Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - África

 

por Francesco Pierli e Emilio Prevedello

Desde 1994, ano do Sínodo Africano, existe em Nairobi - Quênia
uma escola de formação ao ministério social. Trata-se de algo
realmente inovador e os autores, missionários combonianos na
África, no livro Religious Life and Social Ministry explicam o porquê

o livro "Esperança para África", editado em 1994, em Nairobi, George Kinoti se perguntava porque no continente o grande crescimento das comunidades cristãs nos últimos 100 anos (de 500 mil a 100 milhões) não coincidiu com um igual desenvolvimento social, econômico e político. A África era, e ainda é, o mais pobre ou empobrecido e devastado dos continentes. Em nenhum outro, o nível da pobreza é tão alto, a vida humana tão curta, a Aids tão devastadora... Por quê? Todos os missionários e missionárias se perguntam com angústia e frustração.

O prof. Kinoti vê a Igreja como um barco que deveria ser impulsionado por dois remos: o religioso e o social. Na África, porém, o remo social, comparado ao religioso, está atrofiado. O barco então se inclinou demais para o religioso. A atual explosão das seitas religiosas torna a situação ainda pior. Estas, de fato, acentuam a dimensão religiosa e milagreira em prejuízo de um sério compromisso social com a melhora das situações humanas... Um novo equilíbrio e colaboração entre os dois remos se torna necessário e urgente. O continente precisa e a fé ganharia em credibilidade.

O documento "Ecclesia in Africa", de João Paulo II, que recolheu os temas do Sínodo Africano de 1994, afirma que a fé cristã na África, para ser crível, deve mostrar um poder mais forte de libertar o continente dos seus males sociais crônicos. Se a fé quer ser - continua o documento - envolvida no momento histórico do continente, deve contribuir para transformar a sociedade a fim de imbuí-la com os valores do reino de Deus, como a justiça, a democracia, os direitos fundamentais, a atenção às mulheres, a colaboração entre os diferentes grupos étnicos, a solidariedade com os mais pobres e a preocupação com os mais fracos.

RETORNO AO JUBILEU

A pergunta é: por que tantos chefes de governo, que se declaram cristãos, lêem a Bíblia, freqüentam a Igreja, não percebem a contradição entre a fé que professam e o estilo ditatorial de governo que vai da corrupção ao homicídio de adversários políticos? Por que tantos deputados se declaram católicos ou cristãos e não vêem a incoerência entre sua fé e a distribuição das armas às respectivas tribos, para organizar depredações, vandalismos e incitar aos confrontos étnicos?

Por que, na celebração do sacramento da confissão, o exame de consciência pára no "não rezei, não fui à missa... ou algumas coisinhas sobre sexo", enquanto o mundo da justiça, o mau uso do dinheiro, os deveres cívicos do respeito e da promoção da vida nem são tocados? A dimensão da fé está ausente na política, embora não podemos esquecer pessoas como Julius Nyerere, Benedicto Kawanuka, Alberty Luthuli e tantos mártires que deram a vida pela justiça. Um cristianismo sem a dimensão social é pagão. O mundo "pagão" na África e noutros lugares se distingue por esta característica: a religião é um rito celebrado num lugar sagrado, na igreja, debaixo de uma grande árvore, de uma grande rocha - conforme as religiões. Deus e os espíritos ficam satisfeitos, quando o rito é celebrado de maneira impecável, a vítima é perfeita e cara, a celebração longa e folclórica. As próprias celebrações oceânicas, quando da visita do papa, tinham um sabor ambíguo: ficam na esfera do rito, mas não transformam a sociedade.

Profetas como Amós combateram com determinação e clarividência a separação entre o religioso e o social. Cristo mesmo disse: "Quero misericórdia e não sacrifício". O sacrifício é o sacro, o rito; a misericórdia é a manifestação do Amor de Deus na atenção às pessoas e seus direitos.

Todo o segundo milênio foi marcado por uma fé fortemente religiosa e desatenta à complexidade do social. Somente nos últimos cem anos, assistimos a uma gradual descoberta da relevância social da fé que, para alguns, é chamada também o "Evangelho social". O terceiro milênio começou com bons auspícios, com um ano jubilar. Invenção de Deus: quando o povo hebraico entra na Palestina, a fé num Deus libertador se expressa na partilha das terras entre todas as tribos, excetuando a tribo de Levi que devia viver com as entradas do templo. Nada está mais longe do plano de Deus que os imensos latifúndios de alguns e a falta absoluta de terra de outros. As liberdades pessoais e familiares, conquistadas com o êxodo, deviam ser a característica única do Povo de Deus num Oriente Médio cheio de escravos. A dívida, tão fácil de ser contraída, tinha que ser paga ou com a terra ou com a venda da liberdade.

A religião da Aliança começou convivendo com três gravíssimos pecados sociais: o latifúndio, a escravidão e as dívidas. O jubileu foi inventado por Deus para recompor, a cada cinqüenta anos, a dimensão social da Aliança e, portanto, da fé. Iniciava com o som do chifre para saudar a presença de Deus no meio do povo, para limpar os pecados sociais, libertar e restituir a fé hebraica a sua originalidade, purificando-a das escórias do paganismo.

MINISTÉRIO SOCIAL DA FÉ

A dimensão social da fé ficará inativa e não dará frutos até que na Igreja não houver um pessoal preparado para propô-la e torná-la concreta. Os sacerdotes devem ser preparados para o ministério religioso, a pregação da Palavra de Deus, a celebração dos sacramentos, a coordenação das comunidades cristãs. Este é e deve ser o seu âmbito, como afirma o capítulo 6 dos Atos dos Apóstolos. Mas isso não é suficiente. É igualmente urgente a preparação de agentes pastorais para o ministério social.

Esses ministros da pastoral social devem atuar na transformação cristã da sociedade; ajudar cristãos e não-cristãos a fim de que sejam autênticos cidadãos; arrancar a pobreza endêmica, através da criação de lugares de trabalho; afirmar os direitos humanos seja em nível prático como jurídico. Esta é, em especial, a vocação dos leigos. Lembremos que muitos sacerdotes e irmãs pertencentes aos institutos encontraram a sua vocação missionária, originariamente, no apostolado social.

UM CRISTIANISMO SEM DIMENSÃO SOCIAL É PAGÃO

Para preparar agentes de pastoral desse tipo, no Quênia, foi fundado em 1994, em Nairobi. o Instituto Social Ministry, ligado ao Tangaza College e sob a égide da Universidade Católica da África Oriental.

Consta de um programa de três anos, reconhecido seja pela Igreja como pelo Estado. Tem 45 cursos divididos em seis áreas: análise social, doutrina social da Igreja, gestão dos recursos humanos, organização e acompanhamento de projetos de desenvolvimento, espiritualidade, metodologia para ministério social.

Tudo isso para que a "a barca de Cristo" possa avançar com os dois remos para o resgate do continente africano.

Tradução da Revista Nigrizia

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