|
CEBs: COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE
Quando um brasileiro chega às paróquias das Filipinas,
logo lhe perguntam a respeito do caminho das pequenas comunidades brasileiras;
no México, quando se elaboram os planos de pastoral, o ponto de
referência são as comunidades eclesiais de base do Brasil.
Entre as forças emergentes da Igreja nestes últimos anos,
há a experiência significativa das Comunidades Eclesiais
de Base. São grupos que amadureceram e ganharam sua legitimidade
como forças vivas da Igreja num momento particularmente difícil
e, ao mesmo tempo, glorioso da Igreja da América Latina. As Comunidades
Eclesiais de Base representam, ainda hoje, um ponto de referência
para muitas Igrejas espalhadas pelo mundo todo e adquiriram um estatuto
legítimo nos documentos da Igreja oficial. Hoje, no entanto, nos
perguntamos sobre a real consistência dessas comunidades e quais
rumos estão trilhando à entrada do terceiro milênio.
O que são as CEBs
1. O nome "CEBs"
Houve um tempo em que não havia muita necessidade de explicar
o significado da sigla "CEBs". Fazia parte do imaginário
e do vocabulário de muitos cristãos católicos. Suscitava
entusiasmos e esperanças, assim como perplexidades e interrogações.
Mas hoje, muitos nem se lembram mais dos difíceis e duros anos
da ditadura militar no Brasil e nem participaram do processo de democratização.
Foi naquela época que pipocaram, em todo o país, pequenas
comunidades ligadas principalmente à Igreja católica. Querendo
ou não, contribuíram de diferentes maneiras para o processo
de democratização. Eram grupos de pessoas que, morando no
mesmo bairro ou nos mesmos povoados, se encontravam para refletir e transformar
a realidade à luz da Palavra de Deus e das motivações
religiosas. Daí o nome de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
Começavam também a reivindicar pequenas melhorias nos bairros,
mas, ao mesmo tempo, iniciavam uma caminhada para tomar consciência
da situação social e política. Queriam a transformação
da sociedade. Inspiradas no método "Paulo Freire" de
alfabetização de adultos, executavam uma metodologia que
levasse da conscientização à ação.
O prof. Faustino Luiz Couto Teixeira, especialista sobre o assunto, escreve
que "nos anos 70 e início dos 80, falava-se muito no impacto
da atuação das CEBs no campo sócio-político,
enquanto geradoras de uma nova consciência das camadas populares
e fator de grande importância no processo de libertação
dos pobres." Em outras palavras, essas pequenas comunidades cristãs,
de 20 a 100 membros, eram consideradas um novo sujeito popular (Petrini,
1984), capaz de reverter a situação de pobreza e apontando
para uma nova sociedade mais justa e fraterna. Depois veio a abertura
democrática e o fim da ditadura, houve a crise no Leste europeu
e a queda do modelo socialista burocrático; houve a afirmação
do capitalismo de corte neoliberal e também mais exclusão
e pobreza. Foi na segunda metade dos anos 80 e nos anos 90, que as CEBs
tiveram que repensar sua identidade.
Mais especificamente no interior da Igreja Católica, as CEBs queriam
rever uma estrutura muito piramidal, de cima para baixo. Incentivadas
pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), vislumbraram uma maior participação
dos leigos e um processo mais participativo de tomada de decisões.
Ao redor da imagem de "povo de Deus", que foi caracterizada
pelo Concílio, as comunidades sentiram-se parte ativa na construção
do Reino de Deus. Houve quem aplaudisse e quem desqualificasse essa atitude
como algo que ameaçasse destruir a estrutura de dois mil anos da
Igreja. Falava-se da prioridade do carisma sobre a instituição
(L. Boff) e usava-se o método das ciências sociais para analisar
a Igreja. Substituir a tradicional filosofia pelas ciências sociais
representava o risco de introduzir a análise marxista dentro da
Igreja. Começou-se, então, a falar do perigo comunista na
Igreja e muitos ficaram alarmados. Até o Departamento de Estado
Norte Americano pronunciou-se, contundentemente, através de dois
documentos chamados "Santa Fé": "a Teologia da Libertação
e suas células (as CEBs) representam uma doutrina política
disfarçada de crença religiosa, com um significado antipapal
e antilivre empresa, destinadas a debilitar a independência da sociedade
frente ao controle estatal" (Santa Fé II).
