Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização - Inculturação
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Devido aos desafios e transformações ocorridas ao longo da história, como a necessidade de sobrevivência e manutenção da cultura, a mulher tupiniquim vem refletindo e buscando alternativas no processo de etno-sustentação. E por que etno-sustentação? Porque, para elas, não se trata apenas da auto-sustentação, mas de manter a herança coletiva. Esse espírito de resgate da coletividade, que marca a cultura tupiniquim, é muito forte e deve ser respeitado. Nessa reflexão de dimensão coletiva, as mulheres do grupo procuram desenvolver projetos, a partir da demanda da comunidade, considerando os conhecimentos empíricos dos anciãos e os elementos próprios da cultura. E, para tal processo sócio-histórico-cultural, a educação tem papel importante, pois contribui para o conhecimento da legislação em relação aos povos indígenas, e passa do conhecimento prático ao saber científico, no desenvolvimento da pessoa enquanto ser social e político, dentro de uma cultura específica que preserva e mantém sua autonomia. Outro elemento fundamental na caminhada das mulheres indígenas é a organização para troca de experiências e de saberes. Para isso, foi criada a Comissão de Mulheres Indígenas do Leste (COMIL). Dos seus encontros participam representantes de outras mulheres indígenas da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo. Além disso, há encontros semanais nas aldeias, em que as mulheres tupiniquim recebem noções de medicina alternativa e produzem artesanato, como pintura em tecidos, macramé, corte-e-costura, bordados, crochê, colares, cocares, brincos, arco e flecha, bolsas etc. Todo o material produzido, como meio de etno-sustentação, procura valorizar a especificidade da cultura tupiniquim. Para garantir a etno-sustentação, as mulheres vendem seu artesanato em exposições culturais, festas, seminários, lojinhas de pessoas conhecidas e em outros ambientes onde são convidadas a expor seu trabalho. Muitas vezes, porém, encontram dificuldades por falta de oportunidades e de reconhecimento. A Pastoral Indigenista da Diocese de Colatina – ES, coordenada pelas Missionárias Combonianas e voluntárias, desenvolve iniciativas que ajudam no avanço da etno-sustentação das mulheres tupiniquim e na divulgação desses produtos para outros povos e municípios. Desta forma, a mulher tupiniquim mostra para a sociedade o seu valor, enquanto geradora de vida para o seu povo, reafirmando o espírito de coletividade próprio da sua cultura e da sua identidade feminina no interior de uma identidade cultural específica e, como as mulheres do Evangelho, anuncia e testemunha com a sua própria vida os valores do Reino. Buscar o desenvolvimento através da etno-sustentação, é acreditar no valor do ser humano pertencente a uma cultura específica, e é também buscar a igualdade de todos no desenvolvimento pessoal e comunitário. E a Campanha da Fraternidade deste ano nos interpelava a lutar pela paz universal, onde todos têm oportunidades de fazer a experiência da solidariedade, mesmo nos pequenos espaços do dia-a-dia, para fazer acontecer a etno-sustentação. As Missionárias Combonianas atuam com os tupiniquim desde 1988, inicialmente ligadas ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Em 1990, foi criada a Pastoral Indigenista, juntamente com a criação da Diocese de Colatina. Esta iniciativa se deu para atender as demandas dos indígenas que solicitavam um trabalho sistemático com as mulheres, uma evangelização inculturada, e uma educação diferenciada, que respeitasse e fortalecesse os elementos próprios da cultura, como: - uso de plantas medicinais, intercâmbio de saberes e de experiências e valorização do artesanato nativo. Como Missionárias Combonianas, sentimos que o grande desafio é fazer com que a sociedade envolvente descubra os valores presentes na cultura tupiniquim. Temos esperança de que, um dia, todos perceberão que o espírito de coletividade, de comunhão, de sororidade, de fraternidade e de solidariedade deste povo poderá servir de aprendizado para todos. Também é uma grande alegria vivenciar com tais mulheres a sua determinação, esforço e luta pela etno-sustentação de maneira grupal.
Irmã Franca Artini Em relação aos indígenas, não é diferente. Se pensarmos um pouco, concluiremos que é simplesmente a falta de conhecimento e de convívio com o diferente que faz com que reajamos com preconceitos, ofensas ou justificativas. – Sou mulher, sou índia e sou bonita! Este é o grito da diversidade, de uma diversidade digna, profundamente digna: é o grito da humanidade e da feminilidade. É o grito de uma nova criação. É o grito daquela humanidade alternativa que não obedece aos cânones lógicos do mercado, do poder, do dogma.
É o grito que sai dos lábios com estupor profundo e consciente: – Sou mulher, sou índia e sou bonita Sou diferente e bonita, não como traduz a Bíblia: “... mas formosa...”. Quando digo que sou índia, negra, mulher e sou bela, não preciso justificar nada. A diversidade é bonita e lembra a reconciliação e a superação de tudo aquilo que provoca divisão, competição, rejeição e barreiras. A diversidade ameaça somente quem é inseguro, infantil ou imaturo em suas relações e com dificuldades para compreender a realidade multicultural e globalizada. Nós, mulheres, índias e brancas, negras e mestiças, temos esta missão de lembrar que a diversidade, em todos os aspectos, é uma riqueza, e nesta riqueza encontramos as raças, as culturas, as espiritualidades e até a bonita biodiversidade.
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