Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

 

Sínodo sobre a Eucaristia é talvez o sinal que a Igreja escolheu para se concentrar sobre sua vida interna. É uma questão emergente entre todos os que, depois do evento, se interrogam sobre ele.

Pergunta-se:

- mudou alguma coisa? Mas, nesta altura há uma pergunta mais profunda: para a Igreja, o que significa mudar? Mudar não quer dizer adaptar-se ao que parece ser a agenda ditada pela opinião pública. Tais problemáticas mudam conforme os humores, os tempos, as conjunturas. Na verdade, mudar a vida da Igreja é uma questão profunda e original, bem diferente das adaptações que acontecem de tempos em tempos. Mas, para que serve um Sínodo então, se não se decide nada de novo? Aqui se toca um ponto importante da comunhão e da comunicação da Igreja. Quando se argumenta que o Sínodo não é mera assembléia parlamentar, não significa que ele não vota leis, apenas, ou que não decide segundo o costume das democracias liberais. O Sínodo é um evento de comunhão eclesial. Por isto, a sua qualidade espiritual é decisiva. O debate entre os bispos, as intervenções, as três semanas de reunião, o conjunto do evento têm sido impregnados por um forte clima espiritual.

Os bispos não se falam apenas à distância:

não entregam as próprias preocupações, suas alegrias, apenas através da imprensa, não exprimem posições cristalizadas e contrárias. Eles não discutem de maneira ideológica, como facções de um senado mundial; mas, a partir da realidade da própria experiência pastoral, interrogam-se juntos sobre o melhor para a Igreja.

O encontro dos bispos com o Santo Padre já tem, por si só, um valor de comunhão:

- ver-se pessoalmente, rezar juntos, ouvir-se pacientemente, conhecer-se, alargar os próprios horizontes... A unidade da Igreja foi proclamada e vivida, durante o Sínodo, em diversas línguas, a partir de diferentes realidades cristãs, que se colocaram em relação recíproca e se manifestaram, através dos bispos sinodais, a respeito da Eucaristia. O encontro pessoal e a oração comum são partes irrenunciáveis na vida da Igreja. Ver-se e manifestar-se pessoalmente é importante. Os meios de comunicação de um mundo globalizado não substituem o encontro pessoal, como o apóstolo Paulo fez ao subir a Jerusalém para encontrar Pedro e os outros. Antes de tudo, os bispos viveram e reafirmaram o “deslumbramento” frente ao grande dom da Eucaristia. É uma expressão evangélica (o estupor frente aos milagres e à pessoa de Jesus), sugerida pelo relator geral, cardeal Scola, que bem exprime a tomada de consciência de um dom totalmente gratuito.

Na Mensagem final, o Sínodo advertiu:

- “Ninguém pode considerar-se dono da liturgia da Igreja”. A consciência da gratuidade constitui a vida da Igreja e a caracteriza, de modo muito especial, num mundo onde, ao invés, tudo se vende e tudo se compra. O Sínodo reafirmou que tudo vem de Deus, do dom que fez de si mesmo, dom gratuito. O estupor é sempre acompanhado pelo escândalo, no sentido paulino, que existe em nossa mentalidade e nossa cultura. No fundo, uma lógica mercantilista e economicista se escandaliza; mas é uma lógica sempre pronta a entrar no nosso pensamento eclesial, desconjuntando aquela que é a consciência maravilhada pelo grande dom de Deus. Sob essa perspectiva, entende-se o significado espiritual do Sínodo, que terá um reflexo nas diversas Igrejas particulares e nos mais diversos ambientes cristãos. A partir da Eucaristia, nós nos imergimos novamente naquela cultura da gratuidade que acompanha a fé cristã. Isto deve emergir dos corações dos cristãos e brilhar sobre a face da Igreja como alegria.

Seria uma grande mudança (este é o modo de mudar da Igreja):

- viver a alegria da qual o próprio papa Bento XVI fala freqüentemente e que o Sínodo evocou. O Sínodo dos Bispos concentrou-se em uma temática ad intra, íntima. Mas, na lógica da vida eclesial, a concentração ad intra não é omissão de quanto é ad extra: pelo contrário, os dois aspectos estão profundamente ligados. Na mensagem final foi falado de uma tomada de consciência sobre “as situações dramáticas e de sofrimento causadas pelas guerras, pela fome, pelas diversas formas de terrorismo e de injustiça, que agridem a vida cotidiana de centenas de milhões de pessoas”. O cenário da secularização dos países ocidentais foi lembrado várias vezes. Isso aconteceu porque os contemporâneos, cristãos e não-cristãos, ricos e pobres, estiveram presentes no Sínodo,como o estão em certa maneira na oração, quando se celebra a Eucaristia. Quando a Igreja se abriga na Eucaristia, abre-se com grande amor a todos. A Igreja, que encontra no “partir o pão” o seu coração, projeta-se ad extra com o rosto exultante e renovado no encontro com o Senhor vivo.

A mensagem sinodal se dirige a todos os cristãos, aos sacerdotes, aos consagrados, aos jovens, às famílias, aos seminaristas, aos doentes e aos deficientes:

- a todos fala de renovação “do entusiasmo apostólico e missionário”. Quando a Igreja se abriga em torno da Eucaristia, reencontra a emoção profunda pela multidão, aquela de Jesus que o relato evangélico nos mostra. É a emoção que a faz comunicar o Evangelho, que a aproxima de quem sofre. Ao longo desta estrada, ela não é chamada a dar aquilo que não tem, portanto, a adaptar-se à lógica da cultura deste mundo, fazer a análise dos desejos a partir dos quais avaliar a própria oferta, ao imitar as instituições internacionais ou políticas.

Como o apóstolo Pedro diante do homem aleijado, sentado à porta do templo de Jerusalém, ela diz à humanidade do tempo presente:

“Não tenho nem ouro, nem prata, mas o que tenho te dou, em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e caminha” (At 3, 4). Não tem a moeda corrente deste mundo; mas dá com alegria aquilo que recebeu do seu Senhor.

(L’Osservatore Romano)

O QUE É UM SÍNODO?

O Sínodo dos bispos é uma instituição permanente, decidida pelo papa Paulo VI em 15 de setembro de 1995, em resposta aos desejos dos bispos no Concílio Vaticano II de manter vivo o espírito vivido durante a experiência conciliar.

Literalmente, a palavra “Sínodo” é derivada de duas palavras gregas:

- syn, que significa “juntos” e hodos, que quer dizer “caminho”, “estrada”. Sínodo, então, significa “caminhar juntos”. Um Sínodo é uma assembléia na qual bispos, reunidos com o Santo Padre, têm a oportunidade de interagir e de compartilhar informações e experiências, na procura comum de soluções pastorais que tenham validade e aplicação universal.

É um órgão consultivo que pode ser convocado pelo Pontífice em qualquer tempo, conforme as necessidades da Igreja. Alguns sacerdotes, leigos especialistas, religiosos e religiosas, inclusive representantes de outras confissões, podem ser convidados a participar das assembléias, como observadores.

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