Revista "MUNDO e MISSÃO"

Estatísticas

por Luiz Geninazzi

No primeiro Congresso dos
Católicos da Europa do Leste
(ex-URSS comunista), os
testemunhos dos leigos
manifestam um ardor pela renovação
da vida civil e religiosa, abrindo novas
perspectivas para o futuro.

Os novos leigos católicos

professor Aleksei Yudin tem o mesmo itinerário espiritual de muitos leigos da ex-URSS. Hoje com 40 anos, de família atéia, ele se converteu ao cristianismo aos 21 anos, em pleno regime comunista. "Os crentes - lembra Yudin - tinham um semblante e um olhar diferente de todos os outros. Para mim, foi uma verdadeira surpresa quando, um dia, descobri que o professor de universidade que mais estimava, era um monge ortodoxo, obrigado a esconder sua identidade para poder lecionar. Foi ele que me introduziu à fé."

Yudin, porém, preferiu ser batizado na Ucrânia, numa igreja católica. Tinha sido perturbado por um breve encontro com Madre Tereza de Calcutá. "Não conseguia desviar os olhos dela; era um ícone vivo do qual transparecia uma beleza interior que me fascinou." Hoje, Yudin, com barba de intelectual russo, olhos vivazes, é professor na Universidade Humanística de Moscou, onde leciona história das religiões. Comprometido na comunidade católica local, membro do Conselho Vaticano para os Leigos, é um protagonista do congresso que se realizou no mês de outubro em Kiev, para os países da ex-Rússia.

Prof. Yudin, sendo leigo católico, como está vivendo a passagem da ditadura comunista para a liberdade?

- Na era comunista, um leigo crente nada ou quase nada podia fazer em âmbito público. Podia fazer muitas coisas para si e no círculo, muito restrito, de amigos com os quais nós nos encontrávamos em longas discussões noturnas. Tínhamos a fé, mas não as estruturas eclesiais, nem um bispo nem uma paróquia. E as estruturas políticas, sociais e culturais eram todas contra a possibilidade de um laicato ativo e responsável.

Era, então, uma situação frustrante?

- Sim e não. Limitados no plano da ação, tínhamos tantos sonhos e projetos. Ao mesmo tempo, a sociedade russa começava a se abrir. Nos anos oitenta, na época da Perestroika de Gorbachov, havia uma grande vivacidade cultural e política; nasciam, todo dia, novos grupos e novos movimentos, havia um entusiasmo que animava as nossas reuniões semiclandestinas: como crentes, devíamos levar a nossa contribuição à democracia profanada.

Queríamos enxertar princípios cristãos na vida pública dominada pela ideologia e propaganda falsa. Muitos amigos deram início à "Democracia Cristã da Rússia", um partido que não teve muito sucesso. Eu tive sempre uma atitude bastante crítica: entrar na política com a grande confusão de siglas e de programas de então, queria dizer começar com o pé errado. Achava que os âmbitos decisivos onde testemunhar a fé, deviam ser outros. Pensava na cultura e na formação.

Por isso escolheu e ensino na universidade?

- Como cristão engajado no ensino, o primeiro pensamento foi criar uma sala de livros religiosos dentro da biblioteca da universidade. Os estudantes de então não conheciam nada do cristianismo, pois os textos religiosos tinham sido proibidos. Esse foi meu primeiro serviço como leigo. Sozinho, naturalmente, não teria conseguido nada. Recebi muita ajuda de amigos italianos, através da "Rússia cristiana". Em seguida, colaborei para a criação de uma paróquia em Vladimir, com pe. Estêvão Caprio.

Uma experiência trabalhosa?

- Para mim, foi a realização da frase bíblica: "Eis que faço novas todas as coisas". Referia-me a nossa relação com as pessoas e com os fiéis que são as pedras vivas da Igreja. Ainda havia muitos problemas jurídicos, tantas dificuldades burocráticas como em outros países.

