Revista "MUNDO e MISSÃO"
História
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500 ANOS DE CONTRADIÇÕES Costanzo Donegana A história da missão no Brasil, sobretudo na época colonial, é marcada por fortes contradições: cruz e espada, defesa dos índios, escravidão, dedicação heróica da vida ao evangelho. O olhar pode pender mais de um lado ou do outro. O especial oferece alguns elementos, incompletos, para a leitura. A cristandade "O reino de Portugal enquanto reino e enquanto monarquia está
obrigado não só de caridade, mas de justiça, a procurar
efetivamente a salvação dos gentios": são palavras
do jesuíta Antônio Vieira, um dos personagens de destaque
da história missionária do Brasil. Expressam claramente
a situação em que aconteceu a evangelização
no nosso país: o regime de cristandade. Reduzir Nesta concepção, o mundo estava dividido em duas partes
claramente separadas: bem e mal, Deus e demônio. Naturalmente, Deus
estava do lado dos portugueses e apoiava o projeto colonizador da Coroa.
Do outro lado ficavam os "pagãos", os não cristãos,
"tiranizados do demônio" (Pe.Anchieta). Entre os dois
reinos estava travada uma guerra, que na concepção medieval
da cruzada, era apresentada como guerra santa. O manso Anchieta justificava
assim a violência em função da evangelização:
"Parece-nos, agora, que estão abertas as portas nesta capitania
para a conversão dos gentios, se Deus Nosso Senhor quiser dar maneira
com que sejam postos debaixo do jugo, porque para este gênero de
gente não há melhor pregação do que a espada
e vara de ferro". Fidelidade ao evangelho Seria, porém, errado fazer uma leitura puramente negativa da ação
missionária da Igreja no Brasil na época colonial, limitando-se
aos condicionamentos políticos e culturais que sofreu. Antes de
tudo, os missionários escreveram páginas gloriosas na defesa
da liberdade dos índios. O exemplo mais brilhante disso foi dado
pelos jesuítas da província do Maranhão e pelos franciscanos
do Pará nos séculos XVII e XVIII, ambos estendendo sua ação
no interior da Amazônia. Embora ficando dentro do sistema colonial,
Pe.Vieira e os outros missionários procuraram corrigi-lo nos seus
aspectos mais negativos, defendendo a dignidade dos índios contra
a cobiça e a violência dos colonizadores. A voz de Pe.Vieira
trovejou muitas vezes contra os colonos: "Ah! Fazendas do Maranhão,
que se estes mantos e estas capas se torcessem, haveriam de lançar
sangue". Para realizar esta finalidade, conseguiram construir um
sistema de aldeias praticamente independentes do poder colonial. A reação
da metrópole veio duramente significativa: em 1661 foi expulso
do Brasil Pe.Vieira com diversos companheiros; em 1760 a persecução
de Pombal repetiu a condenação para todos os jesuítas
(670). África escrava Por que os missionários, que muitas vezes levantaram sua voz para
defender os índios, ficaram totalmente calados diante da escravidão
dos negros? Dois jesuítas, que questionavam este sistema, foram
repatriados para Europa como pessoas "escrupulosas". Pe.Vieira
responde sem meios termos: "Sem escravidão não há
Brasil". O sistema econômico da colônia e, conseqüentemente,
da metrópole (cana de açúcar, minas, café)
precisava absolutamente da mão de obra escrava para subsistir.
Também as ordens religiosas religiosas aceitaram sem maiores problemas
o sistema: suas casas possuíam escravos, às vezes em grande
quantidade. Quando, em 1871, os beneditinos do Rio de Janeiro libertaram
seus escravos, eles eram cerca de quatro mil. Só um meio havia eficaz e efetivo para verdadeiramente se reduzirem,
que era concedendo-lhes S.M. e todos os seus senhores espontaneamente,
liberal e segura liberdade. Porém, esta mesma liberdade assim considerada
seria a total destruição do Brasil. Porque, para os que vivem nas trevas da gentilidade, costuma a Divina
Providência usar de sua misericórdia com ele, mandando-os
alumiar com a luz da fé pelos operários do Santo Evangelho[...]
E também permite sua divina misericórdia que muitos destes
gentios sejam trazidos (escravos, n.d.r.) às terras dos católicos,
para os ensinarem e doutrinarem, e lhes tirarem os ritos gentílicos,
que lá tinham aprendido com seus pais". Por quanto me foi dado averiguar, eles só têm um objetivo
em mira, a saber, o seu lucro e vantagem. Chegam a esboçar um gesto
de surpresa quando se lhes tenta despertar algum escrúpulo[...]
dizendo ser maravilhosa a sorte dos negros comprados e exportados[...]
