Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização - Inculturação
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Alberto Garuti Celebra-se, neste ano, o quarto centenário da chegada de pe. Matteo Ricci, missionário jesuíta, a Pequim, onde foi recebido pelo imperador em seu palácio. Ricci foi um missionário que viveu já em sua época, os princípios básicos do Vaticano II, especialmente a inculturação e o diálogo inter-religioso. Infelizmente, não foi compreendido e a evangelização na China, conforme seu estilo, foi interrompida. Se tivesse continuado, certamente a história do cristianismo naquele país teria sido muito diferente.
Chinês com os chineses O que caracteriza padre Matteo Ricci é o grande respeito pela cultura chinesa. Como disse João Paulo II, ele estava convicto de que o cristianismo não teria prejudicado a cultura chinesa, e sim a teria enriquecido e aperfeiçoado Matteo Ricci nasceu na cidade
de Macerata, que na época fazia parte dos Estados Pontifícios,
em 1552. Depois de estudar direito em Roma, entrou na Companhia de Jesus,
em 1571. Durante sua formação, interessou-se também
por várias matérias científicas, como matemática,
cosmologia e astronomia. Preparando-se para a missão na China O cristianismo tinha sido levado à China já desde o século
VII, mas, quando S. Francisco Xavier morreu, em 1552, às portas
da China, dessa primeira evangelização não ficou
praticamente nada. Mesmo as primeiras tentativas, logo depois da morte
do grande missionário, não deram muito fruto. Jesuítas,
franciscanos e agostinianos tentaram, mas com nenhum resultado. Tratava-se
de uma evangelização feita às pressas, com homens
insuficientemente preparados e incapazes de aproveitar das circunstâncias
favoráveis que lhes estavam sendo apresentadas. Ganhando a confiança dos chineses A primeira preocupação de pe. Matteo foi mostrar muito
respeito e consideração por tudo o que era chinês.
Perguntado qual era o objetivo que levava dois europeus a viver na China,
respondeu que eram religiosos que tinham deixado seu país
no longínquo Oeste por causa da fama do bom governo da China, onde
desejavam permanecer até a morte, servindo a Deus, o Senhor do
Céu.
De todos esses objetos, o que mais fez sucesso foi um mapa-múndi.
Isso não quer dizer que os chineses não tinham seus mapas.
Tinham sim, mas o que nesses mapas se encontrava estava bem longe da realidade.
O império chinês, dividido em 15 províncias, ocupava
quase todo o espaço. Em volta dele, estava pintado um pouco de
mar com algumas pequenas ilhas, cada uma delas menor que uma das províncias
do império, em cada uma das quais estava escrito o nome de um dos
demais países do mundo, conhecidos pelos chineses. A primeira exposição
do mapa de pe. Ricci causou muitos protestos dos chineses, que não
queriam admitir que a China fosse menor que o resto do mundo. Mas quando
os padres, com muita paciência, mostraram o cuidado e os critérios
científicos segundo os quais o mapa tinha sido feito, os mais sábios
entre os presentes começaram a se render à realidade. A
primeira reação foi uma chuva de pedidos para terem uma
cópia desse mapa com as inscrições em chinês. Rumo a Pequim Pe. Matteo sempre desejou chegar a Pequim e anunciar o Evangelho a partir de lá. Em 1599, alguns entre os mais altos mandarins já estavam desejosos de ver e ouvir o famoso sábio do Ocidente. Dois anos depois, o inesperado aconteceu. O próprio imperador, Wan-li, convidou-o ao seu palácio. Para ganhar a simpatia do imperador, pe. Matteo ofereceu-lhes vários presentes trazidos da Europa e, dentre eles, o famoso mapa que tão bem já tinha sido acolhido, alguns anos atrás, por alguns sábios chineses do interior. O imperador também mostrou-se muito interessado e pediu logo uma cópia para si. Nas conversações com pe. Ricci no palácio, todos ficaram admirados com sua sabedoria e tiveram que admitir que seus conhecimentos em certas ciências, como, por exemplo, astronomia e matemática, estavam muito longe dos níveis a que se tinha chegado no Ocidente. Tudo o que tinha feito até esse momento, o missionário jesuíta considerava estratégia para predispor a boa vontade do chinês e suscitar seu interesse pela