Revista "MUNDO e MISSÃO"

História

500 ANOS DE CONTRADIÇÕES

Costanzo Donegana

A história da missão no Brasil, sobretudo na época colonial, é marcada por fortes contradições: cruz e espada, defesa dos índios, escravidão, dedicação heróica da vida ao evangelho. O olhar pode pender mais de um lado ou do outro. O especial oferece alguns elementos, incompletos, para a leitura.

A cristandade

"O reino de Portugal enquanto reino e enquanto monarquia está obrigado não só de caridade, mas de justiça, a procurar efetivamente a salvação dos gentios": são palavras do jesuíta Antônio Vieira, um dos personagens de destaque da história missionária do Brasil. Expressam claramente a situação em que aconteceu a evangelização no nosso país: o regime de cristandade.
A fé católica constituía uma característica essencial da monarquia portuguesa; Portugal nasceu como nação da luta contra os mouros, "os infiéis", na qual os motivos políticos e religiosos estavam profundamente misturados. Aquela guerra era uma cruzada. A expansão colonial aconteceu sob o signo da mesma mentalidade: os reis católicos, cumulados de privilégios pelos papas, tornaram-se os primeiros defensores e propagadores da fé católica nos territórios conquistados. Era uma sacralização do processo colonial, típica de uma mentalidade medieval, que ainda continuava e que marcou pesadamente a missão no Brasil (e também na América espanhola).
Concretização "natural" desta ideologia foi o padroado: o direito de administração dos negócios eclesiásticos concedido pelos papas aos soberanos portugueses (e espanhóis), que se tornavam, de fato, os chefes da Igreja do Brasil. A implantação da Igreja no país foi feita numa dependência estreita da Coroa portuguesa. Nenhum eclesiástico era destinado ao Brasil sem a autorização explícita do rei, que tinha o direito exclusivo de apresentação dos candidatos aos bispados e às paróquias; a Coroa devia cuidar da remuneração do clero, da construção e da conservação das igrejas e do envio de missionários para a propagação da fé católica.
Tudo isso incluía a interdição aos bispos de ter relacionamentos diretos com a Santa Sé, limitando-os à visita ad limina, que praticamente quase nunca acontecia. Além disso, o número dos missionários era determinado pela Coroa, que não se orientava pelo critério da evangelização, e sim da conquista, da expansão das fronteiras coloniais.
Houve casamento entre cruz e espada: o rei estava convicto ser seu dever implantar a fé católica como parte essencial de seu projeto colonizador e os homens de Igreja estavam persuadidos que os indígenas deviam passar pelo jugo da dominação portuguesa para chegar ao cristianismo. Ser português e ser católico era a mesma coisa. Assim, a religião se tornava instrumento da expansão e da unidade do império luso e dependia do poder civil. Os objetivos políticos e econômicos da coroa eram legitimados com motivações religiosas como instrumentos para a propagação da fé.
Todos os reis são de Deus, mas os outros reis são de Deus feitos pelos homens; o rei de Portugal é de Deus e feito por Deus - e por isso mais propriamente seu.
Não só são apóstolos todos os missionários, senão também os soldados e os capitães, porque todos vão buscar gentios e trazê-los ao lume da fé e ao grêmio da Igreja[...] Nas outras terras, uns são ministros do Evangelho e outros não; nas conquistas de Portugal todos são ministros do Evangelho.
Pe.Antônio Vieira

