Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
Para guardar viva e eficaz a memória de seu testemunho, desde os primeiros séculos da Igreja, os cristãos começaram a recolher os nomes dos mártires locais, cientes de que “o sangue dos cristãos é uma semente”: o “mártir”, aquele que derramou o sangue por Cristo, é a “testemunha” – este é o sentido da palavra martys em grego –, por excelência, da fé em Cristo morto e ressuscitado e, no lugar de seu martírio, os cristãos começaram a celebrar a Eucaristia, memorial do sangue derramado, por todos, pelo Senhor Jesus. Logo, cada Igreja local começou a ajuntar às listas dos mártires também os bispos que guiaram o povo cristão, assim como os nomes de “virgens” e “confessores”. Porém, com o multiplicar-se das divisões entre as Igrejas, essa memória dos santos acabou tomando um caminho contrário ao que tinha caracterizado seu início e uso por vários séculos: cada Igreja, de fato, acrescentava, à lista dos santos, apenas pessoas de sua confissão, chegando até a apagar nomes já presentes, somente porque pertencentes a Igrejas “cismáticas”. A Reforma protestante teve um impacto considerável sobre a memória litúrgica da “comunhão dos santos”: algumas Igrejas, como a da Inglaterra, reduziram-na às testemunhas das quais fala a Escritura, outras – para reafirmar a unicidade de Cristo como mediador entre Deus e os homens – contestaram as festas dos santos, até eliminá-las da vida da Igreja.
Uma nova inversão de tendência, todavia, emergiu justamente com o movimento ecumênico do século passado. Por demasiado tempo, em nome da “verdade”, que cada um pensava possuir de maneira exclusiva e plenamente, combateu-se o diferente, o cristão de outras culturas e confissões, até usar as próprias figuras das testemunhas para ferir e acusar os “adversários”. Mas, por graça do Senhor, nos nossos dias, os cristãos de todas as Igrejas e latitudes tornaram-se mais conscientes de que o terceiro milênio precisa não de apologistas brigando uns contra os outros, e sim de testemunhas do cristianismo. Hoje, é cada vez mais urgente que homens e mulheres testemunhem a eterna verdade da ressurreição de Cristo na história, através de sua fidelidade ao Evangelho, até aceitar morrer, para que a boa notícia da vida, mais forte que a morte, seja narrada como uma razão pela qual vale a pena viver e dar a vida. João Paulo II, na Tertio millennio adveniente, achou palavras de rara eficácia para reafirmar toda a centralidade da “comunhão dos santos” no anúncio do Evangelho: “No final do segundo milênio, a Igreja tornou-se novamente Igreja dos mártires (...), seu testemunho dado por Cristo, até o derramamento do sangue, tornou-se patrimônio comum de católicos, ortodoxos, anglicanos e protestantes: é um testemunho que não se pode esquecer porque o ecumenismo dos santos, dos mártires é talvez o mais persuasivo” (n.º 37). Sim, hoje, nós, cristãos de todas as confissões, podemos voltar a proclamar todos juntos: “Creio na comunhão dos santos”. Como lembrava um teólogo ortodoxo, “Os grandes homens não têm pátria, pertencem a toda a humanidade. Assim os santos: ultrapassam as fronteiras confessionais e pertencem à humanidade inteira e não podem ser circunscritos no âmbito relativo de uma Igreja. São santos de toda a Igreja”. |
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