
o
dia 12 de dezembro de 2003, a Igreja ortodoxa russa pediu, publicamente,
perdão pelo seu silêncio, nos anos da perseguição
comunista. Um pedido sem meios-termos divulgado pela imprensa russa. O
motivo dessa atitude sem precedentes, aliado a uma boa ocasião,
foi uma mensagem enviada ao metropolita Lavr, chefe da Igreja ortodoxa
russa da diáspora, que, em dezembro, abriu um concílio.
Entre os temas, havia a busca de um caminho para a reconciliação
das duas Igrejas.
Analisando as causas do colapso da Rússia comunista,
o patriarca Aléssio II escreve: “Percebemos que toda a Igreja
russa traz o peso da responsabilidade por tudo o que aconteceu ao nosso
país e ao nosso povo que, como ficou comprovado, não tinha
uma imunidade suficientemente forte contra as perniciosas doutrinas dos
‘sem Deus’”. O patriarca define a perseguição
religiosa como uma “severa lição para todos”.
“A santa Igreja é chamada a abraçar
a liberdade, desde que Cristo nos tornou livres. Nas circunstâncias
mais difíceis, a Igreja não tem o direito de renunciar ao
seu julgamento espiritual sobre os acontecimentos ao seu redor, porque
as conseqüências poderiam ser desastrosas para toda a nação.
Foi o que aconteceu nos anos do comunismo... Devemos admitir que as palavras
e os gestos dos representantes da Igreja, seja no país como lá
fora, nem sempre responderam a esse chamado. Membros e pastores da Igreja
foram condicionados por circunstâncias que não fazem parte
da vida da Igreja e, às vezes, por pressões explícitas
de forças externas à Igreja”.
A
história da diáspora dos russos ortodoxos

Patriarca de Moscou, Aléssio II |
Quando houve a explosão
da revolução leninista em outubro de 1918, a Igreja
ortodoxa russa estava reunida num concílio (1917-18), revendo
sua própria missão diante do mundo moderno que estava
se iniciando. O tema era a “sobornost” ou “conciliaridade”
interna. Centenas de bispos, clérigos e leigos suscitaram
um vivo debate que muito ajudou a própria Igreja e os cristãos
a enfrentarem o martírio que começaria dentro de poucos
anos com as perseguições comunistas.
Depois de dois séculos
de subordinação da Igreja russa ao governo czarista,
o Concílio restabeleceu o patriarcado, autônomo do
governo civil, mas o decreto da separação Igreja-Estado
de Lênin, promulgado em 23 de janeiro de 1919, marcou o início
de uma violenta campanha anti-religiosa. Muitos ortodoxos que puderam
se exilar constituíram um patriarcado na diáspora
que continua até hoje.
A reaproximação
dessas duas Igrejas, a de Moscou e a da diáspora, começou
em novembro do ano passado, quando uma delegação do
Sínodo da Igreja da diáspora, a fim de preparar a
viagem de Lavr, seu metropolita, fez uma visita oficial ao patriarca
de Moscou, Alessio II. Parece que há uma firme vontade de
restabelecer uma comunhão espiritual entre as duas Igrejas,
o que compreenderia o reconhecimento recíproco da validade
das celebrações eucarísticas de ambas. Para
as outras questões internas (a Igreja da diáspora
abriu igrejas no território canônico da Igreja russa),
foram criadas comissões em vista de um concílio para
reencontrar o diálogo. |
Pedindo uma compreensão mais ampla do que aconteceu
naqueles anos difíceis de perseguição, o patriarca
convida a olhar não somente para Moscou: “Vivendo num mundo
dividido pela cortina de ferro, nós, ortodoxos de ambos os lados,
fomos objetos de influências interesseiras de sistemas políticos
contrapostos. E nenhum sistema era nem cristão nem ortodoxo ou
estava interessado na reunificação do nosso povo e em entregar
à Igreja o legítimo lugar na vida do povo”.
A
ortodoxia russa
Na Rússia, a religião cristã
chegou no século 9, quando, em 988, o príncipe Vladimir
de Kiev, aceitou o batismo e difundiu a nova religião entre
seu povo. Kiev dependia do patriarca de Constantinopla, que nomeava
os metropolitas, os chefes espirituais dos vários países
do leste europeu e Oriente Médio. Após a queda de
Constantinopla, em 1453, a Igreja Russa tornou-se autônoma
e, em 1587, criou o patriarcado de Moscou. A Igreja russa é
uma das Igrejas ortodoxas.
Chama-se “ortodoxa” por diferir da
Igreja católica em alguns pontos doutrinais: aceita somente
os primeiros sete concílios ecumênicos, não
reconhece a autoridade do papa porque – sustenta – todo
bispo, como legítimo sucessor dos apóstolos, recebe
seus poderes diretamente de Cristo através do Espírito
Santo. As Igrejas ortodoxas são irmãs entre si, porém
autocéfalas, ou seja, cada qual depende de seu legítimo
bispo, embora haja a primazia de honra do chefe nacional, o patriarca.

Interior da Igreja da Descida no Kremlin
- Moscou |
Nelas existe uma forte tradição de
vida monástica masculina e feminina. Os sacerdotes ortodoxos
podem legitimamente se casar, mas os bispos são escolhidos
entre sacerdotes celibatários ou monges. A liturgia da Igreja
russa provém ainda do tempo bizantino: é suntuosa
nas suas cerimônias, não admite nenhum instrumento
musical, sustentando que somente a voz humana pode louvar dignamente
a Deus. Sua espiritualidade é muito profunda, marcada pela
presença de grandes monges e santos, entre os quais São
Sérgio, monge e estadista que construiu a unidade russa desde
1335.
Como todas as religiões, foi fortemente
perseguida, durante 70 anos, pelo comunismo, e milhões de
pessoas deram a vida testemunhando sua fidelidade a Cristo e à
Igreja nos gulags da Sibéria. Ultimamente, na ex-URSS verifica-se
um retorno à religião, embora ainda predomine uma
forte mentalidade materialista entre as novas gerações
que, durante o regime comunista, estavam proibidas de receber qualquer
instrução religiosa. |
Olhar, porém, somente para as sombras negras dos
acontecimentos seria totalmente errado porque, seja na Rússia como
na diáspora, muitos cristãos testemunharam a própria
fé no martírio e no exílio. Também continuou,
dentro da Rússia, a atividade pastoral clandestina, a pregação
da Palavra, a celebração dos sacramentos e – continua
o patriarca: “O Senhor salvou a sua Igreja que foi ferida somente
no seu exterior, enquanto o Corpo de Cristo preservou intacta a sua unidade”.
Na carta, o patriarca de Moscou convida a comunidade
da diáspora a superar todas as divisões e as mágoas
para “que possamos, desde já, partilhar a mesma compreensão
dos valores espirituais e morais encarnados na nossa comum Tradição.
A permanência das divisões está se tornando cada vez
mais incompreensível para o nosso povo... Quase tudo o que nos
divide já foi superado pela história. O que ficou foi somente
a ferida. Mas a Igreja pode e deve dar à nova Rússia um
exemplo de unidade e de capacidade de superar as divisões”. |