Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

 

em todas as dioceses acordaram ainda para a necessidade e a importância de uma comissão ou equipe diocesana de liturgia. Em algumas já existe. Em outras (e não são poucas) há dificuldades na implantação. Os motivos são variados. Talvez porque ainda se dê pouco valor à liturgia.

Ou porque tem gente que pensa não ser necessário aprofundar a liturgia, organizar a pastorallitúrgica e qualificar as celebrações:

acha que está bem assim. Em outras palavras, "não sabe, não quer aprender, mas quer fazer liturgia"! Ou, talvez, ainda não aprendeu a trabalhar numa pastoral de conjunto, deixando que cada padre ou paróquia trabalhe individualmente. Ou, ainda, porque falta gente preparada. Mas, então, por que não as preparamos?!

O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS

A Constituição sobre a Sagrada Liturgia (04/12/1963), do Concílio Vaticano 11, depois de lembrar a preocupação da Igreja, nestes últimos tempos, "de fomentar e reformar a Sagrada Liturgia" (um verdadeiro "sinal dos desígnios providenciais de Deus..., passagem do Espírito em sua Igreja") (n.º 43), determina explicitamente que haja "em cada diocese, uma Comissão de Liturgia, para promover a ação litúrgica, sob a orientação do Bispo".

Num documento seguinte (26/09/1964), já aplicando as determinações do Concílio, fala-se com maiores detalhes das tarefas da comissão litúrgica, a saber: conhecer a situação da ação pastoral litúrgica na diocese; colocar em prática o que foi estabelecido pela autoridade competente, bem como acompanhar os estudos e iniciativas tomadas em outras regiões; sugerir e promover iniciativas práticas que possam contribuir para dar impulso à causa litúrgica; sugerir, em casos particulares e até para toda a diocese, linhas de pastoral litúrgica, propondo meios, assessorias e subsídios adequados; incentivar e apoiar as iniciativas que vão surgindo no sentido de promover o aposto lado litúrgico... (Instrução Inter Oecumenici, n.º 47).

Na América Latina, o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), I no documento de Medellín (1968), insiste também que "o bispo, responsável pela vida litúrgica, deve promovê-Ia, valendo-se da comissão diocesana ou inter-I diocesana, recomendadas pelo Concílio, compostas de estudiosos da liturgia, I Bíblia, pastoral, música e I arte sacra" (cap. n.º 9. item n.º 8).

Num documento de preparação ao encontro do CELAM, em Medellín, foram especificadas as tarefas da comissão:

atualizar o clero, acompanhar a ação pastoral litúrgica da diocese, organizar cursos ou encontros para leigos para a formação de equipes de liturgia em todas as comunidades, sugerir e promover iniciativas práticas em vista de progresso da liturgia, etc. Num encontro internacional de todos os presidentes (secretários das comissões nacionais de liturgia, em Roma por ocasião dos 20 anos da Constituição litúrgica do Vaticano II, foi lembrado outro aspecto da 'vida destas comissões, a saber: elas deveriam "fazer parte dos organismos ativos da Cúria episcopal" (cf. Revista de Liturgia, n.º 67 1985, p. n.º 14).

Na verdade, aqui vale o que já foi dito a respeito das equipes paroquiais (cf. Mundo e Missão n.º 98 2005, p. n.º 35): elas "devem estar entrosadas com as outra pastorais em nível diocesano, devem acompanhar a vida sócio-política da região e a atuação dos cristãos na sociedade, para que tudo isso possa ser refletido à luz da fé e celebrado nas liturgias. Isso só é possível quando funciona, m diocese, a pastora I de conjunto, onde todas as pastorais refletem e decidem juntas as grandes linhas da pastoral" (1 Buyst. Equipe de Li/urgia, Petrópolis, Vozes, 2000, p. n.º 51)

TRABALHO A SER FEITO PELAS COMISSÕES...

Além das taretàs já apontadas pelos documentos, nossa teóloga liturgista Ione Buyst indica ainda outras, benconcretas e práticas, a título de orientação para o desempenho das comissões.

"Muito trabalho pode ser feito", come por exemplo:

  • "- percorrer as paróquias e comunidades, para ver come estão celebrando; se há equipe e como ela está funcionando, quais suas dificuldades e necessidades; anotar as coisas boas que podem ser transmitidas a outras comunidades e equipes; anotar as possíveis falhas ou sugestões para um trabalho posterior;
  • - a partir deste constante levantamento e contato sugerir e organizar cursos e encontros de formado em nível paroquial, região pastoral ou diocese;
  • - divulgar subsídio de fácil acesso aos leigos (linguagem acessível) para a formação litúrgica dos agentes de pastoral e textos para as celebrações;
  • - fazer, junto com as equipes, levantamento e estudo das práticas religiosas do povo (religiosidade ou piedade popular): orações, celebrações, músicas, ritos...;
  • - divulgar a música litúrgica brasileira através de cursos, encontros, ensaios, formação de ministros do canto, fitas cassete, cd ou discos;
  • - organizar uma equipe de orientação litúrgica na construção, reforma e arranjo de espaços de celebração (igrejas, capelas etc.);
  • - em contato com outras pastorais, grupos e movimentos, provocar uma reflexão da ação litúrgica com jovens, famílias, pastoral operária, CEBs, pastoral de noivos, catequese, adolescentes, doentes, presidiários e presidiárias, comunidades religiosas, etc.;
  • - assessorar o bispo nas celebrações de caráter diocesano: missa dos santos óleos, celebrações em encontros ou assembléias;
  • - assessorar aquelas paróquias ou comunidades que pedirem orientação e acompanhamento mais sistemático na organização de sua vida litúrgica. (Estas comunidades mais trabalhadas podem se tornar um tipo de experiência-piloto, onde outras encontrarão inspiração para a sua própria renovação litúrgica);
  • - contatar constantemente as equipes ou comissões regionais e nacionais da CNBB para troca de experiência e de material, para acompanhamento da caminhada da Igreja no Brasil;
  • - prestar atenção aos documentos do CELAM e da Santa Sé;..." (ibid., p. n.º 51-52).

CONCLUINDO

Pelo que vimos, penso que a qualificação ritual, teológica, espiritual e pastoral das celebrações litúrgicas, como é "desejo ardente" da Igreja a partir do Concílio Vaticano lI, também depende, e muito, da formação e atuação das comissões diocesanas de Liturgia. E o ingrediente básico para tal atuação é, sem dúvida, a paixão pela Liturgia, com a consciência de que é a partir desta fonte (escuta da Palavra e celebração dos Sacramentos, em comunidade) que as Comunidades crescem em espírito missionário.

PROMOÇÃO DA VIDA LITÚRGICA NAS DIOCESES

O Bispo, centro de unidade de vida na diocese

O bispo deve ser considerado como o sumo-sacerdote do seu rebanho, de quem deriva e depende, de algum modo, a vida de seus fiéis em Cristo. Por isso, todos devem dar a maior importância à vida litúrgica da diocese, que gravita em redor do Bispo, sobretudo na igreja catedral, convencidos de que a principal manifestação da Igreja se faz numa participação perfeita e ativa de todo o Povo santo de Deus na, mesma celebração litúrgica, especialmente na mesma Eucaristia, numa única oração, ao redor do único altar a que preside o Bispo, rodeado pelo presbitério e pelos ministros (35)".

(Sacrosanctum Concilíum, A Sagrada Liturgia n.º 41)

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