Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Natal e a carta
do evangelista João

por Renold J. Blank

s meus olhos ainda estão deslumbrados pelas luzes dos grandes centros de consumo, nas minhas orelhas ainda soam as músicas dos vendedores... Gostaria de começar a nossa meditação com uma frase do apóstolo João, da qual todos esquecemos, mas que hoje é ainda tão atual como na época em que ele a formulou. Gostaria que vocês, caros leitores, pegassem a frase e a colocassem no meio do evento que, de novo, estamos celebrando e do qual, de novo, estamos no perigo de esquecer até o ano que vem. Gostaria que colocassem esta frase no meio dos acontecimentos de Belém.

A frase se encontra nas cartas de João, escritas às sete comunidades da Ásia (Ap 1,4ss); mas penso que poderíamos colocar nela, sem problema nenhum, os endereços das nossas próprias comunidades. Nós somos destinatários de sua carta e ela se tornou a grande objeção para a nossa época, porque nos incomoda. Mas, apesar disso, devemos ouvir suas palavras como foram escritas: "devo reprovar-te", escreve João, "por teres abandonado o teu primeiro amor".

Uma tal censura, ele nos faz agora, no momento em que todos celebramos o nascimento de Nosso Senhor, com grande festa e enorme lucro comercial, em que, provavelmente, cantamos ou, pelo menos, ouvimos as antigas músicas de Natal, e, com milhões de irmãos e irmãs, ficamos felizes porque Deus se tornou homem em Belém. Numa época de festa e de alegria, encontramos essa carta em nosso correio que tem a ousadia de nos reprovar por termos abandonado o nosso primeiro amor. Podemos, é claro, passar por cima de suas palavras. Podemos encolher os ombros e continuar a viver.

Podemos dizer "eu vivo a minha vida" e, com isso, no fundo, temos razão. Nós vivemos a nossa vida, isso é verdade. Mas, vivendo essa vida e dizendo que somos cristãos e cristãs, temos assumido também a obrigação de vivê-la conforme os princípios daquele Deus que mantém a todos nós. Daquele Deus, para o qual, todos nós, no fim de nossa vida, voltaremos.

Uma reprovação

E é esse Deus que, pela boca do apóstolo, nos transmite, nesta época de Natal, uma tal mensagem: uma reprovação. Exatamente agora que ficávamos até um pouco orgulhosos, pensando que ainda nos distinguimos de muitos, para os quais o Natal se tornou simplesmente uma festa de consumo e de comércio. O que essa frase tem a ver conosco, sendo que nos esforçamos para fazer aquilo que um bom cristão faz? Santificamos o domingo, rezamos, e em andar com prostitutas nem pensamos. Por que, então, uma tal reprovação? A indagação é legítima, mas, apesar dela, a reprovação nos foi mandada.

Eu te reprovo, por teres abandonado teu primeiro amor! Endereçada não aos ímpios e aos ateus e nem àqueles que desprezam os mandamentos de Deus. Endereçada à comunidade dos fiéis. Endereçada a nós. O que há, então, devemos perguntar, com esse primeiro amor? O que esse Deus quer dizer com esse primeiro amor, como se nós não o tivéssemos mais, não obstante fazermos tudo aquilo que a lei e os mandamentos exigem. A resposta que ouvimos a essa nossa indagação é tão chocante, que muitos de nós, talvez, até fiquem indignados.

Isso porque, na sua resposta, Deus questiona exatamente aquilo que para muitos cristãos e muitas cristãs se tornou o centro de todo o seu ser cristão: os exercícios de piedade e a observância escrupulosa das regras. Na sua resposta, Deus não aponta, em primeiro lugar, no número necessário de terços que devem ser rezados e nem menciona exercícios de penitência. Na sua resposta sobre o que, para Ele, significa aquele primeiro amor, que tanto quer, Deus menciona o ser humano. E aponta, de maneira direta, aquele ser humano, que nem queremos ver e que temos eliminado de nossos pensamentos e, às vezes, até das nossas celebrações: o pobre.

O primeiro amor

Deus aponta para o pobre! É a ele, como tudo indica, que se dirige o seu primeiro amor.
Este amor se dirige de tal maneira a ele, que o próprio Deus, quando se tornou homem, não apareceu no templo de Jerusalém, com poder e glória, como todos nós teríamos gostado muito. Ele, tampouco, se manifestou no palácio de Herodes ou de algum outro grande de sua época. Quando se tornou homem, apareceu como pobre e morreu num patíbulo.

Durante toda a sua vida, foi pobre e os primeiros destinatários da mensagem sobre o seu nascimento não eram os grandes do mundo político ou econômico, nem os dignitários da estrutura religiosa, mas os pobres, aqueles, aos quais todos aqueles grandes nem pensavam.
Era aos pobres que Deus se dirigiu primeiro. E, com essa atitude, confirmou a tradição bíblica milenar que sempre o chamou de "go´el", de defensor de todos aqueles que não têm mais defensor.

É assim que Jesus se manifestou. Como Deus - que, incondicionalmente, se coloca ao lado de todos os excluídos - chamou os seus seguidores a fazer o mesmo; como nos chama a fazer o mesmo, como chama a sua Igreja? "Vem e segue-me!" Convite e vocação, cujo significado é este: vem e faça o mesmo que eu fiz. Ele até pediu que amássemos aqueles que ninguém ama e que foram esmagados debaixo das rodas do mundo de consumo. E definiu que é esse o sinal de nosso amor por Ele.

No capítulo 25 de Mateus, há aquele texto que sempre nos incomoda, em que o próprio Deus estabelece a identificação entre si e os excluídos de todas as épocas. "Eu tive fome, e me destes de comer, eu tive sede e me destes de beber, eu era forasteiro e me acolhestes, eu estive sem roupa e me vestistes, eu estive doente e me visitastes, eu estive preso, e viestes me ver". O seu amor por mim, diz Deus, se manifesta pelo amor junto aos seus irmãos e irmãs. O nosso amor a Deus se manifesta no amor por aqueles que Ele ama.

E o amor de Deus se dedica, em primeiro lugar, aos não-amados, aos excluídos, esquecidos, rejeitados, marginalizados e pisados. Assim é Deus. Quem quiser amar a Deus, não deve começar com a observância escrupulosa de leis e regras, mas com o amor por aqueles que Deus ama primeiro. Parece, porém, que é exatamente desse primeiro amor que nos afastamos, no decorrer de um processo histórico de séculos. Eu te reprovo, por teres abandonado teu primeiro amor! Para que voltemos a esse primeiro amor, Deus nos chama.

O seu chamado não é nem ameaça nem repreensão. É um convite de amor. É convite para que nós, que somos a sua Igreja, nos convertamos e comecemos a amá-lo ali, onde o seu primeiro amor se manifesta. Que essa dimensão central de nossa religião cristã se torne, cada vez mais, consciente, como chamado e vocação. Esses são os meus votos mais sinceros para todos os nossos leitores e todas as nossas leitoras.

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