As vítimas da ditadura

Quantos foram os católicos, vítimas da ditadura comunista, durante os quase oitenta anos em que dominou a URSS? Difícil ter uma resposta exata, pelo menos no que diz respeito aos leigos. Não existem registros policiais nem aparecem números exatos nos documentos da Lubianca, publicados na Rússia em 2000.

Parece que, por motivos "religiosos, políticos e ideológico", entre 1918 e 1958, foram presas 7.024.936 pessoas, das quais 839.772 foram mortas e as outras se perderam nos gulags. Entre elas encontravam-se sacerdotes, leigos, católicos, ortodoxos, muçulmanos e judeus. Alekxander Jakovles, encarregado pelo presidente Boris Ieltsin para a reabilitação das pessoas, teria afirmado que os ministros das várias religiões, deportados ou mortos na ditadura comunista, seriam mais ou menos uns 200 mil. Todavia, nunca aparecerão dados confiáveis.

O catolicismo na ex-URSS era predominante em dois países: na Ucrânia (latinos e greco-católicos) e na Lituânia. Na Ucrânia, a Igreja greco-católica foi proibida em 1946 e ressurgiu em 1989, mas não se tem um número certo das vítimas, embora se presuma que foram milhares. Da Lituânia, foram deportadas, entre 1941 e 1948, mais de 60 mil pessoas, acusadas de anticomunismo, o que englobava motivos religiosos e políticos.

Para um leigo católico é difícil testemunhar a sua fé na Rússia, hoje?

- Bom, no tempo da perestroika, eu e os amigos ortodoxos éramos profundamente unidos. Juntos fazíamos tantos projetos de como anunciar o Evangelho. Depois, com a chegada da liberdade, tudo mudou. As estruturas hierárquicas ortodoxas se revelaram um obstáculo ao desejo de unidade que tínhamos iniciado.

E nas estruturas católicas, os leigos têm reconhecimento?

- Somente quando existe um bispo, existe plenamente a comunidade eclesial. A criação da Administração Apostólica na Rússia foi uma virada importante. Hoje, temos várias iniciativas como a Caritas, temos um semanário católico Sviet Evangela - Luz do Evangelho - em que estão engajados os leigos.

A Igreja tenta se abrir ao mundo, mas, de fato, ainda deve se defender de ataques e de acusações dos ortodoxos. Neste contexto, o papel dos leigos precisa encontrar uma formulação adequada. É um caminho longo e difícil. Mas que, de toda maneira, deve ser percorrido.

 

 

 

O primeiro congresso de um renascimento
O primeiro Congresso dos Leigos Católicos dos países da ex-Rússia, organizado pelo Pontifício Conselho para os Leigos, realizou-se em Kiev, na Ucrânia, na segunda semana de outubro. Estavam presentes 300 delegados dos 14 países da antiga Rússia e tinha o intuito de revitalizar o papel dos leigos nessa fase de renascimento das comunidades católicas, após a queda do comunismo russo.
Presença cristã nos países ex-comunistas
País
População
Cristãos
%
Católicos
%
Armênia
3.420.000
2.956.000
84
150.000
4,3
Azerbaijão
7.734.000
358.000
4,6
100
0,001
Bielorússia
10.236.000
7.191.000
70
1.037.000
10,1
Estônia
1.396.000
886.000
63,5
6.000
0,4
Geórgia
4.968.000
309.000
62,2
100.000
2
Letônia
2.357.000
1.578.000
66,9
415.000
17,6
Lituânia
3.670.000
3.214.000
87
2.880.000
78,5
Casaquistão
16.223.000
2.710.000
16,7
178.000
1,1
Moldávia
4.380.000
3.014.000
68
20.000
0,5
Rússia
146.934.000
84.308.000
57,4
804.000
0,5
Tajiquistão
6.188.000
131.000
2,1
*
*
Turcomenistão
4.459.000
102.000
2,3
1.000
0,02
Ucrânia
50.456.000
41.868.000
83
4.804.000
9,5
Uzbequistão
24.318.000
401.000
1,7
3.000
0,01

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