religião que, mais tarde, ele iria anunciar. A partir desse momento, ele começou a usar outros meios, como por exemplo, tornou-se escritor de livros que foram tão bem sucedidos entre os chineses, como as suas demonstrações de conhecimento em campo científico. Ele escreveu, por exemplo, As Vinte Cinco Palavras, pequeno tratado de moral em outros tantos capítulos, e, o que teve mais sucesso ainda, Os paradoxos, uma coleção de sentenças morais ilustradas com exemplos, tudo tirado da Escritura e de obras de autores cristãos que levaram os chineses, muito orgulhosos dos próprios autores, a ter que admitir que havia coisas maravilhosas nas literaturas e religiões de outros países também. Tudo o que o Pe. Matteo fazia, seja no campo científico como no campo religioso, fazia-o muito bem, suscitando a admiração da classe culta chinesa. Mas o livro que mais chamou atenção foi Tíen-chu-she-i (A verdadeira doutrina de Deus). Trata-se, em poucas palavras, daquele catecismo que ele já publicara alguns anos atrás, quando estava no interior, revisto, aumentado, enriquecido, que falava de Deus, da criação, da imortalidade da alma e do prêmio ou castigo final. O toque de gênio de Ricci foi ter apresentado, além de muitas citações de autores cristãos, citações também de autores chineses, especialmente antigos. Isso aumentou a confiabilidade do livro e sua aceitação entre os leitores chineses. Em pouco tempo, o livro tornou-se o manual de muitos missionários e teve muita influência na primeira evangelização da China. A obra impressionou tanto que, mesmo cem anos depois, o imperador K´ang-hi, em 1692, mandou proclamar um edito em que se autorizava a pregação do Evangelho em todo o império.
Pe. Matteo respeitava muito o confucionismo, a religião mais difundida na China (que ele, contudo, considerava mais uma doutrina moral do que uma religião), e nela encontrava muitas concordâncias com o cristianismo. Nos livros que escreveu, ele mostrou sempre que não há incompatibilidade entre a doutrina de Confúcio e o Evangelho, pelo contrário, o segundo completa a primeira.
Podemos dizer, para concluir, que ele soube achar a maneira adequada
de escrever claramente as nossas verdades, os nossos dogmas, de maneira
não somente a serem compreendidos, mas a interessar e falar ao
coração dos chineses. Em poucas palavras, falar e escrever,
pensando não somente naquilo que se está dizendo ou escrevendo,
mas também naqueles que irão ouvir ou ler, isto é,
inculturar a própria pregação. Um sinal de quanto pe. Matteo Ricci foi amado e estimado pelos chineses aconteceu na hora de sua morte, em 1610. Por lei, nenhum estrangeiro que morresse na cidade de Pequim podia ser sepultado lá. O superior dos jesuítas pediu ao imperador a autorização para que o padre fosse sepultado na capital, lembrando sua atividade na corte imperial e as honras que recebeu por seu trabalho. O imperador consentiu, dizendo que há muitíssimos anos não se tinha visto um estrangeiro com tanta virtude, sabedoria e amor pelos chineses como o pe. Matteo Ricci. As questões dos ritos chineses e dos nomes de Deus As dificuldades que padre Ricci não encontrou entre os chineses acabou encontrando dentro da própria Igreja católica Depois de sua morte, os métodos de pe. Ricci encontraram críticas e oposição dentro da própria Igreja. Poucas pessoas tinham a mentalidade esclarecida que ele tinha. Para completar o quadro, era o tempo da Inquisição e a preocupação com um extremo rigor na apresentação da doutrina católica era muito grande. A questão dos nomes de Deus
Não é fácil traduzir para a língua chinesa os termos teológicos. Um problema que o pe. Ricci encontrou foi o de escolher o termo que expressasse bem para os chineses o conceito de Deus, senhor de todos, criador do universo e suprema autoridade. Os chineses já usavam dois termos: T´ien (que em si significa
céu) e Shang-ti (Soberano Senhor) para designar Deus. Alguns autores
chineses, seguidos por outros missionários, achavam os dois termos
insuficientes para exprimir toda a realidade que entendemos através
do termo Deus. Para eles, as duas palavras acima indicariam o céu,
enquanto lugar de várias divindades, e não do Deus único.
