Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização Ecumenismo
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| oão Paulo II é muito aberto ao
diálogo com os ortodoxos: sua obstinada busca da unidade entre as
Igrejas cristã ajuda a todos a se abrirem reciprocamente". Quem
diz isso é o ortodoxo romeno Josif Pop, metropolita da Europa ocidental,
durante um simpósio em Turim, onde católicos e ortodoxos se
reuniram para discutir a "salvação conforme a ortodoxia
e as tradições cristãs ocidentais".
A salvação não é somente um argumento teológico, mas envolve toda a cultura contemporânea que, tendo perdido as ideologias que constituíam a força interior das pessoas, se encontra desnorteada diante do domínio prepotente da técnica e da perda de valores espirituais. O homem de hoje está em busca de uma salvação, nem sempre religiosa, que responda aos seus anseios. A tradição cristã, embora depositária de valores espirituais e éticos, apresenta-se dividida nas diversas Igrejas e na maneira de propô-los, o que a leva a perder a credibilidade. O metropolita Josif reconhece que, diante do papa peregrino entre os povos ortodoxos, a acolhida foi de dois tipos: uma sincera e entusiasta, e outra de recusa, motivada pelo medo de um possível expansionismo do Vaticano e do catolicismo. De outro lado, muito ortodoxos já superam essa herança histórica e olham o futuro com esperança de novas formas de unidade no cristianismo. |
Durante a discussão no simpósio
de Turim, apareceram as diferenças entre católicos e ortodoxos,
suas sensibilidades, mas sem discussões e polêmicas, no intuito
de entender e se fazer entender. Apareceu claramente um Oriente que privilegia
a experiência da religião, em particular a experiência
ascética e mística, e um Ocidente em que prevalece ainda uma
visão jurídica do pecado, entendido como culpa. O teólogo
ortodoxo Lambros Siassos lembra que, para a tradição ortodoxa,
o Mal "não tem substância, mas é a falta do Bem,
(...) é desarmonia, ausência de beleza, de vida, de inteligência".
Na realidade - afirmam outros teólogos - hoje já não existe mais a contraposição sobre o tema do pecado, visto que a idéia legalista da culpa perdeu ênfase também na teologia católica. Essas contraposições, porém, têm repercussões práticas sobre outros temas como o da "salvação", seja no catolicismo como na ortodoxia. O religioso e psicólogo Aventios Avgoustidis adverte que a cristandade ocidental ainda enfatiza o problema moral da transgressão e da culpa, de forma que "a cruz se torna o coração da fé católica" como resgate das culpas, enquanto os ortodoxos enfatizam a "ressurreição" como vitória da vida sobre a morte. Porém, continua Aventios, "aceitar a nossa pessoal crucificação durante a vida é o começo da ressurreição". Essas discussões não são feitas para dividir, mas para esclarecer e levam a crer que a unidade não esteja longe. |
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A ORTODOXIA
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A palavra ortodoxia significa a reta doutrina ou a dou- trina verdadeira. Do começo do cristianismo até 1054, as palavras "ortodoxa" e "católica" definiam a universalidade da Igreja, tanto a de língua latina como a de língua grega, excetuando algumas Igrejas orientais que tinham aderido às heresias nestoriana e monofisita. Os dois termos passaram a indicar duas Igrejas contrapostas, quando o patriarca de Constantinopla e o papa de Roma, declarando-se únicos depositários da verdadeira fé, excomungaram-se mutuamente em 1054. A divisão teológica já vinha de longa data por motivos vários. Um deles era chamado "filioque", ou seja, os ortodoxos não admitiam que o Espírito Santo procedesse de Deus Pai e de Jesus, como rezam os católicos no Creio, mas que procedesse somente do Pai. A essa questão juntava-se a afirmação, entre os ortodoxos, sobre o conceito de cristandade como comunidade de povos submissa somente ao poder de Cristo e que não admitiam uma primazia de fé e de autoridade do bispo de Roma, o papa. CAUSAS POLÍTICAS A política de então tornou a divisão religiosa mais radical, motivada por graves eventos, como a destruição de Constantinopla em 1204, durante a quarta cruzada, quando os venezianos, que rumavam para a conquista de Jerusalém, desviaram seus navios e ocuparam a cidade, após sete meses de assédio. Os cruzados saquearam e destruíram, levando para Veneza e para a Europa muitos dos tesouros bizantinos e impondo um patriarca ocidental para a cidade. A divisão entre Roma e Constantinopla envolveu todas as Igrejas: as de rito bizantino se aliaram à primeira e as de rito latino se uniram à segunda, coincidindo com áreas lingüísticas - grego e latim - e litúrgicas. Durante vários séculos, houve várias tentativas para reunir as duas Igrejas, mas foram inúteis, devido também às sucessivas influências políticas como a dominação turca que praticamente tomou conta de todo o Oriente e de parte da Europa até o século passado. As Igrejas ortodoxas são 21, divididas em 9 patriarcados, 6 igrejas autocéfalas e 6 independentes. Embora não reconheçam o patriarca de Constantinopla como chefe |
supremo, atribuindo-lhe somente uma primazia de honra, elas têm muito em comum, como a liturgia, a fé apostólica e o direito canônico. Não existem também grandes diferenças teológicas em relação à Igreja católica porque as duas se referem ao Evangelho e à tradição apostólica. Algumas diferenças doutrinais surgiram no decorrer da história das Igrejas. Alem do "filioque", os ortodoxos não admitem o dogma da Imaculada Conceição, discutem sobre a infalibilidade do papa, sobre o número dos concílios ecumênicos. (7 para os ortodoxos e 21 para os católicos) e admitem sacerdotes legitimamente casados. A Igreja ortodoxa privilegia a liturgia, a prática dos sacramentos e a mística natural dos povos orientais, tanto que a liturgia foi o refúgio e a força durante os longos séculos de perseguição otomana e do ateísmo comunista. Durante a época clássica da Igreja ortodoxa (séculos 4 - 8), ela soube envolver poetas, músicos e artistas de todos os ramos para criar obras sublimes, como as famosas igrejas e os ícones, uma das mais altas expressões da arte religiosa. Para os ortodoxos, a liturgia não se reduz a um simples meio emotivo para comunicar-se com o divino, mas o instrumento para se inserir na salvação operada por Cristo. Alguém já definiu a liturgia ortodoxa como a "manifestação do céu na terra, a carne da teologia, o coração da Igreja". Felizmente, nos últimos anos, tem havido uma série de iniciativas para uma reaproximação das duas Igrejas.
A Igreja de Sant'Andrea (século 18) em Kiev - Rússia |
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