Reduzir

Nesta concepção, o mundo estava dividido em duas partes claramente separadas: bem e mal, Deus e demônio. Naturalmente, Deus estava do lado dos portugueses e apoiava o projeto colonizador da Coroa. Do outro lado ficavam os "pagãos", os não cristãos, "tiranizados do demônio" (Pe.Anchieta). Entre os dois reinos estava travada uma guerra, que na concepção medieval da cruzada, era apresentada como guerra santa. O manso Anchieta justificava assim a violência em função da evangelização: "Parece-nos, agora, que estão abertas as portas nesta capitania para a conversão dos gentios, se Deus Nosso Senhor quiser dar maneira com que sejam postos debaixo do jugo, porque para este gênero de gente não há melhor pregação do que a espada e vara de ferro".
A evangelização, neste contexto de dois mundo antagônicos, era encarada como conversão, como demonstração do cristianismo como único caminho de verdade e de bem e da falsidade e iniqüidade das tradições religiosas indígenas e africanas. Conversão significava perda da identidade cultural do índio, "reduzido" à cultura do português. Da cultura dos índios, em geral, o missionário tinha uma idéia negativa: "são mais animais que homens", dizia um dos seus grandes defensores, o capuchinho francês Martinho de Nantes. O índio devia passar de "brabo"a "manso", integrando-se no sistema colonial em todos seus aspectos: econômico, cultural e religioso. A bula Inter Coetera (1493), do papa Alexandre VI, traçava o programa da evangelização desde o início da colonização ibérica nestes termos: "A fé católica e a religião cristã [...] seja exaltada e em toda parte ampliada e dilatada, procure-se a salvação das almas, deprimam-se as nações bárbaras e sejam elas reduzidas à fé".
A forma mais evidente de redução foi o aldeamento, que apresentava também aspectos positivos, quando era localizado longe dos centros coloniais, preservando assim a independência dos indígenas (sobretudo na experiência jesuítica no Maranhão e no Paraguay); mas que os tirava do seu ambiente natural, para "reduzi-los" a uma forma de convivência artificial alheia a sua cultura.

Fidelidade ao evangelho

Seria, porém, errado fazer uma leitura puramente negativa da ação missionária da Igreja no Brasil na época colonial, limitando-se aos condicionamentos políticos e culturais que sofreu. Antes de tudo, os missionários escreveram páginas gloriosas na defesa da liberdade dos índios. O exemplo mais brilhante disso foi dado pelos jesuítas da província do Maranhão e pelos franciscanos do Pará nos séculos XVII e XVIII, ambos estendendo sua ação no interior da Amazônia. Embora ficando dentro do sistema colonial, Pe.Vieira e os outros missionários procuraram corrigi-lo nos seus aspectos mais negativos, defendendo a dignidade dos índios contra a cobiça e a violência dos colonizadores. A voz de Pe.Vieira trovejou muitas vezes contra os colonos: "Ah! Fazendas do Maranhão, que se estes mantos e estas capas se torcessem, haveriam de lançar sangue". Para realizar esta finalidade, conseguiram construir um sistema de aldeias praticamente independentes do poder colonial. A reação da metrópole veio duramente significativa: em 1661 foi expulso do Brasil Pe.Vieira com diversos companheiros; em 1760 a persecução de Pombal repetiu a condenação para todos os jesuítas (670).
Há também tentativas, embora tímidas e superficiais, de inculturação: uma língua comum, baseada no tupi, a "língua brasílica"; uso de músicas, instrumentos e danças indígenas na liturgia; teatros.Enfim, em geral, foi vivida uma história, na maioria anônima, de homens e mulheres que dedicaram toda sua existência à missão. "Como 'julgar' a vida destes homens? Como saber o que eles obraram em termos de amizade, sensibilidade pelo outro, abertura para a alteridade dos indígenas ou africanos, amor aos pobres, esperança, caridade, fé? Este aspecto da história, certamente o mais profundo, nos escapa" (E.Hoornaert).
Partimos, dia de Ascensão, da casa do Pau-Seco, ambos muito fracos ainda, porque a mim havia um só dia que me abandonaram as febres e o padre meu companheiro ainda trazia suas terçãs. E assim ele, de quando em quando, vinha em rede. Mas eu sempre vim a pé, posto que caindo pelo caminho por ser mui áspero e nós virmos molhados, mas acudiu Nosso Senhor, dando-nos forças para chegarmos, em obra de quinze dias, à Paraíba.
Pe.Francisco Pinto, jesuíta

