Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

O futuro da missão


Dom Lapierre

Reproduzimos parte da palestra de dom François Lapierre, bispo de Saint-Hyacinthe, Canadá, pronunciada no Cam2

por François Lapierre

MUNDIALIZAÇÃO E MENTALIDADE PAROQUIAL

or muitas décadas, fomos acostumados a pensar que o maior problema do mundo foi a confrontação Leste-Oeste. Hoje, somos conscientes de que o grande desafio são os relacionamentos Norte-Sul. Estou convencido de que a missão pode representar um papel importante para ir além dessas fronteiras, desses muros que existem no mundo atual. Um desafio que o mundo atual nos apresenta é o de uma comunhão mais intensa entre as Igrejas de nosso continente.

Devemos sair de uma mentalidade paroquial e nos abrir a uma mentalidade mais solidária entre Igrejas. Devemos viver uma experiência de globalização da esperança. Toda a tradição de nossa fé nos diz que o Espírito de Deus está presente no encontro, que é um momento de gratuidade, além das categorias do útil e do inútil. Quando lemos o Evangelho, vemos que Jesus viveu vários encontros gratuitos, que manifestou o amor do Pai através destes encontros, que levaram à amizade e à fé nele.


Celebração inculturada no Cam 2

Nos primeiros capítulos do Evangelho de Lucas, encontramos o texto da visitação de Maria à sua prima Isabel, que nos lembra que “Deus visita e resgata seu povo”, que a missão é, antes de mais nada, a missão de Deus. A missão não é, em primeiro lugar, geográfica, e sim teológica. Podemos fazer sua experiência toda vez que saímos de nós mesmos e que nos abrimos ao outro, como Maria que foi ao encontro de Isabel.

Durante muitos séculos, os missionários foram do norte para o sul, mas hoje, com as migrações, com os trabalhadores sazonais, estão se produzindo novas experiências missionárias. Há paróquias da minha diocese que estão sendo renovadas pela vinda de trabalhadores latino-americanos. Nenhuma Igreja pode encontrar a solução a todos seus problemas dentro de si mesma. O magnífico decreto Ad gentes nos diz que a caridade, que está disposta a ir até o fim do mundo, renova a Igreja.

Uma Igreja morre quando se fecha sobre si mesma. Há alguns anos, cheguei à conclusão de que os jovens de nossa diocese que se engajam na vida da Igreja, muitas vezes, viveram projetos de solidariedade que abriram sua vida aos mais pobres de nosso planeta. Parece-me que esta visão de uma nova relação entre o norte e o sul pode ajudar a desenvolver uma nova consciência de nosso continente e uma nova consciência da missão como encontro. Devemos desenvolver a reciprocidade, viver a missão como aprendizado a dar e receber; não só dar, mas dar e receber.

MISSÃO E DIÁLOGO

Todavia, não podemos restringir a missão às fronteiras de nosso continente. Em 11 de setembro de 2001, os camicases que entraram nas torres do World Trade Center em Nova Iorque, fizeram isso em nome de Deus. Aqueles que os combatem também o fazem em nome de Deus. Samuel Huntington, no seu livro famoso “O choque das civilizações”, afirma que a força central que mobiliza as pessoas nas culturas de hoje é a religião. Ele acredita que estamos indo rumo a um enfrentamento entre as civilizações. Devemos reconhecer que não faltam pessoas que desejariam atualmente desenvolver uma nova mentalidade de cruzada diante do islã.

Devemos também reconhecer que, no passado, a missão foi muitas vezes vivida como conquista. Um dos desafios maiores para nós, hoje, é viver a missão como diálogo. Desde o Concílio Vaticano II, muitos documentos nos têm falado da importância de desenvolver uma cultura do diálogo. Não é suficiente alegrar-se desta abertura da Igreja como se tratasse unicamente de uma nova atitude de tolerância. Devemos também refletir sobre os fundamentos dessa nova atitude. Existe na vida da Igreja, hoje, uma nova valorização das religiões.

Em um discurso proferido depois do encontro de Assis em 1986, o papa João Paulo II pronunciou uma palavra de grande importância sobre o diálogo inter-religioso, dizendo que “toda oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo, que está misteriosamente presente no coração de toda pessoa humana”. O diálogo não é sempre uma realidade fácil e toda religião carrega suas ambigüidades. Mas o diálogo nos lembra que a missão da Igreja não é, em primeiro lugar, aumentar o número dos cristãos, mas, em solidariedade com todos os homens e mulheres de boa vontade, dar testemunho do Reino de Deus que vem.

Essa cultura de diálogo parece-me particularmente importante em um mundo onde muitos querem propor soluções aos problemas internacionais através da violência e da guerra. A cultura do diálogo é uma cultura da paz.

ANÚNCIO DO EVANGELHO

A necessidade do diálogo não tira nada à urgência da missão que, normalmente, deve ir até o anúncio explícito de Jesus Cristo. No coração da missão há um imenso desejo de falar do amor de Deus manifestado em Jesus, o Senhor. Era o desejo que habitava o coração dos grandes missionários. No meu país, fala-se muitas vezes de uma crise da fé, mas eu me pergunto, às vezes, se não se trata mais de uma crise do desejo. A sociedade de consumo onde vivemos arrisca apagar o desejo.

Isso explica talvez por que muitos gemem sobre as dificuldades do tempo em que vivemos, mas não estão dispostos a engajar-se. É bom ver as estruturas que não funcionam, mas, para criar um mundo novo, são necessários atores prontos a arriscar sua vida. Jonas foi enviado à grande cidade de Nínive, mas teve medo. Precisou de um “retiro” de três dias no ventre de uma baleia para decidir-se a tomar o caminho que lhe indicava o Senhor. Também nós, muitas vezes, temos medo de anunciar o Evangelho nas grandes cidades e, todavia, essas grandes cidades exercem uma função importante no mundo atual.

Elas representam um imenso desafio para a missão. Muitas vezes, nos queixamos de que, depois de terem recebido os sacramentos do batismo e da crisma, muitos católicos se afastam da Igreja e até da fé. A causa dessa situação não vem talvez do fato de que não houve a descoberta da missão?

UMA ATITUDE A SER DESENVOLVIDA NA IGREJA

Quem me convidou a este Congresso me dizia que esperava que o Cam 2-Comla 7 nos ajudasse a escrever uma página dos Atos dos Apóstolos hoje. Nós temos, muitas vezes, uma visão bastante novelística do livro dos Atos. Temos o esquema simplista duma expansão constante e gloriosa da Palavra, de Jerusalém até Roma. Esta visão não resiste a uma leitura atenta. No final do livro dos Atos, encontramos um Paulo isolado no apartamento que lhe serve de cela em Roma.

Sua missão é aparentemente um fracasso e isso parece ser também uma lei da missão. Mas o livro dos Atos termina afirmando que Paulo “ensinava o que se refere ao Senhor Jesus Cristo com plena firmeza e sem impedimento” (At 28,31). Parece-me que esta atitude se adapta perfeitamente à situação em que vivemos. A “plena firmeza” (em grego “parresia”) quer dizer segurança, coragem, entusiasmo, vigor. Uma palavra que quer dizer que não estamos na defesa nem em fuga.

O livro dos Atos nos diz também que Paulo ensinava “sem impedimento”, isto é, que a Palavra de Deus não está algemada (2Tm 2,9), nada pode parar sua corrida. Aqui está o fundamento de nossa esperança.

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