Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização Geral

por Estêvão Raschietti

erca de 250 religiosas e religiosos que trabalham no Brasil, representantes de 70 institutos missionários, participaram do 1o Congresso Missionário Interinstitucional, realizado no Centro Educativo La Salle, em São Paulo, de 21 a 23 de abril. O objetivo do evento foi animar a vida dos institutos e das congregações missionárias, para que possam delinear metas a uma nova ética e a projetos comuns de ação e animação missionárias na Igreja no Brasil. Os participantes foram convidados a refletir e a debater sobre a releitura do Decreto Ad Gentes e seus desdobramentos para a vida consagrada, após 40 anos do Vaticano II.

O congresso contou com a assessoria de pe. Paulo Suess e pe. Edênio Valle, e com a presença do bispo presidente da Comissão para a Ação Missionária da CNBB, dom Sérgio Castriani, da presidente da CRB, ir. Maris Bolzan, do Diretor das Pontifícias Obras Missionárias, pe. Daniel Lagni, e do Diretor do Centro Cultural Missionário, Pe. Guido Labonté. O congresso foi animado por orações multiculturais, celebrações missionárias, conferências de aprofundamento, grupos de reflexão e testemunhos além-fronteiras. Várias missionárias e missionários brasileiros, que trabalharam durante décadas em países da África e Ásia, tiveram a possibilidade de transmitir um pouco de sua experiência e do significado desta para a Igreja no Brasil.

A MEMÓRIA DO VATICANO II

A primeira tarefa foi resgatar a memória do Concílio Vaticano II, seu contexto, inspiração, instâncias, inovações, textos. O intuito não era o de uma celebração saudosista. Ao contrário, a memória do Concílio diz respeito a um compromisso essencial e profético dos cristãos diante do mundo de hoje. Afinal, foi com o Vaticano II que a Igreja católica inaugurou uma época de transição de uma cristandade fechada e autocomplacente para uma igreja mundial e missionária. O debate conciliar sobre a missão foi revelador. O confronto entre as tendências teológicas dentro da Igreja produziu o surgimento de um novo conceito de missão, eixo de uma nova maneira de entender a Igreja e todas as suas atividades.

Antes do Concílio, a missão era uma empresa eminentemente eclesiástica, dirigida por especialistas (os institutos missionários), que se identificava com a conversão dos pagãos e da implantação da Igreja. Tinha muito a ver com o ir além-fronteiras para estabelecer uma civilização cristã. As “missões” constituíam “territórios”, principalmente do ponto de vista jurídico. Com a reflexão conciliar, a missão deixa de ser considerada um “território” para ser transformada no “coração” da vida da Igreja.

O LEGADO DO VATICANO II

“A Igreja é por sua natureza missionária”. Toda atividade eclesial é evangelizadora. Todos os batizados são missionários. Esses parecem ser os lemas do Vaticano II. A missão não é, antes de tudo, um “território pagão”, mas é uma iniciativa de Deus-Trindade, que transborda sua essência e inunda o mundo do amor que o constitui, na missão do Filho e do Espírito. O Reino de Deus torna-se a grande meta da missão. É uma meta maior do que a Igreja: é uma meta sem fronteira, porque quer abraçar toda a humanidade para convocá-la ao encontro definitivo com Deus. Desta maneira, a humanidade é chamada a tornar-se Povo de Deus, um povo que se constitui a partir dos pobres, dos pequenos, dos excluídos.

Esses não são apenas os destinatários da missão, mas se tornam protagonistas, que lutam para que o Reino venha a todos, e não somente a alguns. Compreende-se, portanto, a missão como militância por um mundo integralmente melhor, em cada contexto e no seu conjunto. A missão é sempre e unicamente anúncio de Cristo, da ressurreição e da vida, em defesa da vida em todas as suas dimensões, no dom da vida contra o mal, no diálogo paciente, na presença silenciosa, no testemunho, na contemplação, na ação, na caridade, na misericórdia, na justiça.

A VIDA CONSAGRADA E A DIMENSÃO UNIVERSAL DA MISSÃO




Cenas do Congresso

A vida consagrada, que até então foi aquela que, na Igreja, carregou em seus ombros a difícil tarefa da “missão estrangeira”, foi aos poucos incorporando as inovações teológicas conciliares em sua visão e em sua prática missionária. Emergiram, nesse contexto, a co-responsabilidade com a Igreja local, o caráter fundamental do diálogo e a profecia, como marcas definidoras do testemunho de fé, a inculturação, a causa da justiça, paz e integridade da criação como constitutiva da missão, a opção pelos pobres, a solidariedade com os oprimidos.

Elemento alimentador de toda essa mudança de paradigma foi a capacidade de escutar a Palavra de Deus e o que o Espírito está dizendo a nós e às Igrejas. A vida consagrada não pode se recolher para dentro de si mesma. O seu serviço missionário ad gentes, tradicionalmente entendido em sentido geográfico de ir aos territórios pagãos, é chamado hoje a estender-se igualmente por todas as latitudes e contextos, num mundo sem fronteiras, através de um amplo, aberto e multifacetado diálogo com todos os povos, religiões e tradições que o Espírito de Deus semeou ao longo de séculos e milênios em nossa terra e no coração de nossas gentes.

Com o olhar contemplativo e a dedicação gratuita aos outros, que sempre a caracterizaram, é preciso que a vida consagrada saiba reconhecer sempre mais a ação de Deus na vida das pessoas, denunciar o mal presente estruturalmente na sociedade moderna e pós-moderna e anunciar a paz no mundo inteiro, no reconhecimento da dignidade de todas as pessoas e na prática assídua da fraternidade (cf. GS 78). Por isso o grito: “gentes, vamos às gentes!”

ANIMAÇÃO MISSIONÁRIA

Na conclusão, foi compilada uma síntese temática de uma “nova ética missionária” e uma série de propostas-compromisso para animar a Igreja no Brasil nesta dimensão universal da missão, em resposta aos apelos das instâncias presentes no Congresso. A equipe executiva do Conselho Missionário Nacional fez-se voz das exigências que esperam, dos consagrados e das consagradas, uma resposta mais decidida no âmbito de maior atuação nos meios de comunicação, de formação missionária mais incisiva nos seminários e nas escolas teológicas, de animação mais vibrante e universal nas liturgias e nas pastorais, de cooperação mais efetiva com os projetos e as frentes além-fronteiras e de articulação mais eficaz entre instituições, no que diz respeito a criar um espaço comum de partilha, reflexão e ação.

Se depender da resposta e da avaliação entusiasta dos participantes desse congresso, a dimensão universal da missão terá, sem dúvida, mais lugar e reconhecimento, tanto na vida consagrada como na caminhada missionária de todas as igrejas no Brasil e no mundo. Coincidentemente, o 1.º Congresso Missionário Interinstitucional foi um dos primeiros eventos significativos da Igreja no Brasil há poucos dias da eleição do papa Bento XVI. Os congressistas fizeram votos que esse pontificado seja o marco da retomada decidida do espírito do Concílio Vaticano II, no ano em que se celebram os 40 anos de sua conclusão. O Concílio foi um evento eminentemente universal e missionário, que teve como lema as próprias palavras do Evangelho de Mateus: “Ide e fazei discípulos todos os povos” (Mt 28,19).

Mais informações do Congresso
Evento, objetivos, programa, organização,
participantes, textos e fotos do Congresso
www.alemfronteiras.org.br

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