África escrava

Por que os missionários, que muitas vezes levantaram sua voz para defender os índios, ficaram totalmente calados diante da escravidão dos negros? Dois jesuítas, que questionavam este sistema, foram repatriados para Europa como pessoas "escrupulosas". Pe.Vieira responde sem meios termos: "Sem escravidão não há Brasil". O sistema econômico da colônia e, conseqüentemente, da metrópole (cana de açúcar, minas, café) precisava absolutamente da mão de obra escrava para subsistir. Também as ordens religiosas religiosas aceitaram sem maiores problemas o sistema: suas casas possuíam escravos, às vezes em grande quantidade. Quando, em 1871, os beneditinos do Rio de Janeiro libertaram seus escravos, eles eram cerca de quatro mil.
A moral pregada pela Igreja pedia aos escravos de aceitar com paciência sua condição como vontade de Deus; caso contrário, eles estariam em estado de pecado.
Todos os escravos negros eram batizados, ou na África ou nos navios ou pouco depois de chegar ao Brasil: quem não era batizado era considerado "não gente", porque "pagão". Por isso, os africanos desejavam receber este sacramento, que lhe dava um lugar na sociedade. Desta prática nasceu o "sincretismo" presente em parte da população afro-brasileira até hoje.
Também na questão da emancipação dos escravos africanos a Igreja foi longe de (tradução do italiano: è stata lontana dal) assumir uma atitude profética. A mentalidade tradicionalista e a o fato de possuir escravos lhe impediram de deixar-se guiar pela a potencialidade renovadora do Evangelho na solução do problema. Só em 1871 encontramos vozes claras de alguns bispos em favor da emancipação. As palavras fortes e tristes de Joaquim Nabuco resumem toda a questão: "Entre nós o movimento abolicionista nada deve, infelizmente, à Igreja[...] Nenhum padre jamais tentou impedir um leilão de escravos nem condenou o regime religioso das senzalas. A abolição teria sido obra de outro alcance moral, se tivesse sido feita do altar, pregada do púlpito, prosseguida de geração em geração pelo clero e pelos educadores de consciência".

Só um meio havia eficaz e efetivo para verdadeiramente se reduzirem, que era concedendo-lhes S.M. e todos os seus senhores espontaneamente, liberal e segura liberdade. Porém, esta mesma liberdade assim considerada seria a total destruição do Brasil.
Pe.Antônio Vieira

Porque, para os que vivem nas trevas da gentilidade, costuma a Divina Providência usar de sua misericórdia com ele, mandando-os alumiar com a luz da fé pelos operários do Santo Evangelho[...] E também permite sua divina misericórdia que muitos destes gentios sejam trazidos (escravos, n.d.r.) às terras dos católicos, para os ensinarem e doutrinarem, e lhes tirarem os ritos gentílicos, que lá tinham aprendido com seus pais".
Nuno Marques Pereira

Por quanto me foi dado averiguar, eles só têm um objetivo em mira, a saber, o seu lucro e vantagem. Chegam a esboçar um gesto de surpresa quando se lhes tenta despertar algum escrúpulo[...] dizendo ser maravilhosa a sorte dos negros comprados e exportados[...] porque assim seriam conduzidos ao cristianismo[...] Admitindo-se embora, a vantagem decorrente do tráfico, a saber, a conversão dos negros, seria muito melhor irem os zelosos missionários àquelas regiões para difundir o cristianismo, ficando vedado o tráfico.
Pe.Luiz de Molina

Missionários leigos

Muitas vezes, falando da evangelização do Brasil, o interesse se restringe à ação dos religiosos e do clero; os leigos ficam em segundo plano. Mas é mesmo a estes que deve ser atribuído o mérito maior da difusão e conservação da religião católica no nosso país. A partir dos beatos e ermitães: contemplativos, penitentes, pobres, às vezes peregrinos, outras zelando da imagem de um santo numa capela, que se tornava santuário, meta de romarias. Sua influência sobre o povo foi enorme, determinando alguns dos traços fundamentais da religiosidade brasileira até hoje.
Muitas vez ligadas a esses carismáticos se desenvolveram as confrarias (irmandades e ordem terceiras), grupos de pessoas que se reuniam e organizavam numa associação destinada a promover a devoção de um santo num oratório, ermida ou capela. Era um culto essencialmente leigo, que prescindia da presença do clero.

"Muita reza, pouca missa Muito santo, pouco padre".

