Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - África


Irmã missionária ensinando bordado a um grupo de mulheres

Fazendo a história da

Igreja do Chade

Estêvão Raschietti

Em meados de setembro veio ao Brasil, dom Jean Claude Bouchard,
missionário oblato de Maria Imaculada e bispo de Pala (Chade), onde trabalha um grupo
de missionárias brasileiras

Quem é dom Jean Claude Bouchard?

Nasci em 1940 no Quebec (Canadá), filho de camponeses. Entrei num colégio de religiosos aos 13 anos. Segundo a tradição, na minha terra, o primeiro filho trabalhava na roça com o pai. Já o segundo, se tinha capacidade, estudava. Eu era o segundo. Fiz dois anos com os padres sacramentinos, mas era travesso demais para eles. Falaram-me para não voltar. Assim, fui para os Missionários Oblatos de Maria Imaculada. Após quatro anos de seminário e noviciado, fui enviado a Roma para estudar filosofia e teologia.

Depois da filosofia, pedi para ser enviado para uma experiência em missão. Nós, oblatos, somos missionários entre os pobres. Tinha pedido para ir à África do Sul, porque ali tinha oblatos canadenses que eu conhecia. Porém, o superior geral decidiu enviar-me para o Chade, entre os oblatos franceses. Ali fiquei dois anos, como estudante missionário voluntário. Era diretor da escola primária. Gostei muito.

Regressei a Roma para terminar meus estudos e me preparar para ser missionário na América Latina. Gostei da África, mas sentia uma atração pelo continente americano.

Entretanto, os meus companheiros do Chade insistiram para que eu não fosse a outro lugar e voltasse para lá com eles. Eu disse para mim mesmo: este é um apelo do Senhor. E assim fui destinado pelos superiores para o Chade.

O senhor viveu seu período de formação em Roma durante o Concílio Vaticano II. Como foi tocado por este evento?

O Concílio me marcou muito. Muitas vezes, não ia à escola porque achava que os professores eram meio ultrapassados. Fechava-me no quarto e lia os documentos e os comentários do Concílio. E quando voltei para o Chade, tentei colocá-los em prática nas nossas missões.

Os confrades no Chade eram receptivos às novidades do Concílio?

Meu predecessor era muito aberto. Em 1971, começávamos as primeiras assembléias presbiterais para refletir sobre a nossa maneira de evangelizar. O Concílio chegou trazendo luzes para as nossas missões. O trabalho dos nossos missionários não estava dando resultados com os métodos clássicos. Precisava de novas visões, de novas perspectivas. E o Concílio nos deu a possibilidade de entender a missão de maneira nova, mais adequada ao nosso contexto.

A nossa evangelização atual no Chade é fundamentalmente marcada pela Palavra de Deus. Na região onde eu trabalhava, um padre começou uma experiência de transmissão oral da palavra. Esta experiência deu resultados muito bons. Antes não havia preocupação com a Palavra e sua prática, mas só com a doutrina da Igreja.

Começamos assim com a experiência do catecumenato, para que as pessoas assumissem o batismo como um compromisso cristão e não simplesmente como ato mágico. Há uma tradição missionária do catecumenato muito bonita na África. Nós temos um catecumenato de quatro anos e meio, com um ano ou dois de primeira evangelização. Batizamos somente adultos depois do catecumenato. Somos muito exigentes com o sacramento: ou é vida cristã para valer ou não se entra para fazer parte da comunidade.

Quando o senhor se tornou bispo?

Trabalhei sete anos como padre com um confrade que foi prefeito apostólico. Tornei-me bispo aos 36 anos.

Todos os padres de sua diocese são missionários estrangeiros?

Ordenei o primeiro padre local em 1982. Até agora, os padres diocesanos são oito. O seminário conta com 18 seminaristas. Até então eram quase todos padres oblatos e alguns padres diocesanos franceses.

Qual é a realidade do Chade?

O Chade sofre com os problemas crônicos dos outros países do Sahel. Está dividido entre o Norte muçulmano, gente do deserto que cria animais, e o Sul negro, povo de cultivadores e de religiões tradicionais e, agora, cada vez mais cristão. É muito complicado fazer um país com tais diferenças. Depois da independência, eram os povos do Sul que mandavam no país. A partir de 1979, são os do Norte. Os muçulmanos tinham-se oposto à formação ocidental e fecharam muitas escolas, não incentivaram a educação. Assim muitas pessoas agora ocupam cargos públicos sem a devida competência. O país é muito mal administrado. Existe muita corrupção e incompetência. A pobreza aumenta. Não há investimentos.