porque assim seriam conduzidos ao cristianismo[...] Admitindo-se embora,
a vantagem decorrente do tráfico, a saber, a conversão dos
negros, seria muito melhor irem os zelosos missionários àquelas
regiões para difundir o cristianismo, ficando vedado o tráfico. Missionários leigos Muitas vezes, falando da evangelização do Brasil, o interesse
se restringe à ação dos religiosos e do clero; os
leigos ficam em segundo plano. Mas é mesmo a estes que deve ser
atribuído o mérito maior da difusão e conservação
da religião católica no nosso país. A partir dos
beatos e ermitães: contemplativos, penitentes, pobres, às
vezes peregrinos, outras zelando da imagem de um santo numa capela, que
se tornava santuário, meta de romarias. Sua influência sobre
o povo foi enorme, determinando alguns dos traços fundamentais
da religiosidade brasileira até hoje. "Muita reza, pouca missa Muito santo, pouco padre". Também os escravos tinham suas confrarias, nas quais recuperavam
sua dignidade oprimida. O sistema eclesiástico oficial assumiu
uma atitude prevalentemente repressiva para com estas associações,
considerando a religião popular como supersticiosa, ignorante,
fanática, perigosa. A paróquia tornou-se lugar de controle
e de integração no sistema oficial destas expressões
religiosas espontâneas. Nota: esta matéria deve muito aos trabalhos de E.Hoornaert e R.Azzi. (A entrevista seguinte deve ser colocada nas últimas duas páginas,
em destaque) Paulo Suess - Presidente da Associação Internacional de Missiologia (I.A.M.S.) Que cristianismo veio ao Brasil? Devemos nos perguntar: este cristianismo andava ligado ao poder ou era independente? Porque na mesma época em que Anchieta veio ao Brasil, Francisco Xavier foi ao Japão e, um pouco mais tarde, Ricci para a China. No regime da cristandade missão era sub-missão ao poder político e procurou fazer a evangelização na sombra deste poder. Fora da cristandade, no Japão, na China, os missionários não tiveram este apóio. O único apóio era a evidência, a atração própria do evangelho. Se comparamos a catecismo de Acosta, em regime de cristandade e o de Ricci, em regime de não aliança com o poder, são muito diferentes. O evangelho é sempre avesso ao poder, à institucionalização. É claro que há circunstâncias que não se podem mudar, naquele momento não havia poder de escolha, mas foi uma certa tragédia. Hoje, porém, temos escolhas na evangelização, porque é um projeto que nunca será totalmente realizado, que nenhum partido oferece, mas é sempre uma proposta nova, crítica frente a todos os projetos, partidos, sistemas, instituições que procuram também trabalhar em benefício da humanidade. O evangelho nunca se identifica com nenhum partido, com nenhuma instituição. Como lemos hoje o fenômeno das "reduções" na missão colonial? Quando falamos dos 500 anos, falamos sempre de uma ruptura para os povos
indígenas, entre um tempo anterior, que procuramos resgatar na
memória e um tempo depois, caracterizado por um projeto específico
(colonial). O tempo anterior é muito importante para a evangelização,
porque a história de cada povo é a história de sua
salvação. É importante ler esta história que
foi negligenciada, barrada, esquecida e a partir dela construir a história
da salvação desses povos. A evangelização
hoje nos obriga a repensar esta conexão: o evangelho é ruptura
com o pecado, mas não ruptura com a história de um povo,
com a sua cultura. Como então podemos evangelizar enfocando a ruptura
com o pecado e a continuidade com a cultura, com a história? Esta
é a questão chave, para mim. Qual é o papel da Igreja na criação de um Brasil intercultural? O Brasil é pluricultural, não intercultural, porque a interculturalidade
pressupõe já uma compreensão recíproca, a
busca de uma compreensão, comunicação entre as culturas.
Na Igreja depois do Concílio era muito importante descobrir o específico,
isto é, não temos uma evangelização que abrange
todas as culturas ao mesmo tempo; a evangelização tem que
se tornar específica. Por exemplo, nasceu a pastoral indígena,
a pastoral afro, a pastoral da terra: a partir da especificidade de cada
grupo elas ganharam em raízes, em força. Os condicionamentos do passado continuam até hoje?. Há certas situações, condicionamentos históricos, que não se podem reverter. Sempre podemos partir do pressuposto que as circunstâncias da história deixaram alguma herança em nós, talvez não adequada ao evangelho. Mas a questão verdadeira é: o que fazemos com aquilo que os outros fizeram de nós? Hoje temos a separação de Igreja-Estado com a possibilidade de uma presença conforme nossa opções. Estamos no Ano Jubilar, que é boa nova para os pobres, a imitação daquilo que anunciou Jesus na sinagoga de Nazaré. A pergunta para nós, portanto, é: qual é esta boa nova para os pobres, que nós podemos anunciar a partir desta fé enraizada, presente na cultura, às vezes mais do que por uma opção pessoal de cada um dos batizados? Nossa tarefa é mostrar a amabilidade de Deus junto aos que não são amados pelo sistema neste momento histórico com nossa presença e nosso anúncio de esperança. Nós respondemos às obviedades deste momento, como o mercado onde tudo é comprado, vivendo a gratuidade. Isso é urgente, porque o número dos pobres e excluídos aumenta sempre mais. Devemos nos transformar para a simplicidade: sermos mais leves, mais transparentes na nossa presença, nas nossas estruturas. Como vê as celebrações dos 500 anos? Os 500 anos são uma realidade que interessa mais os colonizadores e seus sucessores, a missão oficial do que os outros que ainda restaram, os índios e os afro. Se sentarmos juntos a uma mesa e falarmos: "Vamos fazer algo sobre isso, como vamos celebrar este evento?", deveríamos pensar o projeto de cada grupo específico, deveríamos nos empenhar no anúncio da boa nova aos pobres, porque celebramos os 500 anos no interior do Ano Jubilar. O que diz ao pobres a boa nova? Também em nossas instituições, nas nossas igrejas não podemos fazer só uma opção pelos pobres, mas com os pobres, uma participação, que é muito difícil. Mas precisamos que eles também participem nestas decisões, que nós não decidamos por eles. Devemos abrir portas, de maneira que os pobres possam entrar e se sentir bem; isso exige de nós uma transparência, uma conversão para o mais simples. Quanto mais formos simples, mais verdadeira será a conversão. Talvez os pobres tenham as melhores idéias sobre a evangelização, sobre aquilo que pode ser feito na Igreja e pela Igreja. E isso questiona as nossas elites, que tanto no sistema político como no sistema eclesial falam pelos pobres, fazem projetos para os pobres, mas dificilmente se sentam junto a eles. |
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