Setembro
de 2007 - Edição n.º 12
Em Debate é parte integrante da Revista MUNDO
e MISSÃO - n.º 115


Torre de Babel - Pieter Brueghel |
ecumenismo é uma promiscuidade em pecado, já que pretende
agremiar numa só confissão seitas cujo próprio surgimento
e a “raison d’être” (razão de ser) são
desvios do caminho reto da tradição cristã original.
É uma tentativa insólita de se chegar à Verdade através
da aceitação simultânea de várias deturpações
desta. São as próprias palavras de Jesus Cristo que nos
mostram inequivocamente quão infundadas e destituídas de
qualquer valor são as afirmativas sobre os benefícios espirituais
para a humanidade que o ecumenismo possa trazer. São elas:
“... E eu digo-te que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei
a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão
contra ela” (Mt 16:18). É óbvio, que esta Igreja já
existe e que existe há dois milênios e que é uma só,
independentemente do número e da distribuição geográfica
dos fiéis por Ela congregados. É de se acreditar que o dito
foi suficiente para tornar evidente a vacuidade espiritual do ecumenismo.
(V.Kurgánov, da Igreja Ortodoxa
Russa)
s
evangélicos são contrários ao ecumenismo porque “continuam
crendo que a Reforma foi um avanço espiritual e não um equívoco.
Acreditam que os esforços tendentes à unificação
não levam em conta as razões reais da separação,
a saber, as questões doutrinárias fundamentais. Entendem
que o papado no catolicismo romano não é um ofício
legítimo da Igreja. Que a maior parte do corpo doutrinário
e ensino do catolicismo romano nada tem a ver com os princípios
bíblicos e nem serve de progresso histórico válido
na espiritualidade” (Eloy Melonio, Ecumenismo:
Quais os fundamentos da proposta?, Revista Em Defesa da Fé, n.º
24).
termo
ecumênico originou-se do grego oikoumene, derivado da palavra oikos:
casa, lugar onde se vive, onde as pessoas têm um mínimo de
bem-estar.
A expressão é utilizada em sentido
religioso e representa o esforço de unidade entre as religiões
cristãs, a pedido de Jesus a seu Pai:
- “Para que todos sejam um, como
tu, Pai, estás em mim e eu em ti; para que sejam um em nós,
a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). Entretanto,
surgidas ao longo da história, as divergências afastaram
os cristãos de um convívio comum. As mais graves aconteceram
nos séculos 11 (cisma ortodoxo) e 16 (cisma protestante).
s
pentecostais e os neo-pentecostais, em geral, e os batistas, têm
dificuldade com o ecumenismo. Em primeiro lugar porque, segundo eles,
seria uma nova estratégia da Igreja católica para reconverter
os “crentes” ao catolicismo. Do outro lado, o ecumenismo impediria
o proselitismo (conquista de adeptos), que é a maneira pela qual
muitos grupos evangelizam, uma vez que, para eles, quem não lhes
pertence não se salva.
á
grupos contrários ao ecumenismo também entre os católicos
(a ponta extrema é a Fraternidade São Pio X, fundada pelo
bispo Lefèbvre). Tradicionalistas e conservadores receiam que o
diálogo ecumênico possa enfraquecer a genuína fé
católica e gerar confusão entre os fiéis.
m
geral, nota-se pouco interesse pelo ecumenismo dentro da Igreja católica
(em nível de sacerdotes e leigos). As iniciativas ecumênicas
são muito raras, a impulsividade dos pentecostais assusta e põe
os católicos em defensiva. Há – de lado a lado –
muita ignorância e preconceito sobre as outras confissões
cristãs.


Irmãos e irmãs do Caribe, da América Central
e do Sul em preparação para a 9.ª Assembléia
Geral d0 CMI |
“Todos os cristãos se professam discípulos
do Senhor, mas têm pareceres diversos e caminham por rumos diferentes,
como se o próprio Cristo estivesse dividido. Esta divisão,
porém, contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo
para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da
pregação do evangelho a toda criatura”
(Concílio Vaticano II –
Unitatis redintegratio, 1)
uando
é que nós, cristãos, teremos a lucidez e a coragem
de reconhecer que nossa falta de unidade é uma causa fundamental
de ateísmo?”
(Giuseppe M. Zanghí, filósofo
e teólogo)
iante
dos enormes problemas que o mundo enfrenta, diante da responsabilidade
que temos de levar à frente o projeto de Deus para que a humanidade
se realize plenamente e seja feliz, os cristãos retardam o avanço
da história. Diante das tragédias da humanidade, opostas
ao plano de Deus, podem os cristãos continuar se dando ao luxo
atroz de trabalharem desunidos?”
(Enrique Cambón, teólogo)
s
cristãos, pelo menos eles, renunciem a suas divisões, a
suas posições, que se reconciliem, já que têm
como ponto de referência um Deus que é Amor!”
(Roger Schutz, fundador da Comunidade
de Taizé)