2. Surgimento das CEBs: um pouco de história
É difícil estabelecer com precisão o momento exato
do surgimento da primeira CEB no Brasil. Pe. Fernando Altemeyer Jr. diz
que "é como o filho de pobre: nasce num dia, mas fica registrado
num outro." Em geral, registra-se a origem no começo dos anos
60, sob influxo da experiência de catequese popular na Barra do
Piraí (1956) ou do Movimento da diocese de Natal, ou ainda do Movimento
de Educação de Base.
O contexto sócio-cultural e eclesial brasileiro contribuiu para
a eclosão das CEBs. Não se pode negar a influência
do esforço da Ação Católica na questão
da cidadania, os esforços de renovação pastoral do
Movimento para um Mundo Melhor e dos Planos de pastoral da CNBB - Plano
de Emergência e Plano de Pastoral de Conjunto - e também
a rearticulação da pastoral popular após o golpe
militar de 1964. Alguns falam da gênese remota das CEBs nas experiências
de iniciativa leiga do catolicismo popular que teve sua marca original
até a segunda metade do século XIX.
Todas essas influências não explicam completamente a gênese
das CEBs no Brasil. Faustino Teixeira diz que é necessário
mencionar também os movimentos mais amplos de renovação
eclesial, iniciados no início do século XX e sancionados
pelo Concílio Vaticano II. Parece que o elemento detonador das
CEBs no Brasil foi exatamente a experiência única e marcante
do Vaticano II. Este Concílio revelou seu potencial pastoral em
sua abertura para o mundo e para a história e, ao mesmo tempo,
sua densidade de reflexão, postulando a imagem da igreja como sendo
o povo de Deus a caminho. As CEBs resgataram esses filões através
da releitura que a Conferência de Medellin (1968) e Puebla (1979)
fizeram na América Latina. Medellin preencheu o imaginário
eclesial com a temática da Libertação e Puebla com
a evangélica opção pelos pobres. Alfredo Bosi fala
que "as Cebs são uma alternativa feliz de enraizar os valores
da fé cristã num momento histórico determinado",
depois que a Ação Católica foi desmontada nos ano
60.
3. Traços característicos das CEBs
Mesmo que se tenha certa dificuldade em encontrar traços homogêneos
e constantes em todas as CEBs, há alguns elementos que, em geral,
podem ser detectados.
Um elemento é a territorialidade, isto é, as pessoas de
uma comunidade estão situadas num território geográfico
específico. É muito fácil que se conheçam
e que estabeleçam relações e contatos. "Base"
significa propriamente essa concentração de pessoas num
povoado ou num bairro. As experiências históricas mostram
que, muitas vezes, foram essas comunidades que ajudaram a reivindicar
serviços básicos, como água, luz e esgoto, e a reorganizar
a vida do bairro.
A leitura e a reflexão sobre a Palavra de Deus é outro traço
característico das CEBs. Muitas comunidades começaram como
reuniões bíblicas que iluminavam a vida das pessoas. À
medida em que a vida comunitária se organizava foi introduzido
também o culto dominical ou a celebração da Eucaristia.
A participação e a discussão dos problemas em forma
de assembléia caracterizou muitas Comunidades de Base. A metodologia
participativa inclui a colaboração de todos na discussão,
na solução e no encaminhamento concreto do problema. Se,
por exemplo, o tema é o desemprego, há no final um compromisso
concreto que é assumido por todos: preparam-se cestas com alimentos
básicos que são distribuídas aos desempregados. Esse
espírito desencadeou a emergência de ministérios leigos
que foram se multiplicando a partir das exigências da comunidade:
há ministros da Palavra, ministros da Eucaristia, ministros da
pastoral da moradia, do trabalho, do menor. Muitos serviços englobam
mulheres e homens em clubes e pequenas organizações: hortas
comunitárias, clubes de mães, alfabetização
de adultos e, muitas vezes, grupos de sustentação dos movimentos
populares. Esses serviços destacam o compromisso das CEBs com os
mais pobres e a relação conseqüente entre fé
professada e vida concreta. É propriamente o compromisso com as
camadas mais desfavorecidas da população que tornaram as
CEBs profundamente ativas no campo social. O pobre não é
visto como problema, mas como solução no processo de construir
uma nova sociedade.
