Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

Costanzo Donegana e Pedro Miskalo

Uma vasta pauta

tema central - Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil – ocupou boa parte dos trabalhos.

Entretanto, várias comissões de prelados levaram à Assembléia outros assuntos relevantes:

- Documento de Aparecida, Missão Continental, Amazônia, Liturgia, Ano Paulino, Pastorais Afro-brasileira e da Juventude, Família e questões éticas, Aquecimento Global, Eleições,...

O retiro pregado por dom Erwin Kräutler, bispo da Prelazia do Xingu e um dos bispos na mira de pistoleiros, recebeu emocionada manifestação de solidariedade dos coirmãos. Adiante, daremos a conhecer algumas de suas reflexões. A tradicional Celebração Ecumênica contou - neste ano - com a presença de representantes de 12 diferentes denominações cristãs.

A esse respeito, o arcebispo da Igreja Ortodoxa Antioquina, dom Damaskinos Mansour, comentou:

- “Esta oração deve ser a nossa força neste centenário da unidade de todos os cristãos, para chegarmos à união verdadeira. Através de nós e da nossa união possam todos os homens ver a Jesus Cristo”.

Diretrizes para a Evangelização

Um documento, apresentado pelo arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, esclarece:

- “A motivação de fundo que orientou a elaboração das novas Diretrizes da CNBB é a ‘conversão pastoral’:

- de uma atitude de mera conservação daquilo que a Igreja é e do ponto no qual nos encontramos, passar para um ‘estado permanente de missão’”.

Recomenda a “formação mais aprofundada da religiosidade do povo e atuação pastoral mais eficaz e dinâmica nos campos sociais”.

Tais diretrizes se justificam em vista de recorrentes desafios:

- persistência das injustiças sociais e da miséria, má distribuição de oportunidades e de renda, desintegração social e econômica dos indígenas e afro-descendentes, corrupção.

Os desafios “vêm do ambiente cultural mudado, onde a proposta religiosa contraria o materialismo, o utilitarismo e a tendência ao gozo desenfreado da vida”. O documento também cita “a deterioração do ambiente e da vida nas cidades, por causa da poluição sufocante, da falta de saneamento e de políticas urbanas, e, no vasto interior, persistem a agressão à natureza e os modos inadequados de se relacionar com ela...”.

Por sua vez, o presidente da Comissão de Redação, dom Celso Antônio de Queirós, declarou:

- “As novas diretrizes dão um passo novo e grande, à luz do clima da Conferência de Aparecida, que foi voltada para a missão da Igreja como discípula e missionária”.

Em entrevista a Mundo e Missão, o arcebispo de Brasília, dom João Braz de Aviz, declarou, a esse respeito:

- “As Diretrizes conservam o esquema anterior à Aparecida, mas enriquecidas por este espírito novo.

O Documento de Aparecida foi gerado na fé, com profundidade.

Sua ênfase à importância da comunhão é enorme: - 86 números do documento tratam da comunhão.

Imprimir este espírito de um caminho em conjunto, justamente como resposta ao momento do individualismo, é um alicerce muito importante, pois uma cultura que se baseia no individualismo mata o homem. Nós pensamos a pessoa como sujeito de relações cristãs, que são relações de amor. E queremos, com a comunhão, voltar ao centro do mistério cristão, que é o mistério trinitário. Não só com os católicos, mas com todos. E, se não houver um princípio teológico, espiritual, profundo, não chegaremos lá. (...). Os bispos estiveram atentos a dois pontos: fidelidade ao mistério de Deus e atenção real à cultura atual. O próprio papa trabalha muito nessas direções. A antropologia de Bento XVI é maravilhosa neste ponto”.

Os jornalistas perguntaram...

Selecionamos algumas colocações feitas na Sala de Imprensa:

- Sobre um hipotético terceiro mandato presidencial, dom Angélico Sândalo Bernardino, de Blumenau (SC), respondeu:


Plenário da Assembléia da CNBB

“No regime democrático, o melhor é a renovação”.

Ele também opinou sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC):

- “Não acho que ele seja demagogia.

Mas não tenho ilusões, porque sempre que se tenta fazer reformas profundas há resistência das classes dominantes”.

Questionado sobre a popularidade do presidente Lula, dom Pedro Stringhini, bispo auxiliar em São Paulo, respondeu:

- “Se o presidente Lula, com a popularidade que tem, fosse mais rígido nas questões éticas e na defesa do meio ambiente, seria muito bom para o país”.

Dom Roque Paloschi, de Roraima (RR), respondeu sobre as ameaças sofridas e o trabalho social:

- “O conflito é alimentado por um Estado anti-indígena.

O grupo de produtores de arroz entrou na Reserva Raposa do Sol quando a terra estava sendo demarcada e não aceita as indenizações do governo para se retirar. A posição da Igreja é de respeito à lei, pois a área foi homologada”. Responsável pela Pastoral Afro-Brasileira, dom João Alves dos Santos, bispo de Paranaguá (PR), afirmou que “49,1% dos brasileiros se consideram negros e isso é um motivo para a Igreja trabalhar a inculturação dessa grande massa que nunca foi protagonista na história”. Para ele, o maior desafio em relação à realidade dos negros “é fazer com que o negro se assuma, de fato, como negro”. O bispo de Jales (SP), dom Luiz Demétrio Valentini, presidente da Caritas brasileira, teceu comentários sobre as Pastorais Sociais dizendo que, através delas, “a Igreja pode testemunhar melhor sua presença na sociedade como serviço à vida”. Reconheceu que “a Igreja já foi muito forte no Brasil rural, mas que hoje, no Brasil urbanizado, a caminhada é lenta” e que “é preciso trabalhar esta questão”.

