Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização - Inculturação
A ÁSIA A Ásia, continente enorme com gigantescos arquipélagos, possui um mosaico de culturas e subculturas e uma riqueza espiritual incanculável. Mais de 85% dos não-cristãos no globo vivem na Ásia. Os católicos representam em torno de 3% dos 3,5 bilhões de asiáticos, que perfazem mais de 60% da humanidade. Um dado significante é que mais de 50% de todos os católicos da Ásia vivem em um único país, as Filipinas, que, por providência divina, me acolhe como estrangeiro e peregrino na estrada de Jesus. A Ásia é o berço das grandes religiões: Judaísmo, Cristianismo, Islamismo e Hinduísmo. Muitas outras tradições espirituais, como Budismo, Taoísmo, Confucionismo, Zoroastrismo, Jainismo, Sikhism e Xintoísmo, também nasceram na Ásia. Há, ainda, milhares de crenças tradicionais e tribais, com diferentes graus de estrutura ritual e formas de ensino religioso. “Viu um asiático, viu todos” e “todo asiático é farinha do mesmo saco” são rótulos que esvaziam a caridade evangélica e o respeito pelo ser humano. São obstáculos a uma visão mais precisa da diversidade que a Ásia de hoje nos oferece. Um olhar mais profundo no coração do continente acontece quando se vive o dia-a-dia da vida oriental e se respira com pulmões repletos de ar asiático. Quando se sente a pulsar do coração asiático e a vitalidade da sua alma, logo se descobre que existem muitas Ásias. Um continente dividido por conflitos étnicos, sociais, culturais, linguísticos, econômicos e religiosos. Apesar disso, o asiático é rico em valores, tais como: amor ao silêncio e à contemplação, simplicidade, harmonia, desprendimento, não-violência, trabalho duro, disciplina, vida simples, sede de saber e curiosidade filosófica. Ele se esforça para criar um espírito de tolerância e de harmonia. Respeita a vida, compadece-se de todos os seres vivos, aproxima-se da natureza, ama os genitores, os idosos, os ancestrais. Tudo isso fertiliza um desenvolvido sentido de comunidade, particularmente na família, que, como força vital, transforma-se em solidariedade. AS FILIPINAS No meu primeiro Natal nas Filipinas, nasceu-me um sentimento no coração, que, desde então, se renova a cada Páscoa, Pentecostes, demais datas litúrgicas e especialmente durante a Eucaristia, celebrada diariamente. É este: “A duas horas de vôo daqui, milhões de pessoas não celebram o nascimento do Messias, simplesmente porque nunca ouviram falar dele!”. Em 1995, o Papa João Paulo II convidou os bispos da Ásia, reunidos em Manila (Filipinas) a “abrirem para Cristo as portas da Ásia”. O cristianismo, de fato, nunca foi bem aceito em vastas regiões asiáticas. Muitos cristãos têm a sensação de que se trata de uma imposição religiosa estrangeira. Na China, em partes da Índia, na Coréia do Norte e em outras regiões está claro: “Vocês não são bem-vindos!”. Chega-se ao ponto de rejeitar a Jesus e ao Cristinismo, como não-asiáticos, como ameaças a valores locais. Também o Sínodo da Ásia, em 1998, e a Exortação Apostólica Ecclesia in Asia, de 1999, afirmam que Jesus é asiático por nascimento e que seu jeito de falar, pregar e de se relacionar eram genuinamente orientais, assim como a sua cultura judaica. O DESAFIO Eis o desafio missionário: como apresentar Jesus Cristo? Como redescobrir o seu jeito de ser asiático? Como renovar nos corações os ideais asiáticos das primitivas comunidades cristãs de harmonia e partilha? Teresa de Calcutá foi um caminho entre os hindus da Índia. Santidade, contemplação e caridade podem ser o rumo para os cristãos dialogarem com os não-cristãos na diversidade cultural da Ásia. O cristianismo pode até ser rejeitado, mas o asiático não refuta pessoas que o amam, que servem aos pobres e que entregam a vida pela humanidade. Cristãos e não-cristãos, todos admiram Madre Teresa porque, além das diferenças religiosas, ela testemunhou, serviu a quem todos desprezam. “... tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim...” (Mt 25,35-36). Uma pergunta evoca, de maneira especial, a constante inquietação para a Igreja na Ásia: como partilhar com os irmãos e irmãs asiáticos o tesouro a nós confiado, e que contém todos os demais tesouros: a Boa Nova de Jesus? O presente que temos a oferecer à Ásia é a nossa fé. Muitos não-cristãos se surpreendem quando hesitamos em anunciar Jesus, justamente porque eles esperam que o façamos, já que o seguimos e nele acreditamos como nosso Salvador. Bilhões de pessoas ainda não ouviram falar Dele. Até nós, cristãos, ainda não o conhecemos o suficiente. Apaixonados por Jesus, missionários e missionárias mergulham no mundo da Ásia e no dia-a-dia do seu povo. Não é apenas uma presença física, mas alguém que que lê os sinais dos tempos, a mente e o coração das pessoas, a se exprimirem, quase sempre, através de faces petrificadas pelo sofrimento. Em busca de Jesus com rosto asiático, missionários e missionárias mergulham no Evangelho e na tradição cristã e descobrem muitos elementos da sabedoria asiática em imagens, símbolos, parábolas e pedagogia. E novos horizontes de evangelização surgirão nesta terra de mártires que, sem conhecer a Boa Nova de Jesus, é bombardeada pelo consumismo global e pelas correntes pós-modernas, desafiando a nossa alegria de ter o mesmo coração missionário do Galileu. Nesta agenda missionária entra o protagonismo do Espírito Santo, como o principal agente da Evangelização. “... sobre vós descerá o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo” (At 1,8), porque “estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt 28,20). Repletos do Espírito Santo, “os discípulos partiram e pregaram por toda a parte. O Senhor cooperava com eles e confirmava a sua palavra com os milagres que a acompanhavam” (Mc 16,20). A força do Espírito leva o missionário até a cruz, sinal de derrota e humilhação, mas que se transforma em caminho para a ressurreição e Pentecostes, para a vida plena, a vida eterna. Estará nosso ardor missionário pronto para chegar a Pentecostes através do martírio? O Pentecostes missionário na Ásia está apenas começando! O autor é seminarista brasileiro
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