Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização - Diálogo Interreligioso
|
Ir. Vera Lúcia Palermo
As freqüentes ocupações de terras nos arredores das cidades sinalizam para o descaso dos governos e ocasionam a conseqüente perda de raízes e expressões nas esferas pessoal, social e religiosa. Em abril de 1994, nasceu o Projeto Missionário da CNBB Sul 1 e Norte 1, com o apoio da CRB/SP (Conferência dos Religiosos do Brasil/São Paulo). Assim, surgiu a Comunidade Missionária Intercongregacional. Três Congregações participaram do projeto inicial. Hoje, seis partilham generosamente seus membros e carismas, fazendo acontecer, na diversidade, a unidade: - experiência relevante quando sonhamos com a re-fundação da vida religiosa. A cidade contemplada com o projeto foi Manaquiri, AM. O município tem 12 mil habitantes. Entre 4 e 5 mil residem na cidade, que, como tantas, cresce desordenadamente por falta de infra-estrutura e devido ao êxodo dos ribeirinhos, que buscam a sobrevivência e melhores oportunidades para manter a família. Os restantes espalham-se nas ribeiras dos rios, lagos e igarapés, vivendo da pesca e plantio de banana, alguns legumes e mandioca para fabricação de farinha.
Viajando pelos rios Ribeirinhos são os moradores das ribeiras dos rios, lagos e igarapés, que moram em palafitas ou em casas flutuantes. São pequenos agricultores, comerciantes, pescadores ou donos de barcos. O município é cercado pelos rios Solimões, Paranã do Manaquiri e Paranã do Janauacá. Ora cheios, ora secos, eles tornam sofrida a vida ribeirinha. Na cheia, o peixe é escasso; na seca, morre por falta d’água ou foge do calor intenso do sol escaldante. A educação acompanha o ritmo da água: - quando sobe muito, os estudantes não vão à escola, pois ela invade a escola; quando a estiagem é séria, o acesso à escola é impossível, já que as águas se esvaem por estreitos canais. Os jovens se evadem para Manaus. Família inteiras fazem a mesma coisa, em busca de melhores oportunidades de vida. A Paróquia São Pedro Apóstolo, à qual pertencemos, insere-se nessa realidade. Conta com 38 comunidades, divididas em 5 núcleos. Três comunidades estão na cidade e as demais, estão situadas nas ribeiras dos rios, lagos e igarapés. Algumas estão distantes uma ou mais horas de voadeira (o barco mais rápido) quando o rio está cheio; quando seco, a viagem leva até quatro horas ou mais. O acesso às outras comunidades, por “barco de linha”, leva metade de um dia. Quando chove, não é possível viajar.
As comunidades pautam-se pela devoção popular de promessas e desobriga sacramental. A elas as irmãs chegam por rabetas (botes), pois o único acesso é por água. Acolhidas por uma família, as irmãs comem e bebem do que tem, dormem em redes. E visitam as demais famílias. Uma irmã de cada uma das seguintes Congregações ou carismas partilha este sonho: Mensageiras de Santa Maria, Franciscanas de Bonlanden, Claretianas, Carmelitas de Santa Terezinha do Menino Jesus, Postelianas e Salvatorianas. Partilham teto e chão. Teto, por morarem na mesma casa; chão, por trilharem os mesmos caminhos, desafios e alegrias. A permuta dos carismas é enriquecedora, pois cada uma bebe em outras fontes. Sustentadas pela proteção e intercessão dos fundadores e fundadoras, vivem a alegria da missão. Enviando-nos, Jesus nos interpela através do Espírito Santo: - “Avancem para águas mais profundas e lancem as redes” (Lc 5,4). “Não temam. Estarei com vocês até o fim dos tempos” (Mc 16, 20). O Espírito de Deus nos provoca e convoca a sairmos dos casulos de nossas Congregações e avançarmos para lugares longínquos, sem lugar para reclinar a cabeça e sem a segurança dos conventos. Pelo batismo, mergulhamos na fonte original de nossos carismas e, enviadas em missão, inserimo-nos na realidade sofrida de milhares de irmãos e irmãs, excluídos da globalização mundial e, muitas vezes, até excluídos da Igreja. Inculturação é como estar em uma casa com pessoas desconhecidas, com cultura, expectativas e valores diferentes. Ao sermos convidadas, vamos com cuidado, observando tudo, reconhecendo o ambiente e aprendendo o jeito das pessoas se relacionarem, lidarem com as coisas, com os animais, com o trabalho. É um novo aprendizado. É entrar na vida do povo, deixando-nos evangelizar, numa mútua troca de experiências. É dar e saber receber. Exige paciência e esvaziamento de nós mesmas, para agregar o outro em nossa vida, sem deixar que a essência de nosso ser morra em nós.
Itinerância Re-fundar é também sair de si, lançar redes no além-mar (rio) e voltar às fontes no desejo ardente dos fundadores e fundadoras que, na sua experiência, deixaram-se conduzir pelo Espírito e remaram contra a corrente para além fronteiras. O que nos sustenta no projeto missionário Manaquiri é o desejo de um trabalho partilhado, fruto de uma mística, que coloca Deus no interior da vida e da história. Sabemos que este amor missionário não surge por si mesmo, mas a partir de uma profunda experiência de Deus, na Eucaristia, e uma paixão vinda do coração pela vida e pela causa do Reino de Deus. Amor este que suscita a vibração, o entusiasmo, a alegria e a coragem para enfrentar qualquer tipo de conflito, dificuldade e ou perseguição. Os pobres nos evangelizam, e nos mostram que ser missionárias é não nos deixarmos envolver pelo ativismo que faz de nossas vidas o centro de tudo, mas nos situarmos no coração de Deus, deixando que Ele leve a nossa vida a uma entrega maior. A missão é o encontro de pessoas no caminho e não na segurança de uma casa. É peregrinar e desinstalar-se continuamente. É subir a montanha, às pressas, deixando que nossos ventres se encontrem, como Maria e Isabel, sem esperar que o outro apareça. A espiritualidade que sustenta a nossa missionariedade é a da itinerância em busca do Reino de Deus, uma busca sempre nova e que se faz encontro. Encontro com Deus, com a irmã, com o irmão de caminhada. Ser missionário é ser discípulo na itinerância e na busca do essencial. Inserindo-se no meio dos pobres, é deixar-se evangelizar por eles. É estar sempre a caminho, pois o caminho “se faz ao caminhar”. Quando termina uma jornada, se há de começar outra, de um modo totalmente novo. O missionário é aquele que está sempre pronto a partir. |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]