Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

A influencia monástica no
cristianismo russo

por Joshuah de Bragança Soares

uando os eslavos fizeram de Kiev um Estado capaz de impor respeito ao império bizantino, no século 10, perceberam que a força unificadora do grande império era a religião cristã, merecedora de crédito pela beleza do culto e coerência dos valores morais, que faltavam às tribos eslavas. Por isto o grande príncipe Vladimir, em 988, proclamou o cristianismo bizantino religião oficial de seu Estado.

Sabendo, porém, que a religião não se impõe por decreto, tomou o exemplo das populações búlgaras e eslavas vizinhas e trouxe para Kiev missionários bizantinos, que logo se beneficiaram da grande vantagem de anunciar o Evangelho no próprio idioma eslavo, usando os textos litúrgicos e bíblicos traduzidos, havia um século, por Cirilo e Metódio, evangelizadores das tribos das atuais repúblicas tcheca, eslovaca e húngara.

CIRILO E METÓDIO

No século 9, quando, na Morávia e Bulgária, os governantes e o clero do Império Germânico se achavam em lutas políticas e religiosas com o Império Bizantino, o príncipe Rotislav da Morávia pediu missionários ao imperador bizantino para educar seu povo. O Patriarca Fócio destinou para este empreendimento o seu discípulo Constantino, que mais tarde tomou o nome monástico de Cirilo.

Este, com seu irmão Romano, que tomou o nome monástico de Metódio, adotaram uma estratégia missionária inovadora: em vez do idioma litúrgico tradicional (o grego), que os eslavos não conheciam, usaram o vernáculo, para o qual traduziram os textos litúrgicos e bíblicos depois de criarem o alfabeto cirílico, baseado nos primitivos caracteres glagolíticos. Apareceram logo traduções de vidas dos santos e obras dos Santos Padres. Apesar de serem os primeiros missionários eslavos, Cirilo e Metódio ficaram esquecidos por mil anos entre os eslavos.


Panorama do Mosteiro da Trindade - São Sérgio

Só no século 19 é que a Igreja Ortodoxa Russa instituiu uma celebração dos dois santos em maio, depois que o mesmo tinha sido feito pelos católicos, após a encíclica Grande Munus (O Grande Dever) do papa Leão XIII, atendendo a uma petição antiga do Concílio Vaticano I. Em nossos dias, o papa João Paulo II homenageou mais de uma vez esses dois santos e, com a encíclica Slavorum Apostoli (Apóstolos dos Eslavos), proclamou-os padroeiros da Europa.

KIEV – O CRISTIANISMO E OS MONGES

No Estado kieviano, recém-cristianizado em 988, o braço secular e o eclesiástico se uniram para construir uma grande nação. O centro político e social do Estado eram o palácio e o mosteiro; o palácio impunha as leis e controlava a vida dos cidadãos; aos monges competia o desafio de aconselhar os príncipes e, por ordem deles, extirpar a idolatria e compatibilizar os hábitos pagãos com as novas crenças e bons costumes dos vizinhos bizantinos, que ofereciam uma cultura mais nobre. Assim, Kiev deve aos monges muito da sua grandeza.

OS INICIADORES DO MONAQUISMO

A tradição bizantina recebida do Egito, mostra os monges como pessoas que fugiam do mundo pagão para buscar a salvação da alma no deserto, dedicando-se à oração, jejum e mortificação. Os primeiros monges da era de Kiev foram Antônio e Teodósio, fundadores do mosteiro das Grutas de Kiev. Antônio, após um tirocínio no Monte Athos, foi enviado pelo Superior de volta à sua terra. Não encontrando um mosteiro de estilo grego, iniciou algo parecido em uma gruta na periferia de Kiev.

Logo foram atraídos para aquela vida muitos companheiros, entre os quais, Teodósio, o primeiro santo monge canonizado da Rússia. Com o aumento imprevisto do número de monges, Teodósio viu-se forçado a transformar o estilo de vida eremítica (solitária) em cenobítica (comunitária). Mandou buscar o regulamento do Mosteiro do Studion, de Constantinopla, que impunha aos monges um horário certo para os ofícios litúrgicos, meditação, trabalho e estudo, além de rigoroso código social, com proibição de possuir bens e obrigação de prestar assistência aos pobres, desamparados e peregrinos.

O caráter urbano do monaquismo de Kiev criou a imagem do Cristianismo russo, como é conhecido hoje, marcado pela atmosfera simbólica do culto, com recitação dos salmos – o monge deve saber de cor os 150 salmos –, longas orações, cânticos e leituras bíblicas; acolhida aos peregrinos, vendo neles o próprio Cristo, e ainda, o exercício da mansidão, da paciência e, acima de tudo, da solidariedade. O bom cidadão era o que praticava os mandamentos, trabalhava, jejuava e orava, a exemplo dos monges.

Assim, a vida monástica civilizou a sociedade civil; o próprio linguajar do povo assimilava o modo de falar e relacionar datas e acontecimentos conforme o ciclo das festas eclesiásticas, com vigílias e pós-festas, jejuns e dietas, tudo meticulosamente prescrito no Regulamento Litúrgico, denominado Tipikon. A influência monástica só diminuiu quando o monaquismo foi sufocado, durante dois séculos, pela ocupação mongólica.

SÃO SÉRGIO DE RÁDONEJ

São Sérgio, do povoado de Rádonej, perto de Moscou, tornou-se a figura central da história da Rússia, no século 14, como educador do povo e restaurador da vida nacional, oprimida pelas hordas mongólicas. O monge: São Sérgio embrenhou-se na mata virgem, nos arredores de Moscou, em busca da vida eremítica, mas foi logo procurado por muita gente, atraída pelo mesmo ideal, e teve que optar pelo monaquismo comunitário.


São Sérgio, do povoado de Rádonej

O mundo pragmático considera os monges pessoas inúteis para a sociedade, mas Sérgio e seus companheiros contribuíram, mais do que ninguém, para o ressurgimento da vida material e espiritual da nação, arruinada pelo invasor. Sem nunca ter escrito regras ou tratados, ele restaurou o monaquismo, ditando princípios básicos: fé, esperança, mansidão, pureza de alma, concórdia, hospitalidade, oração, jejum e um grande respeito e amor à natureza.

Os inúmeros mosteiros fundados por ele e seus monges foram escolas que educaram e produziram uma plêiade de grandes santos. O político: São Sérgio era venerado, ainda em vida, como servidor dos pobres, amigo dos bispos e conselheiro dos governantes. Exortava os seus monges e os governantes a se unirem para não se enfraquecer, enfrentar os dominadores infiéis e criar uma nação forte. Como hábil diplomata, percorreu distantes principados e reconciliou príncipes desunidos por guerras fratricidas.

O seu ato político mais ousado foi a bênção e garantia ao Príncipe Dimitri Donskoi para combater os mongóis, em 1380. E coube a São Sérgio a glória de ter quebrado o mito da invencibilidade dos mongóis. O inovador: na esfera civil, os mosteiros que São Sérgio fundou foram escolas de letras, cultura e arte. Na esfera religiosa, introduziu o culto à SS. Trindade. Foi a partir dele que a Igreja começou a consagrar templos à SS. Trindade, enaltecendo o símbolo de união e concórdia. O primeiro destes mosteiros veio a ser o grande centro de resistência aos invasores da Rússia e é hoje a maior fonte de irradiação da vida cristã na Rússia.

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