Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil

Em um ambiente pobre e hostil, as Irmãs da Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus exercem a sua função, levando fé, esperança e força de vontade a uma população abandonada à margem social. A Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) acolheu o projeto das Filhas do Sagrado Coração de Jesus e espera viabilizar um auxílio ainda maior para esses verdadeiros anjos

Márcio Martins

verdadeiro aprendizado da essência da espiritualidade, da solidariedade e da paixão está inerente à prática missionária. Ser missionário é entregar sua vida em prol daqueles que mais sofrem, proporcionando a todos conhecer e vivenciar o Projeto de Deus. Contudo, a missão precisa de pessoas ousadas e entusiasmadas pela causa da evangelização, e é exatamente com esta conotação que as Irmãs da Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus estão inseridas na diocese de Caruaru, interior de Pernambuco, a 136 quilômetros da capital, Recife.

A diocese de Caruaru conta com uma população de mais de 800 mil habitantes. Está situada numa cidade onde o comércio e o turismo atingem um expressivo crescimento. Mas, de forma antagônica, também cresce a pobreza, o desemprego e a violência, que resultam em uma periferia suja e agressiva, sem qualquer infra-estrutura. A renda desta população é irrisória; as crianças são constantemente seduzidas pelas drogas e muitos pais-de-família são presidiários.

Neste cenário aflitivo, a Obra católica de caridade internacional Ajuda à Igreja que Sofre acolheu o projeto da Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus, viabilizando às Irmãs uma ajuda existencial de vinte e dois mil reais ao ano. Durante uma recente visita ao estado de Pernambuco, a AIS pôde acompanhar de perto o trabalho missionário das irmãs junto à população carente da periferia de Caruaru.

O carisma da Congregação exprime com exatidão a mística missionária:

- amar a Deus com todas as forças; amá-Lo de maneira desprendida e amar os irmãos e irmãs com misericórdia.

“Nós trabalhamos na formação das crianças e dos adultos que estão nas circunstâncias mais sofridas. Procuramos atender as famílias mais carentes, sobretudo onde a marginalidade e o desemprego são gritantes. A maior parte da população vive em condições de extrema miséria humana, social e econômica. Essa realidade é a nossa preferência, pois as pessoas que aí vivem, precisam ser escutadas e amadas”, comentou irmã Malba Maria.

Nos relatos a seguir, deparamos com o triste cotidiano de muitos brasileiros, excluídos dos seus direitos, abandonados à marginalização social, mas amparados pelo amor e devoção das vinte e duas freiras, que não medem esforços em ajudar o próximo e proclamar o Evangelho, enxergando o próprio Cristo no rosto de cada desamparado.

A providência não falha

Há cerca de três meses, uma forte chuva castigou grande parte da região de Caruaru, deixando bairros inteiros completamente submersos e famílias desamparadas. A família de dona Valdenice foi uma das que perderam tudo pela força das águas. A favela, onde ela mora, fica sobre um córrego no bairro de Petrópolis.

As irmãs conseguiram colchões, lençóis e roupas, pois dona Valdenice e seus familiares estavam só com as vestes do corpo. “Perdi tudo o que você possa imaginar, e ao mesmo tempo eu ganhei tudo, porque acho que o mais importante eu ainda tenho, que é a vida dos meus filhos e a minha. Na verdade, saí ganhando.

E digo também que ganhei porque as irmãs me ajudaram, e não deixaram faltar nada para nós. Nem alimentos e nem roupas. Tenho de agradecer a Deus, que colocou as irmãs no mundo para nos ajudar. Já teve vezes de eu sentar aqui à noite com os meus filhos sem nada para comer. Ficávamos sentindo, as lágrimas caírem.

Eu tentava consolar os filhos dizendo: - Não chorem.

Hoje não tem, mas amanhã iremos ter, se Deus quiser! E, no outro dia, as irmãs chegavam trazendo alimentos para a gente. Se hoje não tenho nada, não vou me revoltar. Com fé em Deus e com força de vontade, vou conseguir tudo o que preciso. Todos os dias eu me ajoelho e rezo a Deus”, relatou, emocionada, dona Valdenice.

A Ir. Malba Maria assim descreveu a fé daquela senhora nesse episódio lamentável:

- “Tivemos uma tempestade que durou mais de uma hora e meia, acabando com a cidade.

Como fazemos visitas semanais às casas, as postulantes (jovens que se preparam para serem freiras) foram visitar as famílias, após a chuva, e voltaram desesperadas. Dona Valdenice havia perdido tudo.

Pensamos: - ‘E agora, o que vamos fazer?’.

Então, pegamos algumas coisas nossas e corremos para lá.

Até então, ela só tinha aquele barraco, mas sua fé nos impressionou: - ‘Não chorei, irmã.

Fiquei com os filhos em minha volta, durante a chuva, e disse para eles que não perdemos nada, temos Deus por nós! Tenho saúde, vou trabalhar e conseguir tudo de novo!’”.

A missão precisa continuar

As irmãs da Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus expressam o seu carisma na acolhida, no respeito e na missão. Elas escutam e tentam resgatar a dignidade e o sonho do povo, fazendo com que ele se sinta amado por Deus. Segundo as freiras, a fé do povo nordestino “passa pela pele”.

E acrescentam: - “É um povo que, aparentemente, não tem princípios ostensivos de fé, mas é um pessoal que acredita muito em Deus.

Ele apenas não tem uma identidade muito visível com a Igreja; não é uma comunidade estruturada e organizada. A maioria nem participou da catequese, não defende uma doutrina segura, mas crê em Deus, que é vida, sustento e fortaleza”. “Nós agradecemos muito a Ajuda à Igreja que Sofre pelo auxílio que nos é enviado. Com essa ajuda, podemos nos manter. Pagamos nosso transporte e, muitas vezes, partilhamos com o povo.

Sem este suporte financeiro, não teríamos como sobreviver”, afirmam as irmãs. A Ajuda à Igreja que Sofre entende que vinte e dois mil reais por ano ainda é muito pouco pelo trabalho exercido e pelas necessidades que as Irmãs da Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus passam. Por isso, conta com o apoio dos amigos e benfeitores, para que a quantia possa ser aumentada, providenciando vida digna e com perspectivas para tal comunidade castigada no nordeste brasileiro.

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