“Estou convencida que Deus não abandonou
nenhuma das Igrejas durante estes séculos de divisão. Portanto,
amanhã, com a reunificação, cada Igreja unida às
outras, refletindo justamente a unidade de Deus, não só
manterá a característica particular que foi desenvolvendo
ao longo dos séculos, mas colocando-se em comunhão com todas
as outras Igrejas, completar-se-á, fortalecer-se-á. Por
isso, cada Igreja tornar-se-á, de certo modo, uma ‘especialista’
daquele determinado aspecto de verdade que ela mesma, ao longo dos séculos,
foi aprofundando.”
(Chiara Lubich, fundadora do Movimento
Focolare)
uvistes
dez mil histórias sobre nós, que somos chamados protestantes.
Se credes em apenas um milésimo destas histórias, deveis
pensar muito mal de nós. (...) Daí se destrói completamente
o amor fraternal; e cada grupo, encarando o outro como monstro, dá
lugar à ira, ao ódio, à maledicência, a todo
sentimento não-amistoso que, frequentemente, tem resultado em barbaridades
desumanas, quase desconhecidas entre os pagãos.”
(John Wesley, fundador da Igreja
Metodista)
nova
atitude mental que o ecumenismo exige (...) leva cada Igreja a colocar
Jesus Cristo no centro de seu sistema referencial, e não ela mesma,
convencendo-se de que, se existe um retorno a ser feito, este cabe a cada
uma delas de modo idêntico.
Este
retorno é uma subida árdua do rio da história de
cada Igreja, carregado de conquistas espirituais, mas também poluído
pelas infidelidades de seus filhos, para chegar à nascente, onde
encontramos a água pura da Palavra de Deus vivida com radicalidade
e generosidade, e que nos revela o contorno preciso da Igreja de Jesus.”
(Sandra Ferreira Ribeiro, teóloga)
ecumenismo
é um processo lento, às vezes desanimador, quando caímos
na tentação de sentir e não escutar, de falar sem
convicção, porque não é sempre fácil
abandonar o conforto. Mas se o ecumenismo é uma estrada lenta e
íngreme, como toda via de penitência, é também
um caminho que, apesar de suas dificuldades, apresenta amplos espaços
de alegria, paradas refrescantes, e permite também respirar a plenos
pulmões o ar da comunhão.”
(Papa Bento XVI, durante a Semana
de Oração pela Unidade dos Cristãos, janeiro de 2007)

Igreja
e igrejas

Encontro de Água - Declaração Ecumênica
sobre a água como Direito Humano e bem público |
mbora
separadas, as Igrejas orientais têm verdadeiros sacramentos e, sobretudo,
em virtude da sucessão apostólica, o Sacerdócio e
a Eucaristia. Assim, são consideradas pela Igreja de Roma como
“Igrejas particulares ou locais”. As comunidades cristãs,
nascidas da Reforma do século 16, não têm a sucessão
apostólica no sacramento da Ordem.
Segundo a doutrina católica, elas não conservam
a genuína e íntegra substância do Mistério
eucarístico e, portanto, não podem ser chamadas “Igrejas”
em sentido próprio. Além delas, chamadas igrejas históricas,
nasceram posteriormente as comunidades pentecostais e neo-pentecostais.
Concílio
Vaticano II exortou “todos os fiéis a que, reconhecendo os
sinais dos tempos, solicitamente participem do trabalho ecumênico”
(Documento sobre o ecumenismo). Em nível central, isso se realiza
através do Conselho Pontifício para a Promoção
da Unidade dos Cristãos, criado em 1960. Existem diálogos
bilaterais e multilaterais, tanto internacionais quanto em âmbito
nacional.
Eis alguns diálogos intereclesiais dos
quais a Igreja católica participa:
– Com as Igrejas Ortodoxas, a partir
do “diálogo da caridade” iniciado na década
de 1970 entre o patriarca Atenágoras e o papa Paulo VI.
– Com a Igreja Copta (uma antiga Igreja
oriental). A partir de 1974, depois da declaração
entre Paulo VI e o papa copta Shenouda III sobre divergências apenas
de linguagem e não de doutrina.
– A Igreja católica vem
mantendo diálogos constantes com as chamadas Comunidades da Reforma.
Conheça alguns documentos comuns: Com
luteranos:
Declaração conjunta sobre a Doutrina de
Justificação (1999).
Com a Aliança Reformada Mundial:
- Para uma compreensão comum da Igreja (1990).
Com Anglicanos: Igreja como comunhão
(1991).
 grande
teólogo reformado Oscar Cullmann afirmou:
“Devemos chegar à unidade não apesar,
mas através da diversidade”.
Ele elencou os carismas essenciais de cada uma
das três grandes tradições cristãs:
1.º
Carismas “típicos” do protestantismo:
– a concentração sobre a Bíblia;
– a liberdade cristã, que favorece a abertura para o mundo.
2.º
Carismas essenciais do catolicismo:
– a universalidade;
– a instituição (sendo um carisma, a organização
protege o espírito: 1 Cor 14,33-40);
– o papado, com a condição de ser concebido como serviço
petrino.
3.º
Carismas próprios da Igreja ortodoxa:
– aprofundamento teológico do Espírito
Santo;
– preservação das formas tradicionais da liturgia.
Iniciativas
atuais (2006):

