Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - África

MILINGO casa e volta

Renato Kizito Sesana

O casamento de Emmanuel Milingo, ex-arcebispo de Lusaka (Zâmbia) dentro da Igreja da Unificação do rev. Moon foi muito explorado pela mídia nos últimos tempos

A mídia do mundo inteiro deu muito realce ao casamento celebrado entre Emmanuel Milingo, ex-arcebispo de Lusaka, Zâmbia, e Maria Sung, coreana. O casamento realizou-se em Nova York, no Hotel Hilton; na ocasião, mais de uma centena de casais foi abençoada pelo reverendo Moon, fundador da Igreja da Unificação. Entre eles havia mais de cinqüenta ministros de diferentes denominações cristãs. O próprio Moon já havia celebrado o casamento de Maria com um operário italiano, em 1995. O fato causou muita sensação por se tratar de um arcebispo muito famoso pelas inúmeras sessões de cura que nestes últimos anos realizou na Europa toda.

O missionário padre Renato Kizito Sesana, comboniano, que trabalhou em Lusahka quando Milingo era arcebispo, nos fala sobre o acontecimento.

QUEM É
EMMANUEL
MILINGO

Emmanuel Milingo nasceu em 13 de junho de 1930 em Mnukwa (Zâmbia).
É ordenado padre em 1958 e arcebispo de Lusaka em 1969. Em 1973, começa a dedicar-se às sessões de cura que, em breve, vai se tornar sua principal atividade e preocupação. Em 1981, aumenta a tensão entre ele e os demais bispos de Zâmbia, que o acusam de esquecer a pastoral e de preocupar-se somente com as sessões de cura. Em 1983, renuncia à diocese e permanece isolado durante alguns meses em Roma, na casa dos padres passionistas. Recebe, em seguida, o encargo de delegado especial do Pontifício Conselho dos Migrantes, cargo que lhe deixa tempo para continuar a dedicar-se às sessões de cura na Itália e, depois, na Europa. Alguns bispos, como o cardeal Martini de Milão, negam-lhe a permissão de fazer isso em suas dioceses.

Em 1999, é removido de seu encargo no Vaticano.

Quando cheguei a Lusaka, em 1980, foi dom Emmanuel Milingo que me recebeu na diocese. Eu lhe pedi que, dentro das possibilidades, meu primeiro campo de trabalho fosse numa paróquia pequena e pobre, que me deixasse tempo para minhas atividades com os jovens e que me permitisse viver nas mesmas condições em que o povo vivia. Designou-me à comunidade de Bauleni, formada por pobres imigrantes que não acharam outro lugar para se estabelecerem a não ser nas proximidades de um cemitério. Fui recebido de forma fraterna e acolhedora e por isso serei sempre grato a Milingo. Já na época ele passava a maior parte de seu tempo recebendo doentes e rezando por eles. Não havia tempo para outra coisa. Sua dedicação aos doentes e aos pobres era a característica de sua espiritualidade.

Era muito popular por isso e essa sua popularidade causou muito ciúme, o pecado mais comum nos ambientes eclesiásticos. Mas sua maneira de agir causava também muitas dúvidas e preocupações. Era simples e ingênuo e muitos aproveitavam: foi logrado muitas vezes em negócios que ele empreendeu.

Sua ingenuidade tornava-se ainda mais perigosa quando ele queria dar uma explicação teológica às curas que aconteciam durante as sessões que presidia. Chegava a dizer, com muita segurança, que tinha comunicações diretas com Deus: "Deus me mostrou que...", "...Deus quer que eu..." eram expressões que se ouviam com muita freqüência conversando com ele.

Milingo e a mídia

Nem tudo o que a mídia disse de Milingo era verdade. Por exemplo, era chamado de "arcebispo feiticeiro". Conforme a mprensa, os próprios padres de sua diocese teriam-no chamado assim. O que não é verdade. O que o clero de Lusaka dizia dele era que deixava de exercer o papel de bispo para dedicar-se completamente ao ministério da cura. Não dava orientações para a pastoral. Se uma paróquia exigia dois anos de catecumenato antes de administrar o batismo, outra batizava na hora. E o bispo não dizia nada.

QUEM É O REV.
MOON

Sun Myung Moon nasceu em 1920 na Coréia do Norte, em ambiente religioso confucionista. Na Páscoa de 1936, depois que seus pais se converteram à Igreja presbiteriana, teve uma visão de Jesus que lhe pediu que "completasse a realização do Reino de Deus sobre a terra e que levasse a paz à humanidade". Após a guerra, em 1954, fundou a Igreja da Unificação. Em 1960, casou com Hak Ja Kan. Esse casamento, na visão do rev. Moon, seria o início da restauração da humanidade com Deus, para completar a obra "fracassada" de Cristo. Eles seriam o primeiro casal que recebeu a benção completa de Deus e que pode gerar filhos sem o pecado original. Todas as pessoas podem receber essa benção sobre seu casamento através do rev. Moon e de sua esposa.

Nos anos 70, para começar uma cruzada moral em nível mundial, passou a morar nos Estados Unidos, mas foi condenado a um ano de prisão por sonegação de impostos. Os anos 90 representam, para Moon, a fase final de sua missão, que deveria ter culminado com a unificação das duas Coréias.

Uma vez o procurei: não foi fácil, o encontro teve que ser cancelado e adiado muitas vezes. Precisava saber dele se um determinado território pertencia a minha missão ou à do vizinho, pois havia um grupo de pessoas que queriam se tornar cristãos e eu achava que moravam em território da outra missão.Queria também convidá-lo para que administrasse a crisma em minha paróquia. A resposta dele foi muito curta:

"Se eles procuraram você, quer dizer que pertencem à sua paróquia. Quanto à Crisma não posso, porque vou para a Austrália". Em seguida, passou duas horas falando das curas que aconteceram no encontro de oração do dia anterior. Com ele era sempre assim. Desligado dos problemas pastorais e muito preocupado com as sessões de cura. Esse era o arcebispo feiticeiro.

Como foi que um homem como esse, bom mas ingênuo, perdeu o om senso e permitiu ser instrumentalizado para uma cerimônia de casamento de massa do rev. Moon e chegou a deixar declarações, vendo nisso a realização de uma verdade que Deus lhe confiou?

Sem dúvida, os ciúmes, as desconfianças e até as perseguições de que foi objeto por parte de eclesiásticos de mentalidade fechada tiveram boa parte de responsabilidade no seu gesto de abandonar a Igreja católica.

Mas deve ter influído também o fanatismo de alguns membros do movimento carismático com suas bajulações e lisonjas, sua atitude de aceitar tudo que saísse de sua boca. Quando pessoas assim cercam alguém, podem contribuir para que ele perca com facilidade o senso da realidade e de seus próprios limites.

O desfecho

Não é necessário detalhar a evolução do caso Milingo com seu desfecho, que todos os meios de comunicação exploraram à exaustão: o encontro do arcebispo com o papa, o diálogo com os enviados do Vaticano, o jejum de Maria Sung, o encontro final entre os dois no dia 29 de agosto, com a separação definitiva.

Há quem interprete o acontecimento em termos de vencedores e derrotados, mas talvez não seja o caso. Além do barulho dos meios de comunicação e da curiosidade mórbida do público, fica a imagem de uma realidade complexa, feita de ingenuidade, esperteza, firmeza, misericórdia, fidelidade. Cada um dos protagonistas deu seu aporte.

Tradução e adaptação da revista Nigrizia

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