Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - África

África,
perdão

por Fabrizio Mastrofini

"Mea culpa" dos bispos africanos
pelos males do passado e do
presente no continente

tráfico de negros é um drama que pesa sobre nossos povos e continua pesando sobre nosso futuro e nosso passado." Palavras fortes, pronunciadas no dia 5 de outubro pelo arcebispo de Dakar, Senegal, dom Adriano Sarr, durante a assembléia plenária do episcopado africano, com a presença de 150 prelados, entre cardeais e bispos.

Na mesma ocasião, três bispos, em nome de todo o episcopado do continente (Secam), leram um documento extremamente claro: "Temos culpas graves e nos ajoelhamos para pedir perdão à África e aos africanos. Esses pecados exigem hoje, depois que forem perdoados, que a Igreja católica, da qual somos responsáveis na África, ponha 'dez vezes mais ardor' em corrigir a má mentalidade que derivou dessa história e a permitiu".

Os bispos africanos estavam reunidos em um lugar-símbolo para o tráfico de escravos: a ilha de Gorée, no Senegal, que foi a "porta sem volta", o ponto de embarque de onde milhões de negros partiram acorrentados para a América. Lugar de sofrimento, visitado por João Paulo II em fevereiro de 1992. Mas os bispos não se limitaram a condenar o passado. Com igual força apontaram o dedo contra as novas escravidões, os pecados sociais e culturais que ainda hoje pesam sobre o coração do continente. "O pecado contra o homem não é só do passado - salientaram. É atual. Continuamos a perpetrá-lo sob outras formas: na venda de nossos irmãos e irmãs, na corrente do ódio e da vontade de vingança, aceitando uma mentalidade de impotência, no complexo de inferioridade do homem negro."

Conseqüentemente, os dirigentes políticos africanos foram convidados a "condenar as novas formas de tráfico e de escravidão que são a deportação para se prostituir, o turismo sexual, o comércio das crianças, o recrutamento forçado das crianças e dos adolescentes nas guerras fratricidas, a exploração das riquezas do subsolo africano em vantagem de poucos". E os bispos continuaram: "Eis por que, de nossa parte, condenamos e convidamos a condenar todas as formas de exclusão étnica, tribal e regional, que solapam perigosamente nossas sociedades".

Estava presente à reunião também um grupo de bispos norte-americanos, que se uniram aos colegas africanos "no pedido de perdão e de reconciliação", reconhecendo "o papel desempenhado pelos Estados Unidos em promover a escravidão". Diversas organizações não governamentais (Ongs) enviaram à assembléia do Secam um pedido para um empenho maior na abolição da dívida externa. As Ongs divulgaram dados que provam que, no mundo, 2,8 bilhões de pessoas vivem com menos de dois dólares por dia e, só na África, 340 milhões de pessoas vivem com 64 centavos de dólar por dia, sendo ainda que 141, em 1000 crianças africanas, morrem antes dos 5 anos, enquanto 5 milhões delas são vítimas de doenças respiratórias, malária, diarréia, tétano.

Dom Robert Sarah, secretário da Congregação pela Evangelização dos Povos, defendeu durante a assembléia a necessidade da criação de uma comissão pela evangelização ou pela missão e propôs que, também no continente africano, possam se realizar congressos missionários como há tempo estão acontecendo na América.

PROCURAM-SE LÍDERES PARA A INDEPENDÊNCIA

por Maurizio Blondet

Joseph Ki-Zerbo, 82, historiador de Burkina Fasso, é um dos intelectuais mais conceituados da África. Nesta entrevista, ele dá esclarecedoras pistas de
leitura sobre o continente negro

O programa de Comboni - "Salvar a África com os africanos" - vale ainda hoje para o continente?

- Infelizmente, muitos dirigentes africanos não acreditam nisso. Estão convencidos de que não se pode tirar muito da cultura tradicional. Como se fôssemos uma tábula rasa, aceitamos modelos ocidentais. Procuramos ser "clones" de sociedades e economias do Norte do mundo. Assim, aplicamos docilmente os programas de ajuste estrutural ditados pelo Banco Mundial: cortar as despesas públicas, da sanidade até a escola, privatizar, incentivar produtos agrícolas de exportação (cacau, algodão, café) em lugar dos de subsistência local.

Para conseguir dólares, com os quais vocês podem comprar no exterior os outros produtos que não fabricam ...

- E o resultado é o empobrecimento e - pior ainda - a deformação de nossas almas. As mercadorias que vêm dos países industrializados (roupa, computadores, até cimento) nos transformam e não para melhor.

Por quê?

- Criam novos desejos, novos sonhos de consumo, que não têm relação com a demanda local. Nos jovens, isso produz uma espécie de esquizofrenia, uma frustração extrema e uma sede desenfreada de dinheiro, que se torna o valor supremo. Acontecem coisas absurdas: meu país, Burkina Fasso, é um dos mais pobres do planeta. Apesar disso, eu assisto a engarrafamentos de Mercedes. E esta cobiça de dinheiro chega até os camponeses africanos: correm para vender seu algodão bruto para ter dinheiro e comprar cerveja, coca-cola, rádio ...

E o comércio global?

- Somos vítimas conscientes dele. O problema é que vendemos algodão bruto sem valor adicionado. O resto: a fiação, os processos industriais não estão nas nossas mãos. Continuamos a ser utensílios da história. Usados por outros. Como no século 16.

A época dos negreiros?

- Olhe que a situação não mudou muito. Naquela época, os negreiros se instalavam nas costas da África e fomentavam guerras tribais, para depois aproveitar. Hoje, estouram guerras civis africanas e os homens de negócios ocidentais esperam que termine o massacre para propor contratos aos vencedores: para o petróleo, os diamantes, as matérias primas.

Não será porque a classe dirigente, os políticos africanos não são à altura?

- Sim, hoje há também um vazio de liderança africana, preenchido pelas receitas "técnicas" do Banco Mundial. Mas lembremos que os grandes chefes, os sonhadores de uma África nova, foram mortos ou neutralizados.

A quem se refere?

- A Lumumba, a Nkrumah, com quem trabalhei, a Nasser, a Cabral. Sim, nossas delegações internacionais fazem rir e chorar, mas não joguemos encima delas a cruz: quando um país paupérrimo se apresenta nas conferências dos credores, não vale nada, qualquer que seja quem guie a delegação. A África inteira conta 1% no mercado global: embora carregue tesouros de sabedoria e se ainda tivesse chefes iluminados e sábios, quem a toma ao sério? Não é suficiente viver a própria cultura para irradiá-la, é necessária também uma força material. Também os europeus, no fundo, estão começando a experimentar o que quer dizer contar pouco, frente aos EUA.

O senhor, então, está resignado?

- Nunca. Por várias razões. Primeiro, porque o lugar que é oferecido à África no mundo global não é vida, é sobrevivência. E, sobretudo, falta aquele elemento sem o qual nós, africanos, não podemos viver: a felicidade. Portanto, os jovens devem voltar a lutar, os chefes políticos devem se tornar fortes e unidos, favorecer o desenvolvimento endógeno, não ceder à corrupção.

De "Avvenire" - out/2003

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