Revista "MUNDO e MISSÃO"

História

dfffO CACHORRO que
dfdnão queria morrer

Contam que o deus Sol precisava vencer as estrelas para poder clarear a Terra novamente no dia seguinte. Por isso, se alimentava do sangue e dos corações de deuses menores, sacrificados pelos sacerdotes, que utilizavam afiados facões de pedra obsidiana (de origem vulcânica e preta com manchas brancas).

Nas proximidades de um vilarejo, vivia um deus que assumiu a forma de cachorro. Chamava-se Xólotl. Além da forma, ele também tinha a alegria, a lealdade e o carinho dos cachorrinhos.

Era pequeno, brincalhão e amigo das crianças. A sua inteligência fazia dele um animal extraordinário. Nenhum cachorro vive sem um dono, mas Xólotl, sim!

Buscava seu alimento como qualquer caçador e voltava à cidade onde seus melhores amigos eram as crianças. Xólotl era feliz. Ele também corria atrás das borboletas, dos coelhos e das lagartixas, mas não lhes fazia mal algum. Atacava apenas as feras para se alimentar.

Uma manhã de primavera, o astro-rei, faminto e sedento de sangue, ordenou a um dos seus sacerdotes: "Ao anoitecer hei de lutar com muitas estrelas. Preciso de alimento divino. Quero novos corações. Aí está Xólotl, esse cachorro alegre e brincalhão. É necessário que ele seja sacrificado".

O sacerdote prometeu obedecer ao Sol e foi em busca do pequeno deus da lagoa. Naque-le momento, o cachorro servia de guia a um cego. O sacerdote disse a Xólotl: "O deus Sol precisa beber o teu sangue com o seu calor, para vencer as estrelas".

O alegre Xólotl mudou de rosto, ficou triste e respondeu: "Não quero morrer, sou feliz e faço felizes os outros... Por que o grande deus Sol me quer?

  • Ele te escolheu porque necessita beber sangue de extraordinária qualidade. Xólotl insistiu:
  • Eu não desejo morrer!
  • É necessário que morra - exclamou em alta voz o sacerdote, mostrando um
    grande facão de obsidiana.
  • Bem - exclamou Xólotl - depois falaremos disso. Agora me deixe levar este ancião.Não serão tão impacientes nem tu nem o Sol para deixá-lo perdido no campo?!

O sacerdote teve que ceder e esperou Xólotl, sentado sobre uma pedra. Xólotl, fiel a sua palavra, retornou ao sacerdote. Este lhe ordenou severamente: "Vamos à pedra dos sacrifícios!".

- Eu não desejo morrer. Eu não devo morrer - exclamou Xólotl, com o rabo entra as pernas.

  • Mas morreras, porque assim o manda o deus Sol, o todo-poderoso.
  • Mas se eu não quero, não morrerei...
  • Ora essa... Como pode opor-se à vontade do deus Sol?
  • Rogando-lhe com as minhas lágrimas - respondeu Xólotl, que, de fato, derramava muitas lágrimas, que o Sol bebia rapidamente com seu calor.
  • Olha! - comentou o sacerdote - O deus Sol espera por você. Se ele bebe as suas lágrimas, o que dirá de seu sangue!
  • Não fará nada - disse Xólotl - porque eu não desejo morrer.

E dizendo essas palavras o cachorro saiu correndo sem que o facão o tocasse. Correu durante um bom tempo. Deixou um rastro de lágrimas que o Sol, indignado com sua rebeldia, absorvia rapidamente.

A notícia correu entre todos os sacerdotes daquela região. Como todos queriam satisfazer os desejos do sol, não deixavam viver em paz o cachorrinho. Xólotl já não podia jogar tranqüilo com os animais, nem acompanhar as crianças nem levar o cego à casa de seus filhos. Sempre andava fugindo de um canto a outro.

Um dia, três sacerdotes tentaram pegá-lo, mas, de repente, o cachorrinho desapareceu da vista deles. Xólotl tinha se transformado numa planta de milho que tinha uma só raiz, e da qual brotavam dois talhos.

Ninguém percebeu a transformação. Aliás, apenas dois meninos que procuravam comida naquele lugar. As crianças da comunidade mais próxima chamaram a planta de Xólotl em lembrança do cachorrinho-deus que não desejava morrer e fugia continuamente dos sacerdotes.

Certo dia, um sacerdote escutou uma criança mencionar o nome de Xólotl e perguntou: "O que é que se chama assim?". "Chamamos de Xólotl a certa planta de milho que existe na plantação vizinha. Esta planta tem talhos", respondeu a criança ingenuamente.

O sacerdote aproximou-se, com o facão preparado para dar o golpe na planta. Xólotl percebeu tudo e, se transformando num cachorro, fugiu novamente. Jogou-se na água transformando-se em peixe. Um grupo de rapazes que tomava banho na lagoa viu o acontecido. Como sabiam que Xólotl havia sido brincalhão, jogavam também com o peixinho. A fama dele chegou até os ouvidos dos sacerdotes, que seguiram para o lago munidos de redes de pesca e facões.

Logo que começaram a pescar, o coitado do cachorro ficou preso nas redes. Quando um dos sacerdotes o pegou e ia arrancar-lhe o coração, o deus Sol enviou um raio e deteve o braço que realizaria o sacrifício tão almejado.

Disse o Sol: "Deixem livre o cachorrinho que não quer morrer. Ele tem razão. É alegre e faz felizes as pessoas, os animais e as plantas".

Assim aconteceu. Xólotl voltou a ser ca-chorro, a jogar com as crianças, a conduzir o cego e a correr atrás das borboletas.

Mito de Xólotl é extraído
da tradição dos Huastecas que vivem
na região de Huejutca, México.

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