Celebração Ecumênica durante encontro da Conferência
sobre História Latino-Americana |
–
Janeiro. Uma comissão internacional católico-reformada
publicou o documento “A Igreja como Comunidade de Testemunho comum
ao Reino de Deus”, em comemoração ao processo de diálogo,
iniciado em 1970.
–
Julho. A “Reunião de cúpula dos Chefes
de Estado Religiosos”, promovida pelo Patriarca de Moscou, Alexis
II, solicitou a adesão da Santa Sé.
–
Novembro. O arcebispo de Canterbury e primaz da Comunhão
Anglicana reza com o papa no Vaticano. Visita apostólica do papa
à Turquia e encontro com Sua Santidade Bartolomeu I.
–
Dezembro. O arcebispo de Atenas, Sua Beatitude Christodoulos,
visita o papa no Vaticano.

1.º Renovação
da Igreja, para que seja, cada vez mais, fiel ao evangelho.
2.º Conversão do coração
(humildade, fraternidade, reconhecimento mútuo das faltas contra
a unidade).
3.º União na oração, para
impetrar a graça da unidade.
4.º Conhecimento mútuo: estudo das outras
igrejas, segundo a verdade e na caridade.
5.º Formação ecumênica:
o estudo da teologia e da história deve ser ministrado do ponto
de vista e com sensibilidade ecumênica.
6.º Cooperação no campo social
para enfrentar juntos, como cristãos, os problemas da nossa
época.
CAMPANHA
DA FRATERNIDADE DE 2010 SERÁ ECUMÊNICA
Oração durante encontro ecumênico |
presidente
do CONIC, pastor Carlos Möller, recebeu do presidente da CNBB, dom
Geraldo Lyrio Rocha, no dia 20 de agosto, a comunicação
de que a Assembléia dos Bispos aprovou, em maio, o pedido de mais
uma Campanha da Fraternidade Ecumênica em 2010 (a primeira foi em
2000 e a segunda em 2005). O pastor Carlos lembrou que o CONIC comemora,
neste ano, 25 anos de fundação e para celebrar a data será
realizado, de 15 a 17 de setembro, o Seminário “Ecumenismo
e Missão – Para que todos sejam um”.
ECUMENISMO
NÃO É DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO
nquanto
o ecumenismo propõe a unidade entre os cristãos (católicos,
protestantes, ortodoxos), o diálogo inter-religioso é um
canal aberto entre cristãos e não-cristãos (judaísmo,
islamismo, budismo, hinduísmo,...).
ESTRUTURAS ECUMÊNICAS

Celebração da Semana de Oração pela
Unidade dos Cristãos 2005:
Dom João Braz; Pastor Luterano Renato Kühne e o
Bispo Anglicano Maurício de Andrade |
• Conselho Mundial das Igrejas (CMI)
A principal organização ecumênica
cristã mundial foi fundada em 1948, em Amsterdam, Holanda. Tem
sede em Genebra, Suíça. Congrega mais de 340 denominações
cristãs, que representam 500 milhões de fiéis, em
120 países, pelo menos.
Seu secretário geral atual é Samuel Kobia,
metodista. A Igreja católica romana não participa da organização,
mas mantém com ela grupos de trabalho em alguns departamentos,
como a Comissão de Fé e Ordem e a Comissão de Missão
e Evangelismo.
• Conselho Nacional de Igrejas Cristãs
(CONIC)
No Brasil, as Igrejas: - católica
apostólica romana, católica ortodoxa siriana do Brasil,
cristã reformada e as Igrejas protestantes históricas:
- luterana, metodista, presbiteriana unida e episcopal anglicana do Brasil,
pertencem ao CONIC, com sede em Brasília – DF. A entidade
foi fundada em 1982. Procura aproximar as igrejas cristãs, promovendo
debates e encaminhamentos práticos que levem à sua integração
e à comunhão.
CURSOS SOBRE ECUMENISMO
CESEP
– Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização
e Educação Popular
• Site: www.cesep.org.br
• E-mail: cesep@cesep.org.br
• Tel.: (11) 3105-1680
NOSSO
CONVITE!
MUNDO
e MISSÃO propõe aos seus leitores que se
reúnam EM DEBATE
nas escolas, paróquias, grupos de jovens, seminários, conventos,
centros de formação... Depois, encaminhem, por favor, para
nós, questionamentos, reflexões, opiniões, dúvidas,
para que possamos compartilhar com os outros leitores.
Participem!
Enviem
as conclusões (pessoais ou de grupo) para:
Editora MUNDO e MISSÃO
Rua Joaquim Távora n.º 686 – Vila Mariana
São Paulo – SP – 04015-011
E-mail: mundomissao@terra.com.br
Apresentamos
abaixo os links de vários artigos publicados sobre o tema ECUMENISMO:
é possível a unidade na diversidade? com
objetivo de favorecer a você uma reflexão ampla sobre ao
assunto:
-
O que é ecumenismo? - Ecumenismo é o processo de busca da
unidade
-
Ecumenismo não está em crise, chega a sua maturidade
-
Ecumenismo precisa de «purificação das estruturas»
|