Por fim, o horizonte para o qual as CEBs se deslocam é a prática
concreta de Jesus e o sonho de rea-lizar o Reino de Deus. Termos co-mo
justiça, fraternidade, solidariedade, compromisso e caminhada revelam,
de um lado, o seguimento de Jesus e, de outro, a vontade de implantar
concretamente o Reino de Deus.
Desafios atuais das CEBs
É conversando com pe. Fernando Altemeyer Jr., assessor da Ampliada
Nacional do 10º Intereclesial (ver quadro) junto com pe. José
Oscar Beozzo, que aprendemos quais são os atuais desafios das Comunidades
Eclesiais de Base no Brasil. Pe. Fernando é atualmente professor
na PUC de São Paulo e membro da coordenação da pastoral
da comunicação da Arquidiocese de São Paulo.
"Nos anos 90 - conta Pe. Fernando - as CEBs entraram numa vida submersa.
Durante a época da ditadura, quando tudo estava submerso, as CEBs
brilhavam; agora que não há mais ditadura, as CEBs imergiram
no fundo". Essa vida submersa e clandestina é revelada pela
pouca visibilidade institucional e pela pouca relevância que as
comunidades têm nos meios de comunicação e no campo
eclesial. Mesmo não ocupando muito espaço na preocupação
dos bispos e na metodologia pastoral, "as CEBs - diz pe. Fernando
- continuam tendo um forte vínculo com as lutas populares, com
as ONGs (Organizações não governamentais), com os
grupos de mulheres e lá onde a vida está mais esmagada (AIDs..)".
Ainda, segundo pe. Fernando, as CEBs estão dando mais espaços
à questão étnica. Negros e indígenas são
de casa nas CEBs. É aqui que os grupos fazem descobertas das próprias
raízes e levantam a cabeça. O momento é muito mais
sapiencial que profético.
Trata-se de um dinamismo subterrâneo em que a seiva continua correndo
e produzindo vida, a qual porém não é visível
se não na vida da planta que cresce vigorosa. Isto acontece "mesmo
que os novos padres não apoiem e atuem mais como funcionários
da instituição."
CEBs e política nos anos 90
E pe. Fernando Altemeyer Jr. continua a reflexão:
"Há um certo desencanto das comunidades com a questão
política. Antes de tudo, o modelo econômico neoliberal e
a falta de um projeto alternativo das esquerdas fazem com que as Cebs
fiquem recuadas e decepcionadas. A grande atenção das comunidades
se desloca mais para o local. Lá onde é possível
a participação popular, os orçamentos comunitários,
a pressão e a atuação direta nas prefeituras e nos
Estados, as CEBs se movem com mais força e entusiasmo. Na grande
política há muita decepção. Até os
grandes partidos, historicamente ligados à mudança social,
estão sem perspectivas e projetos. Imagine as bases."
CEBs e estrutura da Igreja
"Está muito difícil! Na Igreja Católica, infelizmente,
os leigos são ainda pouco considerados. A estrutura da Igreja é
ainda muito piramidal. Como pe. Libânio diz, devemos resgatar a
experiência do primeiro milênio que pode servir para o terceiro.
Sim, porque a Igreja do segundo milênio foi uma Igreja feudal e
piramidal. O leigo não pode ser sempre o funcionário do
padre. Pense, por exemplo, na questão missionária: numa
igreja toda ministerial, toda a Igreja seria missionária. Mas,
até hoje ainda a missionariedade específica está
ainda muito concentrada nas congregações religiosas."
CEBs e outras forças da Igreja
"As Cebs aprenderam às duras penas que elas não eram
o único modelo eclesial. Num tempo, elas tinham uma certa vaidade
como qualquer movimento novo. As CEBs são uma estrutura de base
da Igreja, mas não a única maneira de a Igreja se expressar.
Hoje, elas estão mais maduras e dialogam com outros movimentos
dentro da Igreja, incluídos os carismáticos. Antes havia
um certo leninismo, para usar uma expressão forte, um leninismo
eclesiástico. Às vezes, brinco com grupos de CEBs e digo,
deixando-os nervosos, 'sem carismáticos a Igreja não pode
viver, porque sem carisma a Igreja perde o Espírito.' Mas também
sem CEBs, a Igreja perde seu valor. É interessante ver que as CEBs
nunca tiveram problemas com experiências e movimentos leigos como
a Legião de Maria, o Apostolado de Oração e com os
Vicentinos. Como as CEBs, esses movimentos souberam integrar o catolicismo
popular. Agora, com os carismáticos, a diferença está
na metodologia da prática social. Mas, também com eles estamos
dialogando."
