Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - África

 


Uma Igreja dependente e dividida

por Giuseppe Cavallini

exiguidade numérica dos católicos na Etiópia - 0,8 % em mais de 63 milhões de habitantes - explica, em grande parte, a ausência de um significativo impacto social e o complexo de inferioridade em muitos de seus membros.

O governo torna tudo mais difícil: até agora se recusou a reconhecer um específico status jurídico da Igreja católica. Além disso, historicamente, as relações entre Igreja católica e ortodoxa (30 milhões de membros) são caracterizadas por uma espécie de conflito permanente não manifesto. Neste contexto, aparece o desafio da tentativa de expansionismo do islã, sobretudo a partir dos setores comercial e econômico, que pode abrir a porta à conquista de toda a África subsaariana.

O governo, de fato, com uma manobra astuciosa, obrigou a Igreja católica - como também outras Igrejas - a condicionar sua presença à formulação e atuação de projetos de desenvolvimento social, com contratos quinqüenais, conforme o modelo que utiliza com as Ongs. Assim, as "licenças de trabalho" aos missionários estrangeiros são concedidas não na base das necessidades eclesiais/pastorais da Igreja, e sim de acordo com os projetos de desenvolvimento que ela apresenta.

Isolamento e dependência

O país ficou isolado durante séculos. Se isso, de um lado, forçou o poder a criar condições próprias de sobrevivência no campo sociopolítico, econômico, cultural e religioso, de outro, a Etiópia sofreu um proceso de fechamento que a tornou impermeável aos valores vindos de fora. Idéias, estruturas, instituições e pessoas estranhas são acolhidas com desconfiança e suspeita, como ameaças à sua independência, soberania e identidade histórica, cultural e religiosa.

A Igreja não está isenta desses efeitos negativos. Embora seja membro da Amecea (órgão que reúne as Conferências episcopais da África oriental), a Igreja etíope é conhecida pela sua escassa participação em congressos, cursos e projetos comuns dessa organização. Em nome do slogan "a Etiópia é diferente", muitos sacerdotes e bispos justificam certa passividade e evitam se inspirar na experiência de outras Igrejas da região, mais criativas e vitais no campo pastoral.

Este "encolhimento" impede muitos católicos - sobretudo sacerdotes e religiosos - de reconhecer seu escasso dinamismo e atraso em áreas pastorais importantes. O compromisso com a promoção humana tem sido uma constante da atividade da Igreja católica na Etiópia; porém, nas últimas décadas, em várias dioceses, acentuou-se, às custas da pastoral e da evangelização direta.

A política restritiva do governo em conceder os vistos de entrada aos missionários estrangeiros obrigou a Igreja a investir suas melhores energias em setores como a educação, a saúde e o desenvolvimento, que seriam responsabilidade do próprio governo. A anomalia consiste no fato de que as atividades nesses setores têm a finalidade de garantir licenças de trabalho aos estrangeiros, permitindo continuar também as atividades pastorais, catequéticas e eclesiais de todos os operadores pastorais.


Sacerdote ortodoxo de Beta Maryam

Isso cria um estado de exagerada dependência econômica da ajuda do exterior junto com a perda de interesse pela formulação de estratégias internas de autodesenvolvimento. Um segundo perigo, já lembrado, é a formação de uma Igreja que não tem nada a aprender, mas quer receber tudo do exterior para sua sobrevivência. De resto, a imagem que, hoje, a Igreja católica transmite de si mesma é de uma instituição economicamente poderosa e com conexões externas que lhe garantem os necessários recursos materiais, já que investe 15 milhões de dólares por ano em suas atividades.

Esta imagem é assumida pelo clero local e por muitos leigos que, desta maneira, pretendem ver satisfeitos todos seus desejos e aspirações. Enquanto os membros da Igreja ortodoxa são educados a contribuir durante anos para a construção de suas igrejas e necessidades de seus sacerdotes, os católicos construem grandes igrejas em pouco tempo, mas muitas vezes sem a participação do povo.

Tribalismo eclesial

A escolha do atual governo de tornar a Etiópia uma república federativa, segundo o critério etno-linguístico, trouxe controvérsias. No âmbito político, há tempo, muitos denunciam a maneira de aplicar o federalismo, que está levando a enfatizar exageradamente as diversidades étnicas, diluindo o sentido de unidade nacional e aumentando os riscos de conflito entre etnias diferentes. Os problemas não faltaram também para a Igreja.


Mulher católica

As jurisdições eclesiásticas coincidem, mais ou menos, com as regiões civis, que foram desenvolvendo uma progressiva autonomia política, administrativa e cultural (mas não econômica e política...) em relação ao governo central.

A Igreja seguiu o modelo: uma espécie de "federação de dioceses e vicariatos" com uma consciência escassa de unidade e interação. Cada bispo tende a interessar-se mais pelos problemas e pelo desenvolvimento da própria jurisdição do que pelo amadurecimento da Igreja em nível nacional e pela promoção do encontro e da partilha mútua entre as dioceses.

A escassez de cartas e exortações pastorais por parte dos bispos, a ausência de um plano pastoral nacional e de uma estratégia comum na educação, na saúde e nos projetos de desenvolvimento, são claras indicações da tendência ao fechamento e ao isolamento. A distância entre regionalismo e "tribalismo eclesial" é curta. É um risco denunciado pelos próprios bispos na carta pastoral "Venha teu Reino", publicada durante o conflito com a Eritréia. De resto, aumentaram nos últimos anos, também na Etiópia, controvérsias étnicas gerando violências e vítimas.


Igreja de Beta Giorgis, incrustada na pedra: um milagre arquitetônico de Lalibela

No sul do país, a abolição do idioma amárico como língua de ensino e sua substituição pelos idiomas locais criou graves conflitos entre grupos que pretendiam que fosse privilegiada sua língua.

Esse modelo de regionalização desafia a Igreja "católica", isto é, universal e inimiga de qualquer discriminação. Crescem comentários e julgamentos pesados de sacerdotes ou leigos em relação a pessoas pertencentes a etnias diferentes, até dentro da mesma congregação religiosa.

O pior de tudo é que, até agora, nada foi feito para analisar com seriedade o sentido e os riscos desse fenômeno, nem foram realizadas iniciativas concretas de formação e de estudo para enfrentar esses desafios. Ainda bem que, na última reunião da Conferência episcopal, os problemas entraram, pelo menos, na pauta de discussão. Concluindo, o elemento étnico determina e condiciona também a esfera litúrgica e religiosa em geral. Há até quem afirmasse que a tendência ao federalismo étnico seja mais acentuada no âmbito das Igrejas locais do que na política do atual governo.

Tradução na íntegra de: Nigrizia

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