Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Brasil
|
por Costanzo Donegana A Conferência dos Religiosos do Brasil celebra seu jubileu de ouro Na Igreja do Brasil, duas entidades brilharam nos últimos 50 anos como sinais proféticos a serviço do Evangelho e do povo de Deus; e celebram seu jubileu de ouro, uma atrás da outra: a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), em 2002, e a CRB (Conferência dos Religiosos do Brasil), em 2004. Ambas foram fundadas em um período em que, na Igreja, se sentia a necessidade de renovação e de maior articulação, sob o impulso do Ano Santo de 1950 e dos diversos movimentos de renovação da vida eclesial, como a Ação Católica, o Movimento de Renovação Bíblica, o Movimento Litúrgico e Catequético e o Movimento por um Mundo Melhor. Em particular, a fundação da CNBB, em 1952, evidenciou a importância fundamental da colegialidade entre os bispos, que repercutiu também entre os religiosos, com a criação da CRB (1954), como espaço para a comunhão e cooperação das congregações e institutos presentes no Brasil. Fundação Embora com identidades e finalidades próprias, o relacionamento entre as duas Conferências foi marcado, desde o início, por intensa colaboração e respeito mútuo. Na Assembléia de fundação da CRB estavam presentes o cardeal dom Jaime de Barros Câmara, arcebispo do Rio de Janeiro, e dom Helder Câmara, secretário da CNBB. Da colaboração entre CRB e CNBB, já nos primeiros tempos, surgiram o Instituto Nacional de Catequese, o Centro de Estatística Religiosa e Investigação Social (Ceris) e o Serviço de Cooperação Apostólica Internacional (Scai). O Concílio Vaticano II, e os anos imediatamente sucessivos, marcaram uma virada no caminho histórico da Igreja, por uma renovada autoconsciência da sua identidade e de seu relacionamento com o mundo. Na América Latina, as Assembléias do Episcopado de Medellín (1968) e Puebla (1979) atualizaram para nosso continente as intuições do Concílio. Na dimensão da reflexão, nasceu a teologia da libertação, que aponta para a potencialidade transformadora da fé, a serviço da libertação integral da pessoa humana e da sociedade.
Ponto focal dessa reflexão e da prática dela decorrente, é o pobre, evangelicamente visto como centro do amor de Deus e, conseqüentemente, como objeto de uma opção preferencial por parte da Igreja. As Cebs se tornaram o lugar para experimentar um "novo modo de ser Igreja", onde os pobres podiam desenvolver seu potencial evangelizador e criar modelos de uma sociedade alternativa. Tudo isso acontecia dentro de um contexto sóciopolítico altamente conflituoso, no meio de contrastes gritantes entre as classes sociais, em situações de ditadura, de repressão e de movimentos de guerrilha. Os religiosos do Brasil foram protagonistas da renovação pós-conciliar, seja na reflexão teológica como na praxe pastoral: o exemplo mais significativo foi a experiência da inserção, que levou muitos religiosos e, sobretudo, religiosas a mergulharem também fisicamente no mundo dos pobres, vivendo no meio deles, experimentando na própria pele suas dores, participando de seus sonhos e de suas lutas. Essa solidariedade pagou um preço de sangue com o martírio de muitos religiosos e religiosas, que testemunharam seu amor até às últimas conseqüências. Houve, porém, o outro lado da medalha. O empenho em abraçar a causa dos pobres se transformou, para vários religiosos, em compromisso político colocado acima de tudo e colorido por uma forte conotação ideológica. Eles davam mais importância à luta pela mudança das estruturas (sempre necessária) do que à conversão pessoal, com o perigo de esvaziar a própria vida da dimensão espiritual e da contemplação. Identificavam o profetismo da vida religiosa e do Evangelho com a denúncia das injustiças e a luta pela libertação política e social. Uma conseqüência dolorosa de tudo isso foi o abandono da vida religiosa por parte de muitos. Essa leitura é necessariamente sintética, pelo pouco espaço à disposição, e precisaria de várias nuanças para corresponder plenamente à realidade. Além disso, seria injusto atribuir à própria CRB a responsabilidade por esses aspectos críticos, como alguns tentaram fazer naquela época. A CRB sempre procurou, de um lado, ser fiel à dimensão carismática e profética da vida religiosa e, do outro, responder com coragem e sabedoria aos desafios da sociedade. Houve momentos de dificuldade e tensões entre as tendências que mais se referiam à tradição e as que exigiam abertura e novidade, fato que acontecia também na Igreja em geral. Basta pensar nas vicissitudes do projeto "Tua Palavra é Vida", sobre a leitura orante da Bíblia, proposto a toda a América Latina, mas que pôde ser realizado só no Brasil, graças à unidade entre CRB e CNBB. O acompanhamento contínuo da Congregação para os religiosos, com a visita de alguns de seus prefeitos, confirma a confiança depositada na Conferência brasileira dos religiosos, durante seus cinqüenta anos de história. Refundação Nos últimos anos, a CRB, em consonância com a Clar (Conferência Latino-Americana dos Religiosos), deu um passo de fundamental importância, sintetizado na significativa palavra "Refundação". A Clar convocou um Concílio da Vida Religiosa da América Latina e do Caribe, com o lema "Pelo caminho de Emaús", com a finalidade de responder às interpelações do mundo e dos povos latino-americanos, por meio de uma renovação profunda da inspiração inicial dos fundadores e das fundadoras.
A CRB entrou nesse processo e, na XVIII Assembléia Geral Ordinária (1998), declarou: "...a CRB se propõe a animar um processo de refundação da Vida Religiosa, enraizado na mística evangélica que brota da ternura e compaixão de Deus Pai e Mãe, vivido em missão inculturada sob o dinamismo do Espírito, e em presença solidária entre os pobres, no seguimento e a Jesus Cristo, para a transformação social em vista do Reino". É um voltar às raízes e, ao mesmo tempo, um trazer para o dia de hoje os carismas dos fundadores e das fundadoras, fazendo brotar deles novas capacidades de consagração e de resposta aos desafios do nosso continente. Não podemos esquecer um aspecto que sempre caracterizou a vida da CRB, mas que conheceu um desenvolvimento significativo no último decênio: a missão além-fronteiras. Uma pesquisa, realizada pelo Conselho Missionário Nacional (Comina) e publicada em 2002, revela que, dos 1556 missionários brasileiros no exterior, 98,5% são religiosos, na grande maioria religiosas. Este aspecto, que faz parte da dimensão profética da vida religiosa, foi incentivado explicitamente pela CRB, que sempre participa, por meio de seus representantes, das reuniões e dos eventos missionários no Brasil e na América Latina, estimulando a abertura dos institutos e das congregações para a universalidade da missão. Nesta época de globalização, isso revela a capacidade da CRB de ler os sinais dos tempos e de responder de maneira evangélica: é um exemplo para toda a Igreja no nosso País. |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]