmo pude constatá-lo, passando pela Nicarágua depois do Congresso: várias pessoas me falaram do Ano Missionário e dos frutos de renovação apostólica nas comunidades. De inculturação não se falou muito em palavras, mas foi passada uma mensagem clara, sobretudo através de três momentos de oração caracterizados pelos símbolos, os ritos, os costumes e a língua dos indígenas Quiché. Era evidente a comunhão com a criação, através das cores das flores, da luz das velas, do fumo, da orientação dos participantes para os quatro pontos cardeais: tudo falava em harmonia, beleza, unidade entre natureza e história num contexto de fé profunda. Não era necessário fazer grandes discursos sobre inculturação: era mostrada em atuação. ALÉM-FRONTEIRAS
Foi observado que no Congresso estavam presentes duas teologias missionárias muito diferentes: de um lado, a insistência na implantação da Igreja, a localização geográfica da missão, o impulso de sair para a missão na Ásia. Do outro lado, aparecia uma forte presença de uma outra teologia, com a ênfase no martírio, na inculturação nas liturgias e algumas palestras sobre a missão a partir da criação e sua orientação para a vida (esta pronunciada por uma mulher). É verdade, embora não se devam absolutizar algumas dessas diferenças, como, por exemplo, a dimensão além-fronteiras também em sentido geográfico, que se insere na dimensão universal da missão e que realiza de maneira radical o “sair da própria terra”. Mas se podia perceber claramente para onde ia a preferência do público, através de sinais simples, mas claros: aplausos, procura de certas pessoas para pedir um autógrafo ou uma foto ...
Era evidente a simpatia por uma missão renovada, aberta ao diálogo ecumênico e inter-religioso, inculturada, com a coragem de sair e de dar a vida e que se expressa em testemunhos radicais. Os Comlas – e os Cams depois – nasceram principalmente para alimentar, no continente americano, a consciência missionária além-fronteiras (ou, como outros preferem, ad gentes), para abrir as nossas Igrejas para a dimensão missionária universal. É um processo lento, que – apesar dos documentos muito claros dos papas – raramente encontra respostas claras e concretas nos responsáveis da pastoral, a começar dos bispos e dos sacerdotes, quase sempre dedicados de maneira exclusiva aos problemas locais. Tudo é missão: daquilo que acontece dentro da igreja às pastorais mais voltadas à sociedade. Porém, quase tudo é vivido dentro dos nossos limites mentais e geográficos, segundo os quais “nossa Igreja é toda a Igreja e nosso mundo é todo o mundo”. Afirmava no Congresso o bispo canadense dom François Lapierre: “Nenhuma Igreja pode encontrar a solução a todos seus problemas dentro de si mesma. O magnífico decreto Ad gentes nos diz que a caridade que está disposta a ir até o fim do mundo renova a Igreja. Uma Igreja morre quando se fecha sobre si mesma”. Olhando as conclusões dos grupos temáticos, elaboradas por todos os congressistas delegados dos vários países, aparece evidente a sensibilidade para a missão além-fronteiras, presente praticamente em todas.
Isso é sinal de que os delegados trouxeram a verdadeira consciência missionária de suas Igrejas (embora ainda não generalizada) e recolheram o apelo lançado neste sentido por diversos oradores, em particular o cardeal Crescenzio Sepe, Prefeito da Congregação pela Evangelização dos Povos: “Sem missão ad gentes as Igrejas particulares ficarão sem uma abertura e sem um respiro universal, porque, embora sejam territorialmente limitadas, espiritualmente não o são”. PLANO MISSIONÁRIO Um forte testemunho de abertura missionária universal foi dado pelos bispos centro-americanos, que apresentaram um Plano de missão ad gentes, como tradução concreta de uma preocupação que vai além dos próprios países e dos nacionalismos, para viver a comunhão e a colegialidade episcopal. Dom Álvaro Ramazzini, bispo de San Marcos (Guatemala) e presidente do Secretariado Episcopal Centro-americano (Sedac), na apresentação do Plano ao Congresso, motivou a iniciativa: “Somos agora mais conscientes do nosso compromisso missionário, que nasce do batismo e é mais urgente naqueles que receberam a ordem sacerdotal. Fomos enriquecidos, em mais de 500 anos de evangelização, pelo dom da fé e agora não podemos guardá-lo só para nós”. Dom Álvaro delineou também com clareza as dimensões fundamentais deste compromisso missionário: “Somente uma praxe transformadora que nos leve a trabalhar pelo Reino, só uma mística profética e evangélica que permita enfrentar os desafios da missão hoje e uma reflexão teológica aberta aos sinais dos tempos conseguirão projetar um serviço missionário, segundo o estilo de Jesus e das comunidades cristãs da primeira hora”. O Plano se concretiza em quatro programas: 1. Fundação de um Centro Missionário ad gentes na América Central. É um Centro de animação, formação e coordenação da atividade missionária na região. Vai fornecer preparação missionária aos agentes de pastoral que vão para a missão paroquial, que vão fora do país, que vêm de fora e os que voltam depois de um serviço missionário no exterior. 