Também os escravos tinham suas confrarias, nas quais recuperavam sua dignidade oprimida. O sistema eclesiástico oficial assumiu uma atitude prevalentemente repressiva para com estas associações, considerando a religião popular como supersticiosa, ignorante, fanática, perigosa. A paróquia tornou-se lugar de controle e de integração no sistema oficial destas expressões religiosas espontâneas.
Mas o elemento talvez mais decisivo na formação do cristianismo vivido ainda hoje no Brasil foi a casa grande e a senzala e a fazenda, na qual a responsabilidade pela educação religiosa estava nas mãos da dona da casa. Ela exercia esta função sobretudo em ocasião das rezas no oratório doméstico ou na capela do engenho ou das festas e desobrigas. Nisso era coadjuvada pelo capelão, sacerdote não nomeado pelo bispo como o vigário e que vivia às margens do sistema eclesiástico, acompanhando os navios negreiros, as expedições dos bandeirantes e os "descimentos dos índios", servindo as confrarias e os engenhos de açúcar. Ele representava uma religião familiar ( a mais vivida na colônia), enquanto o bispo e o vigário eram imagem da Igreja oficial, distante. Ele não tinha uma autoridade, mas dependia de quem lhe pedia os serviços religiosos.
Mais que a senhora branca, porém, que ficava numa posição formal e não conseguia entrar no universo cultural da senzala, foi a mulher escrava (índia, negra, mestiça, mulata) que transmitiu o evangelho de geração em geração. A passagem aconteceu de mulher para mulher: foi uma "tradição feminina"(E.Hoornaert) e esta marca continua ainda nos cultos afro-brasileiros e indo-brasileiros e no próprio culto católico não oficial.

Nota: esta matéria deve muito aos trabalhos de E.Hoornaert e R.Azzi.

(A entrevista seguinte deve ser colocada nas últimas duas páginas, em destaque)
Boa Nova aos pobres

Paulo Suess - Presidente da Associação Internacional de Missiologia (I.A.M.S.)

Que cristianismo veio ao Brasil?

Devemos nos perguntar: este cristianismo andava ligado ao poder ou era independente? Porque na mesma época em que Anchieta veio ao Brasil, Francisco Xavier foi ao Japão e, um pouco mais tarde, Ricci para a China. No regime da cristandade missão era sub-missão ao poder político e procurou fazer a evangelização na sombra deste poder. Fora da cristandade, no Japão, na China, os missionários não tiveram este apóio. O único apóio era a evidência, a atração própria do evangelho. Se comparamos a catecismo de Acosta, em regime de cristandade e o de Ricci, em regime de não aliança com o poder, são muito diferentes. O evangelho é sempre avesso ao poder, à institucionalização. É claro que há circunstâncias que não se podem mudar, naquele momento não havia poder de escolha, mas foi uma certa tragédia. Hoje, porém, temos escolhas na evangelização, porque é um projeto que nunca será totalmente realizado, que nenhum partido oferece, mas é sempre uma proposta nova, crítica frente a todos os projetos, partidos, sistemas, instituições que procuram também trabalhar em benefício da humanidade. O evangelho nunca se identifica com nenhum partido, com nenhuma instituição.

Como lemos hoje o fenômeno das "reduções" na missão colonial?

Quando falamos dos 500 anos, falamos sempre de uma ruptura para os povos indígenas, entre um tempo anterior, que procuramos resgatar na memória e um tempo depois, caracterizado por um projeto específico (colonial). O tempo anterior é muito importante para a evangelização, porque a história de cada povo é a história de sua salvação. É importante ler esta história que foi negligenciada, barrada, esquecida e a partir dela construir a história da salvação desses povos. A evangelização hoje nos obriga a repensar esta conexão: o evangelho é ruptura com o pecado, mas não ruptura com a história de um povo, com a sua cultura. Como então podemos evangelizar enfocando a ruptura com o pecado e a continuidade com a cultura, com a história? Esta é a questão chave, para mim.
A partir disso, abre-se o caminho para não reduzir o outro, mas para engrandecê-lo, para fazer desabrochar a árvore do outro. O evangelho engrandece as culturas, não as apequena. A evangelização é fazer desabrochar as potencialidades que existem nas culturas, em cada projeto de vida.

