Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - África

Hélio Pedroso

Após 11 de setembro, fomos lançados inesperadamente numa guerra diferente das outras: uma guerra técnica contra uma pobreza da Idade Média. Há quem a chame de guerra contra o terrorismo, quem a defina como guerra religiosa, precisamente uma guerra entre o Ocidente cristão e o islã. As definições não correspondem à realidade – que é muito mais complexa no jogo político mundial – e é preciso lembrar que, a partir da segunda metade do último século, tem havido um recrudescimento das lutas religiosas, sejam elas limitadas a grupos ou mais globais, envolvendo países, como aconteceu na Indonésia, no Sudão, na Nigéria e tantos outros lugares.

Se as religiões pregam a paz e a união entre as pessoas, então essas guerras são absurdas e incoerentes. Todavia, um fato que não pode ser ignorado é o sofrimento dos cristãos nessas situações, tendo em vista que eles estão na mira dos fundamentalistas. Aqui também vale aprofundar a análise das causas e examinar alguns exemplos mais atentamente.

Um caso típico de intolerância religiosa-étnica, influenciada também por fatores socioeconômicos é a Nigéria, país rico em petróleo, formado por várias etnias. O sul é fortemente cristão e o norte islâmico.
Numa população de 109 milhões de habitantes, 55 milhões são muçulmanos – 50%, 25 milhões, católicos, formando – com evangélicos e protestantes – 45% do total, os seguidores das religiões tradicionais chegam a 5%. Embora católicos e muçulmanos sejam quase igualmente numerosos no país, estes dominam o cenário político, fazendo com que as outras religiões sejam efetivamente uma minoria sem voz.


Sacerdotisa do culto tradicional

Desde os anos 90, com a ditadura do sultão Sani Abacha, um forte e maciço investimento de dinheiro da Arábia Saudita, Líbia e de magnatas muçulmanos permitiu aos jovens islâmicos da Nigéria de freqüentar escolas e universidades em países com essa fundamentação religiosa. Foram construídas mesquitas praticamente em todas as aldeias e os chefes muçulmanos foram orientados para casar com várias jovens e abrir negócios, a fim de exercer um predomínio sobre o povo pobre.

Isso continua, e o presidente do país, general Olusegun Obasanjo, mesmo sendo cristão, não conseguiu impedir que os governadores implantassem a sharia, ou lei islâmica, e administrassem seus Estados conforme essa rígida lei muçulmana. No dia 20 de dezembro do ano passado, o Estado de Gombe foi o último a implantar a sharia, apesar dos protestos dos bispos e da liderança cristã que apela para a Constituição de 1999. Os governadores muçulmanos respondem que a sharia se refere somente aos muçulmanos, mas, na realidade, uma vez incorporada ao sistema judiciário dos Estados, indiretamente torna-se obrigatória para todos.

No dia-a-dia, esses governadores usam do poder do dinheiro dos países árabes para cercear as liberdades dos não muçulmanos. O bispo dom John Olorumfemi Onalyekan denuncia que, desde que a sharia foi adotada pelos Estados, ela se tornou lei oficial, razão pela qual, indireta e diretamente, atinge os muçulmanos, os cristãos e os tribais.

ARÁBIA SAUDITA
Papai Noel caçado pela polícia

Evitem trocar votos natalinos pelo telefone”, recomenda, na capital saudita, um diplomata a seus compatriotas imigrados no país, devido às conseqüências policiais que poderiam sobrevir, em caso da não observância do convite.

De fato, um comunicado do Ministério do Interior, publicado regularmente todo início de dezembro, convida os cristãos residentes na Arábia Saudita, mais de 600 mil, a não celebrarem o Natal e oferece gratificações para quem fornece informações sobre essa inobservâncias de cristãos. A polícia religiosa do bom costume fica particularmente vigilante neste período para interceptar eventuais mensagens natalinas e pode invadir apartamentos de pessoas suspeitas de celebrar as festas.

Tudo o que se refere ao Natal está proibido: árvores, velas, Papai Noel... Nos supermercados, apagam-se escrupulosamente qualquer frase de bom Natal e imagens natalinas. Para festejar o Natal, muitos cristãos imigrados procuram as sedes das embaixadas onde um sacerdote está registrado como funcionário. Outros arriscam, reunindo-se em casas particulares, com o perigo de serem denunciados e presos.

Em dezembro de 2000, a polícia prendeu 16 filipinos, entre os quais 5 crianças, que estavam lendo e meditando a Bíblia, numa residência particular, e até invadiu a escola anglo-americana perto de Yanbu. Papai Noel foi salvo numa precipitada fuga e tudo terminou entre choros e gritos das crianças assustadas.

EGITO

Poucas horas depois de ser inaugurada, uma igreja cristã foi demolida em Al Ubor, na periferia do Cairo. Autorizada – como é norma – por um decreto presidencial, a construção foi concluída no dia 15 de dezembro de 2001 e sua inauguração, seguida de um culto, estava marcada para o dia seguinte.

Tudo isso, porém, não impediu que as autoridades locais ordenassem a destruição da igreja e a prisão de dez fiéis.

Fonte: Avvenire

Desde 1999, ano em que terminou a ditadura e se implantou a Constituição, que pouco vale, já houve muitas revoltas, choque entre cidadãos e a polícia, deixando um saldo de mais de 6000 mortos. O último choque inter-religioso aconteceu no fim de 2001, na aldeia de Dagwaom Turu, na periferia de Jos, Estado de Plateau. Nessa aldeia, houve somente 20 mortes, por causa da pronta intervenção dos militares que impediram um massacre maior. Parece que esta matança foi uma vingança contra os cristãos devido a um choque entre as milícias islâmicas e o exército, ocorrida em setembro, onde morreram 500 pessoas.

Futuro incerto

Na Nigéria, a questão religiosa mistura-se com a situação social: a pobreza absoluta em varias regiões, a quase total ausência da autoridade do governo federal para criar uma política de desenvolvimento fomenta uma radicalização dos jovens, especialmente os muçulmanos, sem trabalho. Há também um fluxo interno de migração, sobretudo do norte para o sudeste: 230 mil cristãos já deixaram tudo para fugir das freqüentes perseguições nas regiões muçulmanas.

Numerosas organizações defensoras dos direitos humanos denunciaram, nos últimos meses, a prisão de dezenas de cristãos que acabam sendo julgados pela lei da sharia integrada ao sistema judiciário comum.

Diante de todos estes problemas e da fraqueza do governo federal, teme-se a islamização de toda a Nigéria e, para as próximas eleições, não se exclui a possibilidade de que todos os candidatos à presidência sejam muçulmanos. O que resta da Nigéria cristã e tribal estará, então, cada vez mais ameaçado.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar