Revista "MUNDO e MISSÃO"

Globalização

Davos fez uma diferença

Marcos Peixoto Mello Gonçalves

Depois da Rodada do Milênio - Conferência Ministerial da OMC (Organização Mundial do Comércio) ocorrida na cidade americana de Seattle, a estância de esportes de inverno de Davos, nos Alpes suíços, reuniu a nata da elite empresarial e política do planeta para debater, entre os dias 27 de janeiro e 1º de fevereiro passados, vários temas agendados pelo Fórum Econômico Mundial, nome da fundação sem fins lucrativos que organiza anualmente este tipo de encontro, sem paralelo no mundo.
O tema central proposto à discussão para o início do novo milênio teve o enigmático título de "Novos começos: fazendo uma diferença". Os estudos foram feitos a partir de 12 áreas de análise, a saber: 1. mudando o mundo como nós o conhecemos; 2. meio ambiente; 3. educação; 4. sociedade de valores; 5. a economia com a Internet/novas tecnologias; 6. redefinição do papel dos negócios, governos e sociedades civis; 7. a paz no século 21 e conflitos civis; 8. a revolução "G" (genes e genoma); 9. a geopolítica pós-Kosovo; 10. a adoção de políticas saudáveis em um mundo unipolarizado; 11. a manutenção do aspecto pessoal; 12. o desafio de manter a diversidade no século 21.
A própria seleção dos assuntos e sua distribuição já é reveladora das preocupações dos participantes do chamado "fórum mais poderoso do mundo". Vale, pois, saber quais os tópicos relativos ao desdobramento de alguns temas. Assim, o tema "atualidades" considerou: a- destino do universo: expansão ou colapso; b- o futuro da religião; c- meio ambiente; d- a saúde dos dirigentes empresariais; e- Kosovo; f- Timor Leste. O tema "questões globais" tratou: a- saúde e crescimento no mundo; b- liderança no século 21; c- estratégias da armadilha global; d- Rodada do Milênio; e- o superpoder dos EUA; f- dilema da alimentação; g- China no século XXI; h- ONGs; h- conflitos étnicos; i- geopolítica do comércio de drogas; j- trabalho infantil. O tema "negócios" debateu: a- a corrida na Internet; b- a guerra por talentos no mundo global; c- criatividade e inovação nas empresas; d- o escritório sem papel e outros mitos; e- o mundo se encontra na Web. O tema "economia" estudou: a- perspectivas, papéis na nova economia, o mercado financeiro no século 21; b- sindicalismo e globalização; c- privatizações; d- bancos centrais; e- dolarização nos mercados emergentes; f- lavagem de dinheiro; g- crescimento; h- euro, dólar e iene; i- emprego na nova economia. O tema "prioridades nacionais e regionais" discutiu: a- Ásia; b- Japão; c- a integração da China; d- África e Oriente Médio; e- América do Sul - Brasil; f- Mercosul; g- Europa; h- Rússia; i- Kosovo/Bósnia; j- Cáucaso; k- América do Norte; l- México. O tema "ciência, medicina, vida e cultura" abordou: a- genoma; b- biotecnologia; c- eureka: o que falta descobrir?; d- as relações do cérebro com o corpo; e- saúde; f- doenças da alma; g- estresse/coração; h- envelhecimento ativo; i- arte; j- beleza; k- música; l- líderes culturais; m- ameaças à vida privada; n- o valor da educação.
Com respeito aos assuntos econômicos, destacaram-se os problemas relativos ao impacto da globalização em mercados emergentes, à regulamentação dos mercados financeiros e às novas tecnologias.
O encontro, para se ter uma idéia da sua relevância, segundo os jornais brasileiros, reuniu 1000 executivos, 300 líderes políticos, 33 chefes de Estado ou governo, 650 jornalistas e 200 acadêmicos, incluindo vários ganhadores do prêmio Nobel. O presidente Bill Clinton, o líder palestino, Yasser Arafat, o primeiro ministro de Israel, Yasser Arafat, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, acompanhados de produtores musicais, de diretores de cinema e de atores lá estiveram. O Brasil fez-se representar pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga, pelo governador do Estado do Rio, Anthony Garotinho e outros, inclusive representantes da Comissão de Justiça e Paz e do MST.
A novidade foi que, após trinta anos de encontros, pela primeira vez, 48 organizações não governamentais - ONGs - foram convidadas para participar da reunião, entre elas o respeitado Greenpeace, associação especializada na defesa do meio ambiente. O convite às ONGs foi, obviamente, um avanço obtido em razão dos protestos ocorridos por ocasião da Rodada do Milênio em Seattle. De modo geral, a denúncia das ONGs, é que a globalização é feita especialmente pelas multinacionais e em benefício delas próprias, agravando as desigualdades entre as nações. De fato, os povos dos países ricos, sedes das multinacionais, também têm se beneficiado, proporcionalmente, muito mais do que os povos dos países pobres. Dados apontam que a renda per cápita dos habitantes dos primeiros, comparada com a dos moradores dos segundos, desde o início até o fim do século, aumentou de dez para sessenta vezes, agravando a desigualdade econômica e social.
Apesar do convite oficial feito a algumas ONGs, muitas não foram convidadas e tentaram entrar no centro de convenções do Fórum, sendo impedidas pela polícia. Pelo menos quatro policiais ficaram feridos. As manifestações reuniram entre 500 e 1.300 manifestantes, coincidindo com a presença de Bill Clinton, que discursou. O presidente do Fórum, Klauss Schwab, tentou evitar as manifestações, conversando com lideranças de algumas ONGs. O presidente da Confederação Camponesa da França, José Bové, disse que há dois fóruns em Davos. "Um é o público. O outro, não oficial, abriga os contatos e as conversas que têm lugar atrás das cortinas entre as multinacionais e os chefes de Estado e de governo."
Em seu discurso, Bill Clinton defendeu energicamente a vinculação entre negociações comerciais e a defesa do meio ambiente e dos direitos trabalhistas, fazendo eco às reivindicações de rua ocorridas nos protestos de Seattle. Referindo-se àquelas manifestações, qualificou-as como "um chamado para despertar", expressão também utilizada pelo líder sindical norte-americano John Sweeney, presidente da central AFL-CIO. Clinton propôs então um novo ciclo de negociações comerciais no âmbito da Organização Mundial do Comércio, que leve em conta um "melhor tratamento para os trabalhadores" e as "políticas ambientais". Exemplificou, dizendo que a redução de 1/3 das barreiras agrícolas da União Européia permitiria "benefícios econômicos" de US 4 bilhões ao ano para os países exportadores de produtos agrícolas.
Segundo Clinton, "A OMC está bem desenvolvida, mas para tratar de comércio" e não há um outro fórum mundial que trate dos assuntos de forma integrada, comércio, meio ambiente e direitos trabalhistas. Daí a razão dos protestos de Seattle. "Os manifestantes sentiram que não tinham voz" para seus temas específicos. E reconheceu, ainda, que a economia moderna agrava a desigualdade, cobrando, entretanto, dos empresários e governos que não escondessem, mas procurassem explicar essa realidade.
Será que a elite brasileira, que detém uma das maiores concentrações de renda do mundo, tem moral para explicar esse fato?
Marco Peixoto M. Gonçalves é professor da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie

Artigo elaborado com base nos noticiários de jornais brasileiros, especialmente as matérias de Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, de onde provém as citações entre aspas.

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