As razões do fundador da missão na China eram fortes e bem fundamentadas, mas não foram compartilhadas por todos, até entre os jesuítas. Foram justamente os jesuítas do Japão que criticaram o uso desses termos, ao passo que, entre os que trabalhavam na China, somente um se manifestou contrário, o pe. Nicola Longobardi, sucessor de Ricci. A discussão prolongou-se até o começo do século seguinte quando, em 1704 e 1715, Clemente XI proibiu o uso dos termos T´ien e Shang-ti para indicar Deus e somente permitiu o uso do termo T´ien-chu. A questão dos ritos Em sua preocupação de inculturar a mensagem evangélica e de tornar-se chinês com os chineses, pe. Ricci valorizou muito alguns gestos e ritos que todo chinês realizava e permitiu que também os cristãos os realizassem, não vendo neles nenhum sinal da existência de algo contrário ao ensinado pela religião católica.
Tratava-se dos ritos e das cerimônias em honra aos antepassados e ao próprio Confúcio. Os ritos em honra aos antepassados consistiam em prostrações e na oferta de sacrifícios aos falecidos da própria família. Esse gesto era considerado um ato de amor filial, muito importante para um chinês, e quem deixasse de fazê-lo passava a ser considerado um membro indigno de sua família. Cerimônias semelhantes eram realizadas em honra a Confúcio e eram consideradas condição indispensável para receber qualquer título de estudo ou conseguir vaga num emprego público. A importância da cerimônia era tamanha, que quando o ministro da França pediu que os cristãos fossem dispensados dessas cerimônias, em nome da liberdade de religião a Corte de Pequim respondeu que se tratava de uma tradição tão enraizada na alma do povo que não admitia exceções. O que pe. Ricci fez foi estudar a fundo, como era de seu feitio, o problema.
Chegou à convicção de que esses atos não continham,
de jeito nenhum, significação religiosa. Confúcio
era visto como um sábio e não como uma divindade. Quanto
ao culto dos ancestrais, ele escreveu: A honra que eles dão
aos antepassados consiste em servi-los, mortos, como quando eram vivos.
Eles não pensam que o morto venha comer o que lhe ofereceram (carne,
frutas, etc.) ou que precisem disso. Eles dizem que agem assim, porque
não conhecem outra maneira de mostrar seu amor e gratidão
a seus ancestrais. Quanto a Confúcio, por meio dessas
cerimônias, eles agradecem a Confúcio pela excelente doutrina
que lhes deixou em seus livros e que lhes permitiu conseguir seus diplomas
e seu título de mandarim. Em tudo isso não há nada
que faça suspeitar a existência de idolatria e é muito
provável que não haja nada de superstição
nisso. Ele permitia, portanto, aos cristãos participar desses
ritos, recomendando somente que evitassem tudo o que pudesse dar a impressão
de superstição. A proibição de celebrar esses ritos Pe. Ricci pôs-se este problema: É possível, para alguém que se torna cristão, continuar sendo lealmente chinês? Mais concretamente: é possível continuar praticando os ritos familiares e nacionais que constituem as bases civis e morais da sociedade?
Estudou a fundo os autores e os costumes da China com a preocupação de não impor pesos inúteis aos novos cristãos, conforme as orientações do primeiro Concílio de Jerusalém. O próprio superior das missões jesuítas na China, pe. Valignano, dizia que é preciso acolher ao máximo, uma vez que a fé esteja salva. Mas não era essa a opinião dos novos missionários que chegavam à China, especialmente de outras congregações, como franciscanos e dominicanos. Outras missões inclusive, como a das Filipinas, que punham em
prática métodos intransigentes e até violentos de
evangelização, na onda dos métodos seguidos pelos
conquistadores espanhóis, começavam a denunciar a missão
da China como desviante.
A discussão continuou acirrada por muitos anos até que, em 1704, Clemente XI proibiu aos cristãos a participação nas celebrações em honra aos antepassados e em honra a Confúcio. O próprio imperador K´ang-hi, dividido entre a amizade com os padres jesuítas e a aplicação da lei, demorou para chegar às conseqüências legais a que o decreto papal levava. Conservou na corte pontifícia os jesuítas que ocupavam encargos científicos, mas em seguida, em 1717, acabou declarando que todos os missionários deviam ser expulsos, a religião cristã proibida as igrejas deveriam ser destruídas e os cristãos chineses deveriam renunciar à sua religião. Para os cristãos chineses a prova foi duríssima: não conseguiam entender porque deveriam renunciar aos deveres de piedade familiar e ao amor pela pátria para serem bons cristãos. Nem o governo chinês entendeu por que certos atos fossem proibidos aos cristãos. A simpatia e a benevolência para com a Igreja que os imperadores tinham, no tempo de Matteo Ricci, transformaram-se em perseguição. A história da missão na China tomou um rumo diferente.
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