Revista "MUNDO e MISSÃO"

História

 


Memorial do Holocausto às crianças mortas pelos nazistas na
Terra Santa, Jerusalém

Na história da humanidade, ao lado do mal, tão evidenciado,
está presente também o bem, a ser, merecidamente, enaltecido

por Ana Maria Pisani

A memória do bem

ecordar significa opor-se conscientemente à indiferença e empenhar-se para construir um futuro diferente. Sem um cuidado intencional e meticuloso, a memória, seja do bem, quanto do mal, torna-se muito frágil, com o risco de perder-se no tempo e no esquecimento. O resgate da memória dos genocídios e dos crimes contra a humanidade, ocorridos nos últimos séculos é, antes de tudo, um ato de responsabilidade diante do mundo em que vivemos.


Pedra inaugural, na entrada do Jardim dos Justos de Todo o Mundo, em janeiro de 2003 em Milão - Itália

Não é possível desfazer o mal que foi feito, mas é um dever de todos evitar que ele se repita. Não se trata de recordar com interesse “histórico”, olhando só o passado estático, distante, desvinculado do momento presente. É preciso refletir sobre os acontecimentos, buscando evidenciar os ensinamentos universais que eles comportam.

Deve ser um exercício de memória produtiva, com efeitos educativos, ampliando o entendimento e a compreensão das situações contemporâneas, questionando a indiferença, o silêncio e a impotência diante de injustiças e perseguições, encorajando a assunção de verdadeira responsabilidade social.

Existiram, e continuam existindo, situações em que pessoas, enfrentando uma incompatibilidade moral diante da realidade, reagiram com a autonomia de pensamento e com a coragem civil, freqüentemente pondo em risco a própria vida, para salvar outras vidas, em defesa da dignidade e da verdade.


Grupo de alunos visitando o memorial e as árvores dedicadas aos que protegeram os judeus - Jerusalém

As marcas deixadas por esses atos podem se esvair, se mantidos no anonimato. Não existe só a responsabilidade pessoal de quem faz um gesto de bem, mas também a responsabilidade de quem é beneficiado e se empenha em divulgá-lo, como testemunho para as novas gerações e parte da consciência do mundo.

Justos e bons, pessoas normais

A definição de “bom” e “justo” pode sugerir a imagem de santo ou herói, no sentido clássico. Porém, qualquer pessoa, em qualquer lugar ou cultura, pode encontrar a força e a inteligência para ajudar outra pessoa em perigo. Como “ninguém é uma ilha”, a dor e o infortúnio do outro podem despertar compaixão em quem os presencia. Diante da perseguição, do ódio, do fanatismo ideológico, o homem pode descobrir dentro de si a força que o torna capaz de bloquear as desgraças da história.


Pietro Kuciukian

É a partir dessa mola propulsora interior e profunda que a pessoa pode alcançar uma energia inesperada para superar o medo que existe dentro de si. É o medo a arma mais eficaz utilizada pelos regimes totalitários para constranger à passividade, ao silêncio e à indiferença. É sempre a defesa da própria dignidade que impele a agir. Por isso, mesmo uma pessoa fraca, indefesa pode conseguir vencer o medo e tornar-se, subitamente, um grande obstáculo aos construtores do mal.


Gabriele Nissim, autor do livro "O Tribunal do Bem"

Na história contemporânea, inúmeros são os exemplos de indivíduos normais que, sensibilizados pelas condições das vítimas, foram capazes de defender a dignidade humana, diante de um projeto de aviltamento da sociedade, como a perseguição aos judeus e outros tantos genocídios.

Foram homens decentes num mundo indecente e merecem a definição de “justos e bons” porque, com a sua atitude corajosa e determinada, foram capazes de testemunhar uma resistência moral que permitiu salvar muitas vidas.

Assim, a tentativa dos “justos” de interromper o mal da sua época, mesmo com resultados parciais, mesmo sendo uma pequena luz incapaz de vencer a escuridão do mal, pode representar uma grande inspiração para as novas gerações e uma grande esperança de um mundo novo.

Iniciativas para preservar a memória do bem

Nascido na Polônia, em 1920, Moshe Bejski é reconhecido como o inventor da “Memória do Bem”. Sendo judeu, atravessou o calvário da perseguição nazista e foi salvo por Oscar Schindler, o alemão, proprietário de uma fábrica, que protegeu centenas de judeus dos campos de concentração, sobre o qual Spielberg fez o filme “A lista de Schindler”. Depois da guerra, emigrando para Israel, passou a perseguir um sonho: fazer com que cada gesto de humanidade, de ajuda, de socorro, durante os tempos do Holocausto, jamais fosse esquecido.


Moshe Bejski com sua mulher Erika

Tornou-se presidente da Comissão dos Justos, assumindo pessoalmente a responsabilidade de identificar todos os salvadores dos judeus. Idealizou o Jardim dos Justos, junto ao Museu Yad Vashem, em Jerusalém, onde, desde 1962, são homenageados e reconhecidos, cada um identificado com uma árvore, quase 20 mil não-judeus que, arriscando a própria vida, salvaram da morte os judeus condenados aos campos de extermínio. Seguindo essa inspiração, nasceu em Yerevan, capital da Armênia, por mérito de Pietro Kuciukian, o Jardim dos Justos, para recordar aqueles que salvaram os armênios do genocídio promovido pelos turcos entre 1894 e 1918, e aqueles que lutaram para defender a memória desse trágico período.

