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Exigências radicais da missão
Sérgio Bradanini
A pessoa de Jesus está sempre no centro do destino humano: a neutralidade
é impossível; por este motivo ele é tremendamente
exigente com seus discípulos. De fato, quando Cristo apresenta
sua missão (Mt 10,34-39), Ele ocupa o lugar central. Antes de tudo,
o evangelista expõe o sentido autêntico da missão
de Jesus (34-36); em seguida a confirma, mediante a citação
profética de Miquéias 7,6; enfim, as mesmas características
são aplicadas aos discípulos.
Em primeiro lugar, o texto de Mateus mostra que, com Jesus, chegou ao
mundo o juízo divino (vv.34-36), pois Ele mesmo é sinal
de contradição que separa e divide em vez de unir. Anteriormente,
vimos que os discípulos deviam pregar a paz do Reino (10,13); agora
fica claro que isso acontece, porém, através de conflitos
e decisões dilacerantes. O símbolo usado por Jesus é
a espada de dois gumes da Palavra de Deus que julga as nações.
Trata-se da espada/palavra que penetra profundamente no tecido das relações
humanas pervertidas e exatamente aí corta o mal que estraga os
homens, pois segundo a profecia de Miquéias 7, 6, "o mal e
o pecado" do mundo atingiram todas as relações humanas,
até as mais íntimas e familiares. É interessante
notar, porém, que Jesus antes de aplicar aos seus discípulos
a expressão profética de Miquéias - "Os inimigos
do homem são as pessoas de sua casa" -, Ele a aplica a si
mesmo. Todo leitor do Evangelho sabe que Jesus veio entre os seus, mas
estes não o receberam (cfr. Mt 13,53-58 e Jo 1,11); os seus próprios
discípulos o venderam, negaram e abandonaram; o seu povo, juntamente
com seus chefes políticos e religiosos, para condená-lo
e eliminá-lo da face da terra, fizeram aliança até
com os pagãos...
Em segundo lugar, Jesus pede aos discípulos uma adesão total
e indivisível à sua pessoa, exigindo uma "separação"
até nas relações mais íntimas e uma renúncia
radical a todas as seguranças possíveis. Com efeito, se
antes o discípulo devia superar o medo dentro de si, agora é
chamado a superar as relações afetivas e familiares, quando
estas podem mantê-lo preso, dificultando dessa forma o anúncio
do Evangelho. Para "ser digno" (expressão repetida três
vezes em 10, 37-38) da missão, totalmente disponível, o
discípulo não pode ficar preso a nenhum vínculo,
nem mesmo ao das ligações de parentesco. O que pode travar
efetivamente o anúncio e a missão não é somente
a ameaça dos perseguidores, das autoridades ou dos tribunais, ou
até o medo diante de uma possível morte violenta. O autêntico
discípulo deve estar pronto a enfrentar também a separação
da própria comunidade e da própria família que, evidentemente,
o faz sofrer muito. O evangelista deixa transparecer que isso está
acontecendo também em sua comunidade: por causa da fidelidade à
pessoa de Jesus e à sua mensagem, um irmão se separa do
outro, os filhos se separam dos pais, etc. No entanto, a "dignidade"
do discípulo aparece em toda a sua clareza e profundidade, quando
"carrega sua própria cruz". A disponibilidade alcança
aqui seu ponto culminante, pelo fato de participar da forma mais plena
possível, da mesma experiência de dilaceração
e de sofrimento do Mestre. Somente assim o discípulo desempenha
sua missão na qualidade de testemunha fiel. Da mesma forma, toda
comunidade eclesial que adere a Jesus, assumindo livremente o mesmo destino
da Cruz, entra na lógica da gratuidade do Reino, onde os vencidos
são vencedores e os que perdem a vida terrena, ganham a vida eterna.
Mt 10, 34-39
34Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer
não a paz, mas a espada.
35Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha
e a mãe, entre a nora e a sogra,
36e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria
casa.
37Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é
digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim, não é digno
de mim.
38Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é
digno de mim.
39Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele
que a perder, por minha causa, reencontra-la-á.
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