CEBs e ecumenismo
"Eu acho que este é um campo minado e pouco trabalhado pelos
agentes das CEBs e por lideranças, quer leigos quer religiosos
e padres. Todos são muito mal preparados para o diálogo
ecumênico. É claro que ecumenismo é, antes de tudo,
uma graça do Espírito Santo. É preciso rezar muito,
ouvir muito, tentar compreender, mas precisa também competência,
saber que luterano não é metodista; saber que um pastor
pentecostal de uma Igreja de missão não é a mesma
coisa que um pastor de uma Igreja pentecostal neodenominacional. Não
é somente questão de semântica, é necessário
saber que existem identidades protestantes diversificadas. Precisamos
de mais cursos, mas também de mais encontros ecumênicos.
Pense que os protestantes que chegaram ao Sul do Brasil eram considerados
traidores de Cristo: isso ainda está enraizado na mentalidade católica.
A Igreja tem muito mais jeito para se aproximar dos judeus do que tratar
com quem crê em Cristo. No Brasil, faltaria também uma outra
coisa que é o diálogo inter-religioso com os não-cristãos."
CEBs e América Latina
"Houve mais consciência de uma abertura latino-americana,
até a década de 90. Hoje, por vários motivos, entre
os quais, paradoxalmente, o modelo neoliberal com sua vertente de globalização
idealista, de um lado, fala-se de universalismos e, de outro, aprofundam-se,
com radicalidade, os localismos. Cada um se sente mais fechado no seu
mundinho. Nós somos menos latino-americanos do que fomos anteriormente.
Considere, por exemplo, o problema com a Argentina que vê o Brasil
como inimigo, cada vez que sobe um pouco o valor do dólar. Isso
cria tensões. Nós precisamos restaurar a aliança
latino-americana num novo modelo. Quem sabe, menos política e mais
alternativas econômicas e culturais."
CEBs e massa
"CEBs e massa popular é um tema bastante difícil na
vida das comunidades. Eu chego à conclusão de que Jesus
nunca se negou a trabalhar com um pequeno grupo de doze pessoas como referência,
até pedagógica. Ele cuidou desse grupo. Era o seu grupo.
Ao mesmo tempo, porém, nunca se omitiu de atender a massa que o
rodeava. Aqui está a questão. Devem ser reforçados
os pequenos grupos como sendo o fermento e não se omitir de comunicar
e atender os anseios das massas, mesmo com os meios de comunicação.
CEBs e dimensão universal da missão
"Há algumas experiências significativas das CEBs que
precisam ser contadas. José Marins (e sua equipe) é um daqueles
que contribuiu para globalizar as CEBs. Ele leva e traz. Age localmente
e pensa globalmente. Ele contribui para criar uma catolicidade das CEBs.
Outro fato de abertura das CEBs é representado pelos encontros
regionais, como aquele que aconteceu entre Argentina, Paraguai, Brasil
e Uruguai. Há também missionários das CEBs em outros
lugares do mundo, como Luís Fernando, um brasileiro e negro, em
Moçambique. Tudo isso vai criando pontes e contatos."
Sugestão para os Institutos missionários
"Eu peço aos Institutos Missionários que mantenham
aberta a perspectiva do leigo missionário. Acho que vocês,
revistas missionárias, têm que falar isso milhões
de vezes até o pessoal acreditar. Isso também significa
mudar as estruturas dos Institutos missionários e torná-los
mais ágeis em relação à presença dos
leigos. Outra sugestão é que vocês mantenham as revistas
missionárias. Eu confesso que minha vocação tem muito
a ver com as leituras missionárias que fiz e que faço. Sinto-me
reforçado em saber que há missionários na Papua Nova
Guiné que são promotores de vida em lugares difíceis.
Publiquem testemunhos e exemplos de missionários. O exemplo vale
muito mais do que mil palavras."
Históricos dos Intereclesiais
O Intereclesial é um encontro que reúne os representantes
das CEBs. Vindos de todas as partes do Brasil, os representantes das Cebs
encontram-se periodicamente para celebrar e avaliar sua caminhada. Esse
fato representa uma oportunidade de envolver as dioceses do País
(no último encontro, de 250 dioceses do Brasil, 240 estavam presentes)
e representantes de outras igrejas. Além disso, os Intereclesiais
cumprem a finalidade de ser memória viva da caminhada da Igreja.