Qual é o papel da Igreja na criação de um Brasil intercultural?

O Brasil é pluricultural, não intercultural, porque a interculturalidade pressupõe já uma compreensão recíproca, a busca de uma compreensão, comunicação entre as culturas. Na Igreja depois do Concílio era muito importante descobrir o específico, isto é, não temos uma evangelização que abrange todas as culturas ao mesmo tempo; a evangelização tem que se tornar específica. Por exemplo, nasceu a pastoral indígena, a pastoral afro, a pastoral da terra: a partir da especificidade de cada grupo elas ganharam em raízes, em força.
A interculturalidade é uma meta; a partir da pluriculturalidade, das diferentes culturas que estão no Brasil podemos construir um projeto, que não destrói, porém, os projetos específicos, mas que soma. Só a partir da própria identidade, cada grupo humano ganha força dentre deste leque. Estamos em busca da universalidade na qual estão as diferentes culturas, que não exclui ninguém, ao contrário da globalização, que também tem a pretensão de chegar aos confins do mundo, mas com a bandeira da exclusão, enquanto a universalidade do evangelho acolhe todos, mas em suas especificidades.
Nós no Brasil queremos construir a unidade antes da identidade. Uma unidade sem as raízes específicas de cada grupo é superficial, mais formal do que real. Quem sabe quem ele é pode dialogar com o outro, pode se juntar, se articular, para construir uma unidade maior.

Os condicionamentos do passado continuam até hoje?.

Há certas situações, condicionamentos históricos, que não se podem reverter. Sempre podemos partir do pressuposto que as circunstâncias da história deixaram alguma herança em nós, talvez não adequada ao evangelho. Mas a questão verdadeira é: o que fazemos com aquilo que os outros fizeram de nós? Hoje temos a separação de Igreja-Estado com a possibilidade de uma presença conforme nossa opções. Estamos no Ano Jubilar, que é boa nova para os pobres, a imitação daquilo que anunciou Jesus na sinagoga de Nazaré. A pergunta para nós, portanto, é: qual é esta boa nova para os pobres, que nós podemos anunciar a partir desta fé enraizada, presente na cultura, às vezes mais do que por uma opção pessoal de cada um dos batizados? Nossa tarefa é mostrar a amabilidade de Deus junto aos que não são amados pelo sistema neste momento histórico com nossa presença e nosso anúncio de esperança. Nós respondemos às obviedades deste momento, como o mercado onde tudo é comprado, vivendo a gratuidade. Isso é urgente, porque o número dos pobres e excluídos aumenta sempre mais. Devemos nos transformar para a simplicidade: sermos mais leves, mais transparentes na nossa presença, nas nossas estruturas.

Como vê as celebrações dos 500 anos?

Os 500 anos são uma realidade que interessa mais os colonizadores e seus sucessores, a missão oficial do que os outros que ainda restaram, os índios e os afro. Se sentarmos juntos a uma mesa e falarmos: "Vamos fazer algo sobre isso, como vamos celebrar este evento?", deveríamos pensar o projeto de cada grupo específico, deveríamos nos empenhar no anúncio da boa nova aos pobres, porque celebramos os 500 anos no interior do Ano Jubilar. O que diz ao pobres a boa nova? Também em nossas instituições, nas nossas igrejas não podemos fazer só uma opção pelos pobres, mas com os pobres, uma participação, que é muito difícil. Mas precisamos que eles também participem nestas decisões, que nós não decidamos por eles. Devemos abrir portas, de maneira que os pobres possam entrar e se sentir bem; isso exige de nós uma transparência, uma conversão para o mais simples. Quanto mais formos simples, mais verdadeira será a conversão. Talvez os pobres tenham as melhores idéias sobre a evangelização, sobre aquilo que pode ser feito na Igreja e pela Igreja. E isso questiona as nossas elites, que tanto no sistema político como no sistema eclesial falam pelos pobres, fazem projetos para os pobres, mas dificilmente se sentam junto a eles.

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