Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização Ecumenismo

Um plano secreto para o diálogo ecumênico

Richard Quinlan

Todos hoje falam em diálogo, mas poucos têm idéias claras sobre até que ponto esse diálogo deve chegar. O testemunho deste pároco londrino, acostumado a conviver e dialogar com anglicanos e metodistas, pode dar pistas

No bairro londrino de Putney, o ecumenismo era um valor apreciado, sobretudo, quando praticado pelos outros! Contudo, há dez anos, iniciamos uma grande mudança: passamos de um Conselho local de Igrejas diferentes à uma Igreja reunida por um profundo entendimento de amor. Isso significou um empenho profundo para agirmos juntos, para partilharmos o que temos em comum e nos respeitarmos mutuamente, quando não é possível caminhar lado a lado.
As jornadas de preparação para casais de noivos são distribuídas entre o pastor metodista e o pároco da Igreja anglicana, que falam da santidade matrimonial. Os diretores de nossas três escolas reúnem-se periodicamente para promover a unidade entre elas e discutir a política da prefeitura relacionada com o nosso bairro, como, por exemplo, a gestão das contribuições para as escolas maternas. Condividimos também os prédios, uma igreja e uma sala para encontros.
Mas, na minha mente, havia um plano secreto, um pensamento constante: quanto mais o diálogo em nosso Conselho de Igrejas crescesse, mais irmãos e irmãs de outras igrejas apreciariam o ponto de vista da Igreja católica, fazendo-o próprio. Afinal de contas, eram eles que estavam errados, separados da Igreja católica universal e, por isso mesmo, precisando ser conduzidos ao único rebanho, com um só pastor.
Lancei-me ao diálogo com todas as minhas energias. Em minha mente, porém - escondida sob a aparência de uma grande boa vontade, que se traduzia em abertura e busca de tudo o que era positivo nas outras Igrejas - estava o tal plano secreto: eles estão errados, nós temos razão; por isso, eles precisam regressar, convencidos e reconquistados, à grande Igreja católica romana.
Duas coisas me perturbavam nessa minha atitude. Dezoito anos antes, numa conversa com alguns eclesiásticos anglicanos, eu descobrira que eles também alimentavam o mesmo plano secreto: eles tinham razão e nós estávamos errados. Por isso, precisávamos da Reforma.
A segunda coisa era o fato de que, no clero anglicano, eu encontrava o mesmo estilo de vida e de pensamento que havia em nosso clero. Em ambas as partes, entre os membros do clero, em seus vários graus, há defeitos, fraquezas e até mesmo corrupção. Isso se transformou para mim num ponto de unidade com eles. Em outras palavras, Jesus crucificado e abandonado, refletido na figura do padre, passou a ser a chave da unidade. Eles tinham os mesmos pontos fracos que nós. Nisso, estávamos unidos. Para além de todos esses aspectos negativos, porém, eu encontrei neles uma verdadeira consciência da realidade do sacerdócio, a mesma que eu experimentara no interior da Igreja católica. Na prática, não estávamos vivendo o mesmo ideal de Jesus Cristo, apesar de percorrermos dois caminhos paralelos?
O pedido de Jesus - que os discípulos fossem um só coração na mente e nos bens materiais - me desafiou e me martelou durante anos. É um ideal que só se realizará plenamente no paraíso, mas que precisa ser vivido por nós, pobres mortais, também aqui na terra, pelo menos em parte. Foi por isso que o objetivo de minha pastoral paroquial sempre foi a preocupação em unir os vários grupos ou comunidades existentes na paróquia: os idosos, os ricos, os pobres, os jovens, os afastados e, sobretudo, aqueles que passam por experiências de rejeição e marginalização em relação à Igreja.
O que cresceu entre as diversas Igrejas e o respectivo clero foi o respeito mútuo, que nos levou a amar a Igreja do outro como amamos a nossa. Não escondemos nem abolimos as diferenças. Ao contrário, aceitamos as tradições de todos sem a preocupação de corrigir as que são diferentes das nossas. Tentamos superar o formalismo e o sincretismo religioso e aprender a ser honestos até o fim em nossos sentimentos e opiniões. Isso gera a presença de Cristo entre nós, em nossas associações e fraternidades. Mesmo quando Cristo não é declarado abertamente, sentimos e sabemos que ele está verdadeiramente presente em nós.
Assim, agora já não alimento nenhum plano secreto. Não preciso converter mais ninguém. Só Deus pode dar essa graça a uma pessoa. Nós somos discípulos eficientes do Senhor, somente se conseguimos mostrar o nosso testemunho de unidade na fé evangélica e na vida entre nós. Quem é diferente de mim é precioso e dotado de grande valor, porque todos, mesmo os que estão no erro, têm uma centelha de verdade dentro de si. Afinal, é o Espírito Santo quem move os corações e muda a mentalidade nas instituições humanas e eclesiais. O Espírito é a alma da Igreja e do mundo.
Naturalmente, há sempre um preço a pagar em qualquer iniciativa. O seu nome é Jesus crucificado e abandonado. Ele está presente para ser amado e para fazer surgir um novo germe de vida. Poderíamos dizer que a nova e maravilhosa Igreja do futuro acontecerá na medida em que experimentarmos Jesus crucificado e abandonado. É ele que abre e fecha as portas do diálogo. Foi assim que começamos a descobrir uma nova identidade no clero de nossa diocese de Putney, começando por nossa casa paroquial, onde vivem um africano, um irlandês e um inglês.
Em Maria encontramos o modelo de como doar Jesus ao mundo. No Evangelho são lembradas poucas expressões de Maria. Entre essas, quero salientar duas: "Faça-se em mim segundo a tua palavra", em resposta ao anúncio do Anjo; e "Eles não têm mais vinho", em Caná da Galiléia. A unidade pode ser o vinho novo que o nosso povo anda buscando com persistência. Certamente, conseguiremos saciar essa sede, se seguirmos a vontade de Deus, como Maria.
Recentemente, li o testemunho de Atenágoras, que foi patriarca ecumênico de Constantinopla. Parece-me que ele descreve o que experimentamos em Putney:
"Precisamos chegar ao ponto de nos autodesarmar: cada um deve fazer esse passo. Eu me engajei nesse combate durante longos anos. Foi terrível. Mas agora estou desarmado. Não tenho mais medo de nada, porque o amor afasta o medo. Estou desarmado da ambição de ter razão, de me justificar a mim mesmo, acusando os outros. Já não me encontro numa constante atitude de defesa, decidido a salvaguardar ciosamente os tesouros da minha tradição. Eu recebo e partilho. Não me importo tanto com minhas idéias e meus planos.
É por isso que não tenho mais medo. Quando não se possui mais nada, não se consegue mais ter medo! Quando alguém está desarmado e despojado de tudo, quando se abre ao Homem-Deus, que faz novas todas as coisas, então ele supera todo o mal do passado e inicia uma nova estação onde tudo lhe é possível"

Tradução e adaptação de "Unidade e Carismas", julho-setembro 1999.

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