Até agora, foram feitos nove encontros intereclesiais. No ano 2000,
acontecerá o 10º encontro em Ilhéus, Bahia, de 11 a
15 de julho.
O 1º Encontro Intereclesial de CEBs foi realizado em Vitória
(ES), em janeiro de 1975, ano em que o país mergulhou no terror
por causa da repressão do regime militar. Teve como tema: "CEBs:
Uma Igreja que Nasce do Povo pelo Espírito de Deus" e contou
com a participação de 70 pessoas, além de bispos
e assessores.
O 2º Encontro também foi realizado em Vitória, em agosto
de 1976, registrando a presença de 3 bispos latino-americanos e
a participação de 100 pessoas. Tendo como tema: "CEBs:
Igreja, Povo que Caminha", o encontro se voltou para o engajamento
das Comunidades Eclesiais de Base nas lutas sociais.
Em julho de 1979, ano da anistia, João Pessoa, na Paraíba,
sediou o 3º Encontro Intereclesial das CEBs. Contou com 200 participantes,
entre índios, evangélicos e latinos e discutiu o tema: "CEBs:
Igreja, Povo que se Liberta."
A proximidade do fim da ditadura militar marcou o 4º Encontro. Realizado
em abril de 1981, em Itaici (SP), teve como tema: "Igreja, Povo Oprimido
que se Organiza para a Libertação" e contou com a participação
de 280 pessoas.
Em 1983, o 5º Encontro aconteceu na cidade de Canindé (CE),
famoso centro de romaria nordestino. Para lá confluíram
mais de 500 participantes. O tema do encontro foi: "CEBs, Povo Unido,
Semente de uma Nova Sociedade."
O 6º Intereclesial foi realizado após a ditadura militar (1986),
em Trindade (GO) - dois anos depois da campanha das "Diretas já"
e um ano após a eleição de Tancredo Neves, que marcou
o início da Nova República. Com a participação
de 1647 pessoas, apresentou o tema: "CEBs: Povo de Deus em Busca
da Terra Prometida.".
No 7º Encontro, realizado em julho de 1989 na cidade de Duque de
Caxias (RJ), uma das regiões mais pobres do país, estiveram
presentes 2.550 pessoas, entre representantes de 19 países latino-americanos
e 12 Igrejas evangélicas. O tema foi: "CEBs, Povo de Deus
na América Latina a Caminho da Libertação".
Refletiu o importante momento que a sociedade brasileira vivia: eleições
diretas para presidente da República, depois de 20 anos de silêncio.
O 8º Encontro aconteceu em Santa Maria (RS), em setembro de 1992,
ano do 5º centenário da conquista da América, e às
vésperas do impeachement de Collor. Registrou a participação
de 2.238 delegados, 88 representantes latino-americanos e 106 evangélicos.
Teve como tema: "CEBs: Culturas Oprimidas e a Evangelização
na América Latina."
Realizado em São Luiz (MA), o 9º Intereclesial aconteceu em
julho de 1997, contou com a participação de 2.700 pessoas
que refletiram sobre tema: "CEBs: Vida e Esperança nas Massas".
Ao final do encontro, os delegados escolheram a Diocese de Ilhéus,
na Bahia, para sediar o 10º Encontro Intereclesial.
O 10º Intereclesial
O 10º Intereclesial será realizado em Ilhéus (Bahia)
nos dias 11 a 15 de julho do ano 2000. O tema será: "CEBs,
Povo de Deus, 2000 anos de caminhada." Ressaltará a origem
das CEBs junto com o surgimento do cristianismo. Dessa forma, estão
envolvidos nas reflexões o jubileu do nascimento de Cristo, os
500 anos do Brasil e os 25 anos dos Intereclesiais, numa perspectiva de
avaliação e celebração da caminhada.
A Oração
Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, a melhor
Comunidade, Deus da vida e do amor!
Celebrando os 2000 anos da caminhada e os 25 anos dos Intereclesiais,
caminheiros - caminheiras de todo o Brasil, da Nossa América, do
Mundo, caminhamos, peregrinos, para Ilhéus.
Com o São Jorge das lutas do Povo, com o São Jorge da lua
dos sonhos; com o mártir são Sebastião e todas as
testemunhas de ontem e de hoje.
Caminhamos para a Bahia de todos os santos e santas pátria dos
romeiros, artistas e lutadores, Nordeste aberto ao mar, baía de
muitas águas e de todas as culturas, santuário da negritude
e da indianidade.