Kuciukian é médico cirurgião, filho de um sobrevivente desse genocídio. Também em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegóvina, por iniciativa de Svetlana Broz, nasceu um projeto que pretende recordar as pessoas que, durante a sanguinária “limpeza étnica” do início da década de 90, não hesitaram em ajudar membros de etnia oposta. Com esse Jardim, Svetlana, sobrinha do ex-ditador, Marechal Tito, médica voluntária durante o conflito bosniano, pretende homenagear os bósnios que salvaram sérvios, sérvios que apoiaram muçulmanos, croatas que ajudaram sérvios e assim por diante.

No início de 2000, o jornalista italiano Gabriele Nissin, com a participação de Pietro Kuciukian, fundou o Comitê Promotor da Floresta dos Justos, um grupo de pesquisa e de reflexão do qual fazem parte escritores, professores, estudiosos e pesquisadores que compartilham uma crença: diante do mal sempre é possível dizer sim ou não. Esse Comitê pretende promover a criação de parques, bosques, jardins, em toda parte do mundo, para formar uma floresta ideal, sem confins, que recorde o valor dos “justos” para a história da humanidade.

Além disso, visa estimular a pesquisa histórica e a elaboração teórica sobre os justos, em relação à história do século 20 e aos genocídios ainda presentes no mundo. Em janeiro de 2003, foi inaugurado em Milão, Itália, o Jardim dos Justos do mundo inteiro, que pretende recordar e homenagear, a cada ano, pessoas que, em todas as latitudes, combatem os crimes contra a humanidade.

A esperança para recomeçar

Os exemplos dos “justos” deixaram, nas próprias vítimas e nos sobreviventes, a idéia fundamental da esperança no ser humano. Esse sentimento foi expresso com precisão pela judia holandesa Etty Hillesum, em seu diário, antes de ser encaminhada à morte pelos nazistas: “Basta que exista uma só pessoa digna de assim ser chamada para que se possa acreditar ainda no ser humano...[ ] ainda que restasse apenas um alemão decente, este único mereceria ser defendido contra aquele bando de bárbaros e, graças a ele, não se teria o direito de condenar ao ódio um povo inteiro”.

O próprio Bejski conta que, antes de conhecer seu destino no campo de Auschwitz, sentiu um alívio ao encontrar o empresário Schindler, em quem reconheceu o único alemão a tratá-lo como gente e não como animal. Primo Levi, judeu italiano, deu a seus filhos o nome de Lorenzo e Lisa Lorenza em homenagem ao pedreiro italiano que, em Auschwitz, lhe deu um casaco para protegê-lo do frio e, durante meses, partilhou sua merenda com ele. Essa experiência única dera-lhe a sensação de ainda ser gente, revigorando-lhe as forças para resistir.

Assim, a lembrança do bem recebido transforma-se em ponto de partida para um recomeço, depois de um sofrimento extremo. Os indivíduos, como os grupos sociais e as nações, que sofreram o trauma de um genocídio, têm a necessidade de elaborar o luto, de afastar de si o ultraje e a humilhação: é preciso que o mundo os escute, reconheça a sua dor e faça um ato de justiça e de reparação.

A reconciliação

Os “justos” exercem um grande papel no processo de reconciliação entre as vítimas da violência e os povos de onde provieram seus perseguidores. Cada crime contra a humanidade deixa profundas feridas morais em seus sobreviventes, despertando neles um sentimento de acusação e de condenação coletiva aos cidadãos da nação opressora. Para muitos judeus, por muitos anos após o Holocausto, tornou-se insuportável voltar à Alemanha ou à Polônia. O culto à memória dos “justos”, como idealizou Bejski, permite a quebra da cadeia de ódio entre as vítimas e seus perseguidores.

O Jardim dos Justos é uma prova inquestionável que nem todos os alemães, poloneses, húngaros, romenos, trataram os judeus da mesma forma. A solidariedade que os “justos” tiveram com as vítimas torna-se o impulso para uma retomada do diálogo e para um novo relacionamento entre as novas gerações das duas partes. Só o fato de lembrar que durante o Holocausto houve atos de bondade de alemães em relação a judeus, torna mais plausível a idéia de recomeçar a ser judeu na Alemanha e fortalece o argumento de que um povo inteiro não pode carregar a culpa pelos atos desumanos de alguns líderes e do seu regime. Os poucos “justos” têm a força de salvar a reputação de uma nação que teve “injustos”.

A força infinita está no coração humano

A memória do bem, representada pelos milhares de árvores plantadas em Jerusalém, na Armênia, em Sarajevo e em Milão, permite contestar a crença histórica de que o mal seja uma força inevitável e absoluta na vida dos homens. Quem passeia entre essas árvores, meditando sobre os gestos das pessoas por elas simbolizadas, toma consciência de que cada ser humano pode ser um obstáculo ao mal, ao terror, à crueldade... mesmo sendo pequeno, frágil, insuficiente... mas, grande na coragem, na dignidade, na liberdade de expressar o inconformismo.

As desculpas que tentam justificar a impotência, o silêncio, o fatalismo, a indiferença, a omissão, caem por terra diante dos exemplos dos justos e dos bons. Muito além dos episódios nefandos do nazismo e do comunismo, de tantos abomináveis genocídios, além de atos terroristas e de guerras, além de todo o mal que se propaga pelo mundo inteiro, sempre haverá pessoas de boa vontade que terão fé e coragem para opor-se e resistir, em defesa da verdade, da dignidade e da solidariedade.

Fontes: Aggiornamenti Sociali, Avvenire e Gariwo.net

Sites:

• www.gariwo.net
• www.yad-vashem.org.il
• www.museodelleintolleranze.it
• www.us-israel.org/jsource/Holocaust/sugihara.html

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