O Chade é um país que não atrai ninguém. Agora se fala de petróleo e se faz um pouco de onda ao redor. É isolado, tudo chega através dos Camarões ou da Nigéria. Não produz energia elétrica. A juventude, sobretudo, não vê um futuro para o país. Todos querem estudar. Mas, depois dos estudos, o que fazer?

A diferença cultural e religiosa entre o Norte e o Sul não poderia desencadear um conflito como o do Sudão?

Espero que não. Porém, sempre que há problemas, a dimensão religiosa vem à tona, embora este não seja um motivo para guerra. O mundo muçulmano, contudo, se sente excluído pelo ocidente. Existe muita revolta. Eles dizem que agora que não há mais o comunismo, os americanos fizeram do islã o bode expiatório. O integralismo muçulmano se torna cada vez mais forte.

Qual é a presença da Igreja neste contexto?

A Igreja do Chade, há tempo, organizou-se para assegurar uma presença social. Em todas as dioceses, há instituições reconhecidas e, às vezes, financiadas pelo governo. Estamos engajados em programas de educação, saúde, agricultura e promoção da mulher. Outros países da África não têm tanta organização e suporte como nós. Existe uma boa colaboração entre Igreja e governo. Somos respeitados pela competência.

Temos também algumas prioridades. As missões antigamente ajudaram demais, deram demais e ainda estão dando demais. Agora estamos muito mais atentos para que o pessoal assuma o seu próprio crescimento e participe das transformações. Hoje não temos obras faraônicas, mas iniciativas ao alcance da administração popular. O povo é que tem que pegar na mão a própria sorte.

Também sobre a evangelização podemos fazer as mesmas considerações. Tivemos um sínodo diocesano que durou 4 anos e que foi um momento muito forte. No ano passado, tivemos o grande jubileu. E foi um jubileu duplo, porque a nossa Igreja completava 50 anos de existência. Eu disse ao povo que agora a nossa Igreja era adulta. Temos 35 mil batizados, 1800 catequistas e muitos outros ministérios. Insistimos muito no dízimo. Junto com toda África, a nossa Igreja precisa reencontrar a própria dignidade, os próprios valores. As pessoas precisam reencontrar sua cultura. A vida moderna chega lá também com seus objetos de consumo e de desejo, mas os valores não existem. Eu acredito na importância do Evangelho para ajudar os africanos a reencontrarem os seus valores dentro de suas culturas.

Que avaliação o senhor faz em relação ao esforço de inculturação da Igreja na África?

Antes do Concílio, chegava-se à África com a convicção de que a Igreja era igual em todo lugar. Não se pensava em quem recebia o anúncio, mas somente no anúncio. Para a Palavra de Deus ser ouvida, precisa ser bem traduzida. Não somente na língua, mas na linguagem cultural total. O Evangelho precisa ser ouvido.

Antigamente, falava-se em “plantar a Igreja”. A Igreja não pode ser plantada: ela deve nascer. A Igreja é assembléia reunida, por isso deve ter o rosto de cada povo.

Quais são as perspectivas para o trabalho missionário no Chade?

A nossa perspectiva é construir uma Igreja local africana. Precisamos ainda de ajuda do exterior, mas não qualquer ajuda. Uma ajuda que não pode ter o povo como protagonista não serve. Como fazer para que o povo assuma seu próprio protagonismo? Este é o grande desafio.

O modelo de Igreja que nós missionários implantamos não é muito adequado à realidade africana. Fizemos sacerdotes segundo o modelo missionário: uma pessoa independente, com muitos meios, com carro, etc. Também o povo torna-se escravo deste modelo. Nós vimos que as pessoas não apreciam facilmente a inserção do missionário no meio popular, porque acham que ele tem dinheiro e não quer gastá-lo, que tem a possibilidade de trabalhar mas não quer trabalhar.

Que impressão o senhor tem dos missionários e das missionárias latino-americanas que trabalham em sua diocese?

Temos diversas missionárias brasileiras, xaverianas e irmãzinhas da Imaculada, que trabalham conosco e alguns missionários xaverianos mexicanos. Eles nos fazem sentir que a Igreja é verdadeiramente universal. Começamos a mudar a imagem da Igreja na África como parte da colonização européia. A América Latina pode ajudar a África: ela é capaz de escuta, de empatia com o povo africano. O modelo da Igreja, sobretudo do Brasil, é ótimo.

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