2. Fortalecer e animar as Comissões missionárias nacionais, que são o organismo da conferência episcopal de cada país, para animar no sentido da missão ad gentes. Estas comissões deveriam estar integradas pelas forças missionárias presentes nos diferentes países (POM, Institutos missionários, pastoral indígena e afro-americana...). 3. Igrejas irmãs. Intercâmbio de ajuda entre Igrejas em nível nacional, regional e continental para realizar a missão universal, colaborando com recursos humanos, financeiros e institucionais. Aqui se insere o aspecto das migrações, na defesa dos direitos dos migrantes do Sul para o Norte, mas também pelo seu aporte de fé nos países onde são acolhidos. 4. Paróquia missionária. Os bispos, os sacerdotes, as equipes pastorais são responsáveis por tornar missionária a paróquia. Alguém poderia comentar: só isso? No Brasil, já temos, há tempos, programas deste tipo! A diferença, a meu ver, está no fato de que os bispos centro-americanos assumiram juntos, oficial e concretamente, o compromisso missionário além-fronteiras. É preciso ver como conseguirão realizar as promessas, mas é sinal de esperança que, Igrejas pequenas, pobres e martirizadas se colocam na dianteira da missão. O Cam2-Comla7 já deu um fruto, que pode estimular outras Igrejas do continente a fazerem o mesmo. Missão a partir da pequenez, da pobreza e do martírio Nosso Congresso realizou-se a partir da pequenez desta região da América, que significa pouco para as nações poderosas do mundo. Porém, a experiência que vivemos na fé como “pequeno rebanho” (Lc 12,32) nos deu uma nova e mais profunda compreensão da parábola do grão de mostarda, que “se desenvolve e se faz uma árvore, e os pássaros do céu se abrigam em seus ramos” (Lc 13,19). É a pequenez que canta alegre a Virgem do Magnificat, exaltando a ação de Deus nos pobres [...]. Vivemos também um Congresso preparado a partir da pobreza, que açoita cruelmente os povos centro-americanos. Porém, exatamente isso nos fez mais sensíveis ao mistério que Deus nos revelou em seu filho Jesus Cristo, “o primeiro e maior evangelizador”, que “sendo rico, se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza” (2 Cor 8,9). Cristo, de fato, realizou sua missão na pobreza, no desprendimento e na perseguição. Como ele – seguindo o convite do documento de Puebla – “devemos dar de nossa pobreza” (n. 368). Nossos povos são pobres em bens materiais, porém têm a riqueza imensa da fé. Podemos, então, dizer que são ricos porque a falta de fé é a maior das pobrezas. A partir da pequenez e da pobreza da América Central, queremos impulsionar a missão, sem ter outros recursos para o anúncio do Evangelho que um coração cheio de fé e esperança, mãos generosas para partilhar e pés apressados para fazer chegar, com urgência, a Palavra do Senhor, verdadeiro dom de Deus para todos os povos. Aqui entendemos melhor que o Senhor atua por meio de seu Espírito, apesar de nossa pequenez, quando não confiamos nas nossas próprias forças, e sim no poder de Deus [...]. Nestes dias de graça, vislumbramos que brilhará uma grande luz para o mundo, se acolhermos a palavra do Senhor que nos envia a evangelizar além de nossas fronteiras. Veremos surgir esta “nova luz”, sobretudo a partir da recente experiência de martírio das Igrejas que nos acolheram com tanta cordialidade e fraternidade. Por isso, dizemos que o Cam2-Comla7 foi celebrado a partir do martírio. Durante todos esses dias, estiveram presentes na nossa mente os numerosos mártires destas terras – leigos na maioria – catequistas e ministros da palavra; também religiosas, religiosos e sacerdotes. Entre as “testemunhas fiéis” até a efusão do sangue que fecundou os sulcos do Evangelho, evocamos de maneira especial dom Oscar Arnulfo Romero e dom Juan Gerardi. Da Mensagem ao Povo de Deus do Cam2-Comla7 |
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