O berrante do Jubileu e os atabaques dos 500 anos nos convocam a refazer
a História e a Evangelização renovando a Sociedade
e a Igreja na vivência de uma verdadeira Eucaristia de partilha
de fé, da terra e do pão, rumo ao Porto Seguro do Reino.
Dá-nos um coração ecumênico e ecológico,
fidelidade à oração e à solidariedade, coragem
e ternura na militância.
Fortalece nossa esperança e nosso compromisso na opção
pelos pobres, nas lutas pela justiça, na construção
da cidadania, na causa do Evangelho.
Pelo Senhor do Bonfim, Caminho do bom andar, e por Santa Maria da caminhada.
Amém, Axé, Aleluia!
Pedro Casaldáliga
MUDANÇAS NAS PRÁTICAS DAS CEBs:
A partir da fala dos participantes
DÉCADA DE 80
Antônio, da Favela Esperança - zona Sul de São Paulo,
em 1986, associa claramente a vida da CEB com as celebrações,
as lutas populares, a alfabetização de adultos e a reforma
agrária.
"Eu vejo isto, se não fosse a comunidade Esperança
que sempre está junto com a gente, transmitindo este incentivo,
eu acho que toda nossa favela teria acabado. Até a esperança
teria acabado. Se precisarmos fazer uma melhoria no barraco, recorremos
à comunidade. E a Igreja tem dado sempre apoio para nós.
A comunidade tem sido a mão direita da favela. Eu faço questão
de participar das celebrações porque acho que, através
da leitura do Evangelho, a gente consegue ter forças e se enriquecer.
Se não houvesse celebração talvez a gente se perderia
e a luta dos moradores ficaria prejudicada. Pensa que eu nem sabia ler
e escrever. Não é que eu agora sei muito, mas em vista do
que sabia, hoje tenho uma visão mais clara. Começamos a
nos reunir para apreender a ler e a escrever. Estou falando dos Círculos
de Cultura do Paulo Freire. Está sendo muito bom. Assim nós
temos aulas para adultos, celebrações, reuniões de
reivindicação e lutas para a melhoria da favela. Com certeza
vamos conseguir a vitória. Com relação à reforma
agrária, eu penso que cada um tem direito a seu pedaço de
terra, seja no campo ou numa favela, porque Deus, quando fez o mundo,
deixou a terra para todo mundo usar. E hoje o que vemos? Um cara, se tiver
um pedacinho de terra, deve pagar imposto, tem que pagar isso e aquilo.
Os tubarões estão tirando terra da gente. Fico sabendo que
há muitas mortes por causa da terra. A Reforma Agrária é
uma coisa séria e devemos nos envolver mais.
DÉCADA DE 90
Carmen, Zinha e pe. Fernando da Cruz (Vila Joaniza -SP), caracterizam
as CEBs nos anos 90 como voltadas para si mesmas, tendo perdido muito
do espírito de mudança.
"Nossas comunidades, que um tempo tinham nascido como Comunidades
Eclesiais de Base, estão ultimamente muito apáticas no compromisso
social e muito centradas na celebração. Parece que o povo
das comunidades não reage mais como antigamente. E pensar que hoje
há muito mais pobreza e sofrimento. Até parece que há
uma alergia a todo e qualquer compromisso de transformação
da sociedade. A verdade é que as lideranças antigas não
se preocuparam com o surgimento das novas lideranças e, também,
que muitos ficaram desencantados diante dos poucos resultados. O horizonte
se encurtou. Há cansaço, mas mais do que isso: indiferença.
E a pobreza vai aumentando. O problema é que o espaço da
Igreja virou um espaço fechado, voltado para dentro. Grandes celebrações
em que as emoções são levadas ao extremo e... nada
mais. Certo não dá para repetir aquilo que foi nos anos
70, mas é necessário encontrar novos caminhos. É
sofrimento demais no meio do nosso povo. Há algum compromisso social
presente, como uma tentativa de reconstruir a alfabetização
de adultos ou um trabalho com crianças. Mas é somente uma
minoria que toma a iniciativa e o resto não quer saber de nada.
A verdade é que neste final de milênio a Igreja está
sempre mais se fechando sobre si mesma. Quer juntar gente para quê?
Se não é em vista da construção do Reino,
de olhar aberto sobre a realidade, não leva a lugar nenhum".
|