A respeito do protagonismo leigo na Igreja, o cardeal primaz do Brasil, dom Geraldo Majella Agnelo, comentou:

“Espera-se muito dos bispos, quando, na realidade, deveria ser o cristão leigo a se pronunciar, segundo sua competência, sobre as questões como saúde e educação”.

Retiro: “Não tenhas medo!”

“Preparei as palestras vigiado por dois policiais”, declarou dom Erwin, ao se referir à proteção oferecida pelo Estado por causa das ameaças. Suas três palestras, nascidas da experiência do próprio sofrimento pela coragem na defesa dos massacrados, levaram os coirmãos a refletir seriamente sobre a missão do verdadeiro pastor.

Na primeira conversa, em que frisou que “a fé vem pela audição”, dom Erwin destacou que “Deus nos fala também pelo seu silêncio, ...e nas ameaças abertas e veladas, na noite escura do ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?’”.

Por isso, insistiu: - “é preciso dar ouvido ao grito de dor da humanidade”.

Na segunda, lembrou palavras de João Paulo I:

- “Eis a palavra exata: não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode!”.

Ao citar São Paulo, afirmou:

“O que realmente importa são atitudes, comportamentos que o amor suscita. O amor tem que ser concreto, pé no chão”.

Na terceira, esclareceu:

- “A chave para entendermos como um homem agüenta tantos sofrimentos sem esmorecer, sem perder o entusiasmo, sem apagar o ardor, sem esfriar a paixão, não pode ser outra a não ser a promessa do Senhor:

- ‘não tenhas medo; continua a falar e não te cales, porque eu estou contigo’(At 18,9-10)”.

Nota de Apoio aos indígenas da Terra Raposa Serra do Sol

A CNBB tornou público o seu apoio à Operação Upakaton 3, que estava sendo realizada pelo Governo Federal para a retirada dos ocupantes não-indígenas da referida terra. No entendimento dos bispos, “a demora na retirada definitiva dos não-índios tem contribuído para o agravamento do quadro de violência a que estão submetidos os povos Ingarikó, Macuxi, Wapixana, Patamona e Taurepang”. A nota esclarece que “não podem ser premiados os que violam sistemática e impunemente a Constituição, invadindo e ocupando de maneira ilegal terras que não lhes pertencem, promovendo ali o garimpo, a extração ilegal de madeira, a pecuária e plantações de arroz, ao arrepio da lei”.

A fé cristã nos ensina...

que o referencial para compreender a dignidade da pessoa é Jesus Cristo, Verbo encarnado, rosto humano de Deus e rosto divino do homem. A Encarnação revela a dignidade sagrada da pessoa e seu valor inquestionável. Se o pecado deteriorou a imagem de Deus no homem e feriu sua condição, a Boa Nova, que é Cristo, redimiu-o e o restabeleceu na graça. Esta graça atua no coração de toda pessoa, sendo fonte de esperança, liberdade autêntica, comunhão e paz. Diante de um clima cultural relativista, que a todos envolve, Jesus se apresenta como Caminho, Verdade e Vida.

  • Diante de uma vida sem sentido, Jesus nos revela a vida íntima de Deus em seu mistério mais elevado:

- a comunhão trinitária.

É tal o amor de Deus, que faz do ser humano, peregrino neste mundo, sua morada (Jo 14,23).

  • Diante do desespero de um mundo sem Deus, que só vê na morte o final definitivo da existência, Jesus nos oferece a ressurreição e a vida eterna, na qual Deus será tudo em todos (Cf. 1 Cor 15,28).
  • Diante da idolatria dos bens terrenos, Jesus apresenta a vida em Deus como valor supremo (Mc 8,36).
  • Diante do subjetivismo hedonista, Jesus propõe entregar a vida para ganhá-la, porque "quem salvaguarda sua vida terrena, perdê-la-á" (Cf. Jo 12,25)
  • Diante do individualismo, Jesus convoca a viver e caminhar juntos.
    A vida cristã só se aprofunda e se desenvolve na comunhão fraterna (Mt 23,8).
  • Diante da despersonalização, Jesus ajuda a construir identidades integradas. A vocação, a liberdade e a originalidade são dons divinos para buscar a plenitude numa atitude de serviço a Deus e ao próximo.
  • Diante da exclusão, Jesus defende os direitos dos fracos e o direito a uma vida digna para todo ser humano.
    O ser humano, imagem vivente de Deus, é sempre sagrado, desde sua concepção até a sua morte natural, em todas as circunstâncias e condições de sua vida.

Por isso, a Igreja assume a promoção da dignidade da pessoa diante das várias formas de desrespeito à vida:

- manipulação genética, aborto, eutanásia, esterilização, comercialização do sexo, do corpo, bem como as diversas formas de violência.

  • Diante das estruturas de morte, Jesus faz presente a vida plena. Por isso, Ele cura os enfermos, expulsa os demônios e compromete os discípulos na promoção da dignidade humana e de relacionamentos sociais, fundados na justiça e na misericórdia.
  • Diante da natureza ameaçada, Jesus nos convoca a cuidar da integridade da criação, defendendo-a e preservando-a, para abrigo e sustento de todas as pessoas, dos animais e de todo o ecossistema (Cf. Lc 12,28; Cf. Gn 1,29; 2,15), em respeito às gerações futuras.

Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2008-2010 (n.° 110)

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